quinta-feira, 26 de julho de 2012

Poemas do Viandante (311)

311. TODAS AS PEQUENAS CIDADES QUE VISITÁMOS

todas as pequenas cidades que visitámos
são portos de abrigo ou enseadas amenas
aí esquecemos o tumulto dos dias
as pragas vindas do deserto
o meu coração exíguo e sem dono ou destino

fórmulas para ser feliz não existem
disseste enquanto passavas a mão pelos cabelos
e a tarde trazia um sol irrevogável
sentença decisiva no curso dos astros
dor a invadir-me a pele e a explodir no ventre

caminho a teu lado preso na sombra
sou um caminhante secreto
e tudo o que me diz respeito é obscuro
e se procuras um sentido para as minhas palavras
encontras a luz vazia da contradição

cidades e campos ou a pura montanha
tudo se tornou indiferente
respiro o ar e não sei se é o mar que oiço
ou o vento esquivo da floresta
que me ateia a imaginação e deflagra a palavra

crianças gritam na paisagem
trazem nelas a dor da vida e não o sabem
e tu continuas na expectativa da minha existência
de o meu corpo ser um corpo
e que te ame segundo a norma que o hábito deu

sou apenas as palavras que escrevo
desisti da minha carne e dos meus ossos
abandonei os sentidos e a paixão da razão
tudo se resume a um léxico pobre
e a uma frágil gramática de sintaxe suspensa

quando cantam os pássaros nas árvores do jardim
cerro os olhos e sonho com o dicionário
palavras a seguir a palavras
o sentido inquieto e mutável
o desejo do teu sexo a abrir-se para mim

uso uma adversativa se anoitece
e trazes nas mãos uma taça de amoras silvestres
mas tudo em ti se estende para o meu abraço
e eu olho-te na incerteza de quem sou
e encontro no fundo de ti a solícita âncora

naqueles momentos em que tudo se suspende
quase oiço a voz de deus
leve e delida traça uma senda de palavras
e eu escrevo pois o altíssimo fala no deserto
e não oiço o que ele exausto me diz

toda a vida amei a deus sobre todas as coisas
mas era em cada coisa que o sentimento se fixava
nos olhos fugidios que assaltavam os meus
ou naquela face que se abria no seu mistério
e fascinado me fazia sonhar com o jardim do éden

o rio da minha vida nunca teve rumo
a jusante ou a montante apenas a floresta
o barco que me leva perdeu o barqueiro
deixou-me só e sem remos
anjo solitário e sem espada à porta do paraíso

poiso a minha mão na delicadeza da tua
e sei que o dia já foi mais claro
sorrio para à luz dos teus olhos
e oiço o crepúsculo a crepitar na vida
fogaréu na fresta inútil que ilumina a clareira