sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Poemas do Viandante (354)

Dante Gabriel Rossetti - Venus Verticordia (1864-68)

354. DESDOBRAS-TE EM MIL APARÊNCIAS

Desdobras-te em mil aparências,
essas velhas fotografias que assinalam a minha
ausência, perdido num mundo tão distante,
a amarga consciência de te não saber,
as horas que se tornaram dias, meses, a vida.
Ó pobre epopeia da perdição,
resta-me o desejo de te ter desejado,
nesses tempos em que a chuva caía, o sol raiava,
e as estações enfileiradas nos carris partiam,
umas atrás das outras; nunca mais voltaram.

Pego na tua face acabada de inventar
e desenho-lhe olhos, boca, nariz,
para contemplar a minha obra ao som da música
que se estende sob a copa bravia dos céus,
enquanto a violência do amor cresce,
estrondeia nas células da minha alma
e abre-se, flor de pétalas vermelhas cravejadas
de incenso, a glória descarnada desta mão.

Rasgo-te a carne com o sopro do sexo
e vejo o sangue fluir sobre a pele,
um risco insano e anémico traçado de luz,
um vale que se abre para que o cirza de saliva,
e ali construa a casa que me espera,
alicerces, paredes, janelas, um telhado de erva,
aquele jardim de anémonas pendendo na água,
a esperança de adormecer na esquina do teu corpo.

Tinhas a cegueira por nome e uma promessa
de floresta bravia, arvoredos banhados de insectos,
a luz de um anjo a saltar-te dos olhos,
e o corpo vazio à espera da minha sombra.
Sai da moldura onde te escondes e me evitas,
vem lábil e eterna, luminosa e negra poisar nesta
cama, de lençóis gastos e linho rasgado,
e deixa que imóvel o teu corpo se entregue
ao desconcertado zumbido do deus do amor.