sexta-feira, 6 de julho de 2012

Poemas do Viandante (291)

João Queiroz - Sem título (?)

291. UM PORTO EM RUÍNAS DEBRUÇADO SOBRE O MAR

um porto em ruínas debruçado sobre o mar
batido pelo sal furioso das águas
iam e vinham e voltavam irascíveis
atiravam-se violentas sobre a pedra
e rosnavam no seu hálito marinho
uivavam se a rocha se erguia e resistia
e tornavam sempre e sempre
movidas pelo frio do vento
e um desejo de vingança inscrito nas ondas

uma fotografia de família lembrava a tempestade
um rasto de árvores arrancadas e raízes ao sol
o silêncio das palavras por dentro da fúria
tudo isso fotografado de longe
agora impresso em papel brilhante
o desespero de guardar na memória o imemorável
a hora em que o perigo se inclina sobre nós
e uma ave de veludo lembra o anjo da morte

se clareia sobre a cidade
apagam as luzes e deixam que o dia venha
com o seu cortejo de ofícios
o sólido argumento da dor iluminada
a pressa esquiva da urgência fatal
as ruas crescem de pessoas e de passos
fantasmas especados sob o império do sol
candelabro de sete braços
a impenitência de dormir pelos jardins

o trigo joeirado é agora pão
e sento-me para transformar o mundo
incendiar os castelos e vilas fronteiriças
abrir rombos  nas linhas inimigas
paciente espero pela audácia da noite
enquanto escrevo uma carta de amor
sob o véu vermelho da distância
um copo de vinho e pão sobre a mesa