Luto contra a inércia e a indolência. Sento-me e obrigo-me a escrever e a trabalhar. O corpo, porém, é arrastado por um espírito em devaneio e por uma sombra nebulosa que parece cair sobre o cérebro e invadir os braços e o peito. Há um desfalecimento da vontade, mas este desfalecer é tão físico que quase o posso tocar. Talvez agora perceba por que motivo a preguiça é um pecado mortal. Nela habita a morte da vontade, de qualquer vontade, boa ou má. Mas, se olho com mais atenção, surpreende-me que ela seja considerada um pecado, como uma má escolha do meu livre-arbítrio. Eu não quero a preguiça, a indolência, a inércia da vontade. Apenas as sofro e sofro dolorosamente como se me atingissem no mais fundo do meu ser e me destruíssem, lentamente e com determinação. Por vezes, a quantidade de força para vencer a inércia é tão grande que me desgasto só na mobilização da vontade. Na base da preguiça existe uma desordem no ser, como se os elementos estivessem desestruturados e para conduzir a vontade à acção fosse necessário um árduo trabalho de reconstrução. Ao fim de tantos anos, sei que sozinho jamais conseguirei triunfar sobre este desarranjo estrutural. Mas será que sei abrir-me àquilo que ainda há de saudável no fundo do meu ser? Sim, pois apesar das contínuas derrotas de uma vontade frágil, nunca, até hoje, deixei de ter esperança de que as coisas acabariam por ser de outra forma, embora não saiba como será essa outra forma.
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segunda-feira, 19 de maio de 2008
domingo, 11 de maio de 2008
Essa coisa obscura
Uma estranha volúpia arrasta-me para a inacção, deixa-me pregado ao nada, mergulha-me na mais escura preguiça. É um estranho prazer o de ficar a ver o tempo passar e sentir-me incapaz de inscrever seja o que for no curso do mundo. Qualquer coisa serve então como distracção e o espírito agarra-se a ela como ao maior dos bens. Um pequeno nada é suficiente para que o essencial se perca e eu me perca nessa nulidade. É como se de um ponto indistinto qualquer coisa apelasse em mim para a negligência. O mistério de tudo isto não está na tentação, pois essa reconheço-a com facilidade e identifico-a a operar em mim desde há muito, desde os bancos da escola onde aprendi as primeiras letras. O mistério está todo naquilo que me tenta e me arrasta, nessa coisa obscura que toma, de cada vez, novos disfarces e me conduz sempre e sempre à mais desesperante nulidade.
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segunda-feira, 5 de maio de 2008
Margem segura
Um dia perdido em divagações e impotência. Em nada do que faço adiantei um milímetro que fosse, apenas as horas passaram e eu passei com elas, como se o meu destino fosse apenas passar. Desespero de mim e lanço um grito de angústia na noite que cai. Quem me escutará? Sinto no corpo uma lassidão tão grande e no espírito uma fria indiferença por tudo o que me compete fazer. A vontade frágil soçobra num mar de indolência e eu sinto-me a afundar e deixo-me ir como se dar aos braços e rumar para a margem segura fosse a mais difícil das tarefas que cabe ao homem no mundo.
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sexta-feira, 2 de maio de 2008
Escrevo pelo silêncio
Estou seco. Cheguei a casa vindo do contacto com as gentes, e esta estadia fora do lugar onde o silêncio me pode acolher deixa-me tão gasto que a energia que resta apenas serve para me manter, distraído e em repouso, à tona da vida. O espírito fecha-se em si e o corpo pede-me o abandono que só a preguiça parece poder dar. Agarro-me a estas palavras para resistir. Escrevo-as, na debilidade que me atinge, para ficar um pouco mais forte e mais apto para me entregar ao silêncio e à escuta daquilo que pelo silêncio poderá vir. Escrevo na tarde para ouvir um rumor longínquo, escrevo como se orasse, escrevo para lutar contra a devassidão do cansaço e o brilho negro da morte. Escrevo para recuperar o silêncio que o mundo rouba, como se o mundo não pudesse ser outra coisa senão uma infinita cacofonia, uma torre de babel onde até os mais inanimados dos objectos tivessem uma língua e julgassem por bem fazê-la ouvir a quem passa. Escrevo para recuperar o silêncio das palavras, escrevo pelo silêncio da Tua palavra.
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domingo, 27 de abril de 2008
Sem Pátria
O dia passou e eu passei com ele preso ao tempo que corre. Sentado, perdi-me num mar de inutilidades, pequenas servidões a que o hábito me verga, incapaz de um gesto libertador. O coração sonolento deixou-se arrastar e a vontade, frágil vontade, foi impotente para marcar um rumo. Assim caminha o exilado na terra que não conhece, umas vezes vai por aqui, mas logo muda de direcção, recua e procura outro caminho, para, passado instantes, se desgostar da nova senda e procurar outra e mais outra, como se não tivesse pátria para o acolher.
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sexta-feira, 25 de abril de 2008
A porta fechada
Há uma indolência que me impede de abrir caminho na floresta. De onde nasce? Por vezes julgo que a sua origem está nas coisas exteriores e na sedução com se apresentam ao meu olhar. Depois reconsidero e é em mim, descubro, que ela está. As coisas exteriores e o seu fascínio só me obscurecem porque há algo obscuro em mim. No centro do meu ser, há uma porta que se fecha e a luz que por ela deveria entrar não entra. O peso da porta amolece, sim, é esta a palavra certa, a vontade e o corpo deixa-se cair num torpor sem significado e sem horizonte. Nesse torpor, vou perdendo a vida, prendendo-me a isto e àquilo, como se tudo isso me distraísse da porta fechada que me pesa dentro do coração.
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