terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Suspender a violência

Juán José Vera - Violência (1962)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Nas vossas orações, não sejais como os gentios, que usam de vãs repetições, porque pensam que, por muito falarem, serão atendidos. Não façais como eles, porque o vosso Pai celeste sabe do que necessitais antes de vós lho pedirdes.» «Rezai, pois, assim: 'Pai nosso, que estás no Céu, santificado seja o teu nome, venha o teu Reino; faça-se a tua vontade, como no Céu, assim também na terra. Dá-nos hoje o nosso pão de cada dia; perdoa as nossas ofensas, como nós perdoámos a quem nos tem ofendido; e não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do Mal.’ Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso Pai celeste vos perdoará a vós. Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso Pai vos não perdoará as vossas.» (Mateus 6,7-15.) [Comentário de Francisco de Assis aqui]

O discurso de Cristo aos discípulos começa com uma reflexão sobre o modo de orar para concluir com uma regra de conduta relativamente ao outro. A finalidade é de mostrar que o essencial da oração, dessa relação com o divino, não é a prática de um encantamento, a repetição mágica de um formulário, mas a atitude que se tem na vida para com os outros. A ofensa é aquilo que quebra a relação, que destrói a comunidade, que limita a liberdade. Curiosamente, é o perdão da ofensa pelo ofendido que representa a iniciativa restauradora da relação, da comunidade e da liberdade. Não basta o pedido de perdão pelo ofensor, é necessário que o ofendido exerça a sua liberdade e a sua iniciativa perdoando, é necessário mesmo que antecipe o pedido do ofensor pela sua inciativa de o perdoar.

Isso, porém, não significa que entre a oração encantatória e mágica atribuída aos gentios e a atitude existencial do perdão não exista oração. Esta, talvez a mais célebre oração do cristianismo, é a Oração do Senhor ou Pai Nosso, cuja núcleo central é a realização da vontade divina na terra. É a realização desta vontade que permite compreender a transição entre uma oração meramente encantatória e o exercício do perdão pelos ofendidos. Qual o significado de tudo isto? A suspensão do princípio de justiça assente no olho por olho, dente por dente, a anulação da vingança como princípio relacional entre os homens.

Uma das interrogações que poderemos ser levados a fazer prende-se com a tentação. Que tentação é a que refere o texto de Mateus? Possivelmente, todas as tentações que ofendam o outro, todas aquelas que são movidas pelo Mal. Mas, pela sua proximidade textual, a que está em causa de forma mais eminente é a tentação de não perdoar a ofensa, de continuar a violência com uma nova violência. Se se atentar na crítica da repetição presente na oração dos gentios, podemos pensar que estes exercícios miméticos possuem um potencial negativo. O essencial da relação do homem com Deus não é o assédio que impõe ao divino através da repetição das palavas, mas a suspensão da repetição mimética da violência.