segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Poemas do Viandante (357)

Julio Romero de Torres - Canto de Amor

357. NÃO É VÃO AQUILO EM QUE O AMOR SE DEPOSITA

Não é vão aquilo em que o amor se deposita
e traz da invisível obscuridade para a luz,
fazendo eclodir sobre as águas uma sombra,
o cântico sereno do que chega à plenitude.
Nesse extremo cuidado de tudo cuidar abre-se
a lâmpada radiosa e sem mácula do meio-dia,
a hora em que o universo, por instantes, suspende
a marcha que o impele sempre mais além,
para redesenhar fronteiras e criar, onde nada
havia, o espaço para a nossa funda interrogação.

Aqueles que mais amam são os que perguntam.
Em cada pergunta cindem um átomo de amor,
pura energia libertada sobre as paisagens,
que se levantam perante os olhos da alma,
que assim vislumbra o mundo e a matéria,
as flores recolhidas no abraço de um ramo
deixado, como sempre fizeste, junto à parede
do fundo, a antecâmara dos dias felizes,
as horas em que, crianças sem ocupação,
nada sabíamos da nossa eterna sabedoria.

E logo que o nosso amor toca na raiz,
a árvore floresce e desdobra-se depois
em frutos, as tuas mãos presas nas minhas,
o teu corpo despido sugado pelo meu.
E a tudo o amor liberta da ávida servidão,
aos homens que perante o nada se ajoelham,
aos anjos que se calam diante do desastre,
a Deus preso no silêncio com que cobre a vida,
a deixa levedar entre miasmas de dor
e as rosadas pústulas do incerto prazer.

Canto nesta manhã a pura ascese da matéria,
o triunfo de cada corpo sobre o caos,
o ronronar flébil das agulhas na vastidão do
pinhal, breve pomar de antigas caravelas,
promessas que o tempo trouxe e logo desfez.
O fogo decanta o amor da impura inclinação
e abre-o para as paisagens que o amante
descobre na terrível solidão da coisa amada,
pomar vazio à espera de um olhar incendiado,
uma porta para a clareira do súbito fervor.