segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Poemas do Viandante (364)

Ana Peters - Niebla (1998)

364. CHEGO AO LIMITE ONDE A PAISAGEM SE DESVANECE

Chego ao limite onde a paisagem se desvanece
e os trilhos, em que caminhei, se apagam.
Olho e a tudo a névoa cobriu,
instalando sobre o mundo um véu igualitário,
ao geminar planícies e vales, montanhas e rios,
o mar com as suas trevas de sal e areia.

Nesse exercício de cegueira espero por ti,
e na queda de cada folha suspeito passos,
um bater de coração, a ruidosa pulsação do amor.
Mas o tempo, adverso ao desejo, rasga o papel
da esperança, a anunciadora do óbito a vir,
e joga-me no fundo das masmorras da terra.

Não há metáfora que ilumine esse lugar,
nem símbolo que indique a ascensão.
Resta ao viandante a cegueira por guia
e, na cerração que o envolve, caminhar,
traçar itinerários a que nunca voltará,
vigiar no fundo da alma a ilusão da manhã.