quinta-feira, 5 de julho de 2012

Poemas do Viandante (290)

João Queiroz - Sem título (2005)

290. O FILAMENTO INCANDESCENTE DA LÂMPADA QUEBROU-SE

o filamento incandescente da lâmpada quebrou-se
e sobre o mundo vieram densas trevas
um segredo marítimo trémulo como uma quimera infantil
o antigo exercício de obscuras profecias

de onde vem o pão e o trigo e a semente e a água
e a terra e o que a terra traz em seu seio
e as palavras que nela habitam e são enigma
pego no mistério da palavra e desfaço-o em sílabas
e cada sílaba abre-se em ínfimos átomos
que se decompõem em partículas
pura energia e nela habita o latir do cão
o ronco de um motor no escuro dos campos
a tua mão abandonada ao vento

o pé da videira brota do pó ensanguentado
ergue uma promessa de vinho à tua mesa
desenha uma aritmética silenciosa
onde mãos sorrateiros se inclinam para os cachos
e nos lagares há um cheiro a mosto
à sombra deixada por cristo na última ceia
o grito de guerra do batalhão conduzido para morte

pego num verso e deixo-o morrer 
olho o cadáver hirto e preso na lividez
e sonho no poema um cemitério
as campas ordenadas segundo uma funesta geometria
e vendo-se ao longe eternos ciprestes
sombreando campas ávidas de poetas

o ódio visceral semeia terraços de papoilas
ali crescerá a cidade sobre a indiferença do olhar
as autoridades ordenarão o espaço
tracejarão ruas e praças a promessa da morte
e no centro haverá uma festa
diónisos dormirá sob o olhar radiante de apolo

não há quem cante nas ruas desertas
o orvalho secou nas rosas abertas
e os passeios escondem o suado arfar da terra

despes-te e não encontras o corpo
julho aqueceu-o e tomou-o por dentro
dilatou-lhe as células levedadas pelo desejo
ergueu-as e cresceram para o céu
eram nuvens incandescentes
segredos trémulos as lâmpadas de água

sobre a cidade o campo choveu