segunda-feira, 9 de julho de 2012

Poemas do Viandante (294)

João Queiroz - Sem título (2008-9)

294. NÃO HAVIA FALÉSIAS OS MONTANHAS ESCARPADAS

não havia falésias ou montanhas escarpadas
a luz chegava tingida de cetim e brilhava um instante
para descer a pique sobre a planície e morrer
uma morte nascida de um impulso interior
a vida íntima despenhada na crueza da paisagem
aquele grito que sufocaste ao partir

era uma mecânica frágil assente num plano inclinado
íamos e vínhamos e a tua voz rouca cantava
as ruas ainda eram pequenas passagens
segredos entreabertos no corpo adormecido da vila

um pensamento chegava e eu seguia-o na luz que trazia
deixava-o brilhar por um instante
incandescer sobre a frágil mobília da casa
criar a ilusão de um amor pela junção fria dos corpos
estilhaçar todas as esperanças que o deus enviava

não quero saber da eternidade nem me fales por parábolas
pertenço a uma estirpe que não ama mistérios
e as palavras que ouvimos são transparentes e afáveis
deixam correr o mundo nelas sem dor ou metafísica
palavras plásticas para as coisas de plástico
palavras musicais para tudo o que tem ritmo e dança
palavras de vento para o que nasce no mar e é salgado
basta que te dispas e entregues o corpo à minha língua
e deixes ondular a respiração sobre o caos da melancolia

esqueci a hora em que amei pela primeira vez
essa experiência mutilada  nascida da ignição do desejo
uma conjura ditada pela dinâmica hormonal
o cansaço das paredes e os jardins rombos da imaginação
tudo se confundia na sombria inquietação do instinto
a seda dos corpos e o veludo febril do pensamento

não me recordo já da época em que floriam as glicínias
o pavor que havia se uma perturbação rondava
ou das horas em que oravam perante a sagrada família
esse culto nómada que de casa a casa leva uma ordem
um estranho arranjo de imperativos e súplicas
o desespero das pequenas gentes pela enormidade da vida

toco na lua com os meus dedos manchados de tinta
e o céu exausto de tantos olhares escurece
ó negra cúpula erguida sobre os pilares vindos da terra
uma ardósia escrita a sangue e estrela cadentes
em cada ferida que dilacera a alma faço cair o álcool
e na escura noite grito o teu nome preso nas trevas
o milagre de escutar a música das esferas celestes