sábado, 23 de março de 2013

Sacrifício e universalidade

Giovanni Battista Piazzetta - El sacrificio de Isaac (1712-14)

Naquele tempo, muitos dos judeus que tinham vindo a casa de Maria, ao verem o que Jesus fez, creram nele. Alguns deles, porém, foram ter com os fariseus e contaram-lhes o que Jesus tinha feito. Os sumos sacerdotes e os fariseus convocaram então o Conselho e diziam: «Que havemos nós de fazer, dado que este homem realiza muitos sinais miraculosos? Se o deixarmos assim, todos irão crer nele e virão os romanos e destruirão o nosso Lugar santo e a nossa nação.» Mas um deles, Caifás, que era Sumo Sacerdote naquele ano, disse-lhes: «Vós não entendeis nada, nem vos dais conta de que vos convém que morra um só homem pelo povo, e não pereça a nação inteira.» Ora ele não disse isto por si mesmo; mas, como era Sumo Sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus devia morrer pela nação. E não só pela nação, mas também para congregar na unidade os filhos de Deus que estavam dispersos. Assim, a partir desse dia, resolveram dar-lhe a morte. Por isso, Jesus já não andava em público, mas retirou-se dali para uma região vizinha do deserto, para uma cidade chamada Efraim e lá ficou com os discípulos. Estava próxima a Páscoa dos judeus e muita gente do país subiu a Jerusalém antes da Páscoa para se purificar. Procuravam então Jesus e perguntavam uns aos outros no templo: «Que vos parece? Ele virá à Festa?»  (João 11,45-56) [Comentário de Leão Magno aqui]

Este passo de João é essencial para compreender, do ponto de vista da elite sacerdotal e intelectual judaica, a morte de Jesus. Segundo a perspectiva de Caifás, a qual parece ter sido seguida pelo Sinédrio, Cristo deveria ser sacrificado. A morte de Cristo não é um acto meramente político, mas, da perspectiva dos seus opositores judaicos, um acto religioso, um sacrifício humano que visa salvar a nação ou povo e congregá-lo, fomentando, desse modo, a sua unidade. Há assim uma clara consciência de que aquela morte tem por finalidade fazer frente a uma dada crise comunitária através de uma saída sacrificial. Estamos perante uma prática arcaica, semelhante, por exemplo, ao sacrifício de Ifigénia pelos helenos, antes de e para rumarem a Tróia.

Estamos perante a génese da ruptura entre o monoteísmo judaico e o novo monoteísmo que emerge com Cristo. A ruptura dá-se não na compreensão da morte de Cristo como um sacrifício, mas na interpretação da finalidade e consequências desse sacrifício. Do ponto de vista da elite judaica, o sacrifício humano de Jesus de Nazaré inscreve-se numa longa tradição sacrificial presente na generalidade das religiões antigas. O sacrifício inscreve-se numa lógica utilitarista. Alguém – ou alguma coisa – é sacrificado para uma comunidade ou indivíduo obter alguma coisa. No caso presente, o sacrifício tinha um fim explícito: manter a comunidade viva e assegurar a sua unidade.

A interpretação cristã, contudo, é surpreendente, mais uma vez. O que vai ser imolado não é um simples ser humano, mas um homem que é filho de Deus. As consequências serão completamente diferentes daqueles que foram propostas, no Sinédrio, por Caifás. Rompem com a limitação étnica e põem de lado uma visão política de âmbito paroquial, para usar uma expressão anacrónica. O que está em jogo é um sacrifício que liberte o homem, que o salve. Não este ou aquele judeu ou o povo eleito no seu conjunto, mas todo e qualquer homem.

Estamos, de facto, perante uma primeira e efectiva globalização espiritual, para utilizar um termo também ele intempestivo. O sacrifício crístico visa preservar a humanidade e assegurar a sua unidade, visa congregar todos os homens num só espírito. A diferente interpretação do sacrifício de Jesus reflectiu-se, como dois mil anos de história o mostraram, no destino do judaísmo e do cristianismo, encerrando o primeiro no âmbito de uma particularidade étnica originária e fazendo do segundo um movimento espiritual que, pela sua essência, tem um cariz universal.

É esta natureza universal do sacrifício crístico – e não meramente étnico-cultural – que traz uma segunda e definitiva consequência: a partir do momento do sacrifício Cristo, todo e qualquer sacrifício humano é compreendido como ilegítimo, como um mero crime contra a pessoa. Na verdade, o sacrifício de Cristo trouxe consigo o imperativo da abolição de todo e qualquer sacrifício humano ou mesmo o sacrifício de outros animais. É a partir desse mesmo sacrifício que, retrospectivamente, podemos compreender a ilegitimidade de todos os sacrifícios humanos que a história dos homens registou. Deparamo-nos aqui com um ponto limite: a utilidade do sacrifício crístico foi a de mostrar a inutilidade – e o carácter criminoso – de todo e qualquer sacrifício de uma vida.