domingo, 29 de julho de 2012

Poemas do Viandante (313)

313. DE QUE ME VALEM OS SENTIDOS

de que me valem os sentidos
se o que por eles vem está tocado de sombra
e deixa na boca um rasto amargo
como se tudo estivesse para acabar
e apenas restasse um sopro de escuridão
vindo pela fresta rasgada na parede
promessa adiada ou um sonho transfigurado

recolho-me no pensamento que me toca
e oiço o ribombar das águas no paredão
o mar vem solto fustigar o silêncio
e o mundo é uma luz dentro de mim
o seu brilho dói-me nas mãos
e se pergunto pelas horas
não há quem me dirija a palavra

há dias em que construo uma botânica
pequenas colecções de folhas
o irreprimível vício das taxionomias
se chegas ao abrigo de uma sentença
o meu coração debruça-se sobre a mentira
e conta uma a uma as pétalas de luz
que fulgem no incêndio desse olhar

retomo as informações que pelos sentidos
do mundo sob a máscara da verdade coligi
construo uma física precária
e com ela vou terra fora
sem bússola ou mapa que me guie
o sol ao pôr-se diz-me as trevas
e o coração anoitece dentro de mim