sábado, 14 de julho de 2012

Poemas do Viandante (299)

João Queiroz - Sem título (?)

299. O SENTIMENTO DE QUE TUDO ESTÁ PERDIDO

o sentimento de que tudo está perdido
a voluptuosa decisão de deixar o mundo entregue
ao desvario da humanidade ou à rotação dos astros
fonte de prazer e secreto amor da perdição
um espelho gasto onde a alma se vê
murmúrio que trespassa a cólera da inocência

invento aos teus olhos um idioma
as palavras são secas e as vogais fechadas
e componho longas cartas
promessas de amor nunca cumpridas
um tratado breve sobre vulcões
e a pequena liturgia com que adormeço

espero-te na fímbria dos dias claros
espero-te na orla das trevas
o meu coração é um deserto sem pólen
uma fornalha esfriada pela noite
pobre flecha que perdeu o alvo
rumor sinistro na glória do teu esplendor

poderia voltar ao velho para quê de holderlin
mas não me cabe tão tormentosa questão
descobri que todo o tempo é de indigência
pois ele o ladrão tudo a todos rouba
e quanto mais furta mais pobre ele é
nesse seu eterno fluir para lado algum

ao acordar nunca sei onde estou
se na cidade que vejo ou na montanha sonhada
nunca sei o que faço nesta cama
e o que cobrem os lençóis que me cobrem
ao acordar estou já cansado do que vejo
e o sono pesado inclina-me para a escuridão

amo senhor a pobreza que me deste
a pequenez velada da adolescência
os dias incongruentes em que crescia
amo acima de tudo o nunca ser amado
pequena sombra entre estrelas rutilantes
o chão de terra que me deste por habitação

pego num livro e percorro-lhe as páginas
e a memória vai passado afora
entra dentro daqueles cidades
que no deslumbramento da viagem amámos
um amor breve e incendiado
as ruas percorridas de mãos dadas

desisti de cada teoria que estimei
componho o jardim com frases soltas
pequenas citações e plantas anémicas
a água está cara e tudo morre à sede
a dialéctica dos dias e a analítica da morte
o borbulhar inconsciente do coração

um homem novo prometeram-nos
mas a semana passou e a mercadoria perdeu-se
os caminhos estão perigosos
os bandoleiros não descansam
e o comércio prefere vender água destilada
e caramelos turvos e sem açúcar

sou velho e na minha velhice falta-me a flor
a memória dos dias em que o não fui
a possibilidade de um dia ter sido exuberante
nada em mim se ilumina ao rememorar
nada em mim se incendeia pelo fogo do passado
nada em mim requer outra hora que não esta

nos dias de chuva olho as gotas na vidraça
e lá fora passam carros aquáticos
dois cães molhados ganem nos semáforos
e sob os guarda-chuvas há rostos que não sei
deles vem até mim uma sombra pálida
o grito emudecido que cantava na boca

sou um citadino exilado no ventre da cidade
pobre apátrida de olhos velados e mãos frias
gestos imprecisos semeados à luz do dia
passam macilentos e cansados os eléctricos
uma música suave sobre o chão em fogo
e tudo em mim se encerra na prisão da tarde

o que fiz com os sonhos que a noite oferecia
estranha pergunta de quem sofre de alucinações
e deseja com ardor um momento de lucidez
a hora onde o sonho se esvai
e tudo na realidade se torna plausível
os carros a lua ou o anel de noivado que esqueci

sempre pensei que uma metáfora era um náufrago
o desespero abandonado nas águas do oceano
a frágil capa que punhas nos dias de inverno
rememoro cada hora passado nos escombros da vila
o cerco antigo posto às muralhas decrépitas
o escândalo de nunca ter amado o rock-and-roll

lembro-me de ti senhor se troveja
ou um incêndio cobre as matas e os campos
fogaréus brancos na esplanada das mãos
trago a vida vazia no bolso do casaco
e a lua chega sempre em quarto minguante
uma promessa adiada na penumbra do amor

estará tudo perdido neste tempo fruste
na hora onde esquecemos o que nos ensinaram
esses antepassados que julgámos ridículos
presos na erva das suas convenções
apertados no estreito vestido herdado
cansados do joio que a manhã trazia

a mácula do sentimento é inútil
disseste e entregaste-te nos meus braços
a cabeça inclinada e o coração descompassado
bebi o vinho que havia em ti
e adormeci sobre o corpo baldio
enquanto um sino tocava as trindades

invento mansamente o ardor do instinto
e jogo ao crepúsculo a sorte bravia
o que vier trará a sua luz sobre as trevas
e quando o galo cantar na madrugada
um novo espírito virá sobre a montanha
e para mim tudo será crepúsculo