quarta-feira, 22 de maio de 2013

Eis aqui o homem

Baldomero Romero Ressendi - Ecce Homo

Saiu, pois, Jesus fora, levando a coroa de espinhos e roupa de púrpura. E disse-lhes Pilatos: Eis aqui o homem. (João 19:5)

Numa sociedade como a nossa, a apresentação do homem flagelado, amarrado, coroado de espinhos, em suma, completamente humilhado, caso a nossa época não estivesse saturada de imagens e não se tivesse tornado insensível a elas, seria uma verdadeira provocação. Os nossos tempos são tempos de homens vitoriosos. Só os vencedores contam. Quem quer rever-se numa imagem de um Cristo humilhado? O cristianismo tornou-se, para as ideias dominantes, aquilo que há de mais repulsivo. A repulsa nasce, em primeiro lugar, da má-consciência - quando existe ainda alguma consciênca - pois este homem humilhado e à beira da execução é a imagem fiel dos milhões de homens humilhados e sobre a dor dos quais se constrói a vitória dos vencedores.

A repulsa tem, porém, ainda outra origem. O que diz Pilatos à multidão ululante? Diz: Ecce homo (eis aqui o homem). Aparentemente, Pilatos estava a apresentar um homem particular, Jesus de Nazaré. Na verdade, porém, ele estava a mostrar à multidão o homem na sua humanidade. Ele devolvia à multidão a imagem de cada um, a terrível imagem da finitude e da impotência humanas perante os poderes do mundo. E é isso que a multidão daqueles dias, assim como os vitoriosos de hoje, não suportam. A arrogância, a velha hübris dos gregos que herdámos e com tanto vigor cultivámos, não suporta a visão do homem finito, limitado e, na verdade, absolutamente impotente perante a desmesura da vida e da morte. Este Cristo abandonado à dor e à morte é insuportável. E é insuportável porque nos detestamos na nossa verdadeira e última condição.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Presença e meditação

Eugène Carrière - Meditação (1900)

O senso comum pensa muitas vezes a meditação como uma espécie de ensimesmamento do sujeito, uma fuga da realidade e do mundo da acção. Os estados meditativos seriam, desse modo, uma alienação e uma errância do sujeito na sua vida interior. No entanto, esta visão é muito limitada. Os estados meditativos podem ser momentos de grande atenção à realidade, aquilo a que se poderia chamar uma sobre-atenção, onde o espírito se abre livremente para o fluir do acontecer. Por outro lado, a própria acção deveria ser consumada em estado meditativo, como se ela fosse a expressão directa de um espírito livre e atento a cada instante e a cada gesto. Isto só tem sentido, contudo, se se entender a meditação como a presença plena e desperta do sujeito em cada instante e em cada gesto, como a substituição dos estados representativos da inteligência pela presentificação do espírito na vida quotidiana, já que não há outra vida que não a quotidiana.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Poemas do Viandante (416)

Edward Burne Jones - O lamento (1866)

416. Nas cinzas de um lamento há uma rosa

Nas cinzas de um lamento há uma rosa,
a flor perdida da primeira inocência,
rasto severo da obscura mão do destino.
A maculada consciência é um fruto tardio,
memória de poeira em pedra de carvão.

Dobro-me sobre a vida que passou
e deixo correr entre dedos
cada momento em que o mal me tocou,
criou raízes na terra dura da verdade
e me abriu, negro e férreo, para a irrisão.

Não tenho palavras para todas as confissões.
Gastei-as errando pelas veredas de sombra,
abrindo caminhos de aço na solidão do mundo.
Entoo a patética elegia da inocência
e escuto rendido o amanhecer da saudade.

domingo, 19 de maio de 2013

Caminho interior

Kenneth Noland - Caminho interior (1961)

Na vida dos homens talvez não faça sentido distinguir entre caminho interior e caminho exterior. O único caminho - ainda que diferente para cada um - é o caminho interior. Na exterioridade, não há caminho algum, apenas becos sem saída, onde os homens desesperam e perdem o sentido das suas vidas. Em si mesmo, cada um encontrará o alvo para onde deverá dirigir a seta da sua acção. Quem se perde de si e mergulha nas trevas exteriores substitui o caminho pelo labirinto, do qual não tem o fio de Ariadne que lhe permita retornar à luz e à vida.

sábado, 18 de maio de 2013

Haikai do Viandante (143)

Albert Bierstadt - Atardecer en la pradera (1870)

O rumor da tarde
ateia incêndios nos céus.
Tudo, tudo arde.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

O prazer da transfiguração

Mikhail Aleksandrovitch Vrubel - A Primavera (1897)

Não sei se alguma Primavera me surpreendeu tanto quanto a deste quadro de Vrubel. No lugar da alegria triunfante sobre a noite invernosa, encontramos a pura contenção. No lugar da exteriorização, vemos a discreta interioridade. No lugar das cores vivas, são os tons melancólicos que dominam. Talvez toda a sabedoria se resuma em apreender em cada coisa o seu contrário e perceber a realidade como um todo indivisível. Na alegria primaveril é preciso intuir, de imediato, a melancolia do outono, e saber que nesta está já toda a esperança de uma nova primavera, como se para o espírito as várias figurações do tempo não passassem de um jogo em que o mesmo, aquilo que permanece idêntico, se entrega ao puro prazer da transfiguração.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Da fonte do amor

Jean Delville - L'amour des âmes (1900)

Na história da humanidade sempre o amor foi sentido como um excesso, não um excesso da natureza, mas um excesso que ultrapassa a natureza, como se esta, em si mesma, fosse incapaz de dotar os corpos de tão sublime sentimento. Um corpo é desejável. No entanto, o desejo é incapaz de explicar o amor, de explicar precisamente o amor que sinto por quem está num dado corpo. É nesta impotência da explicação empírica que o homem compreende que uma outra coisa é necessária para que o amor possa nascer. Esse lugar amoroso é a própria alma e todo o amor tem na alma a sua fonte. Duas almas amam-se e, de súbito, o desejo dos corpos é mais do que um desejo, é uma luz que cai sobre eles e, ao nimbá-los, torna-os sublimes.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Poemas do Viandante (415)

Frantisek Kupka - O desafio (1903)

415. Ergo o desafio tecido de vertigens

Ergo o desafio tecido de vertigens
e deixo fluir o medo,
a dor excessiva que fere a carne,
desenha o informe trazido pelo tempo
e crava o aguilhão no centro do peito.

No lago do passado, sobre as águas frias,
flutuam velhas caravelas,
barcaças rudes tracejadas a carvão,
umas mãos brancas e febris
estendidas para o vazio que as espera.

Nessa obscuridade a que chamam amor,
deponho as armas inúteis,
entrego o velho castelo
à sombra silenciosa da tua sombra
e aguardo o rigor cruel dessa boca.

Um presságio desenha-se no horizonte,
e o monstro que me espera
eleva-se na majestade dos céus.
O seu peso não tem medida
e o olhar rasga-me as entranhas da alma.

Perdi o ofício que me atava à vida.
Esqueci cada desafio trazido pelo tempo.
Exausto, anseio pela floresta,
e canto, imóvel e sereno, a loucura
do corpo lacerado pela solidão.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Orfismo e cristianismo

Alexandre Séon - Lamento de Orfeu (1896)

Os limites espirituais do politeísmo grego expressam-se plenamente no mito de Orfeu. Diz a lenda que tendo perdido Eurídice, a amada levada pela morte, Orfeu desce aos infernos para a resgatar para a vida. Consegue convencer os deuses infernais a libertarem a amada. Estes, porém, impõe-lhe uma condição. Que nunca olhe para ela enquanto durar a travessia do reino dos mortos. Orfeu, todavia, não consegue resistir à necessidade de certificação ou ao desejo e acaba por perder Eurídice. 

O orfismo reflecte a impotência perante a morte, a incapacidade do homem resgatar a alma (Eurídice) do túmulo (o corpo ou o reino dos mortos). De certa forma é a isto, ao mistério que aqui se representa, que o cristianismo veio responder. Também Cristo desce ao reino dos mortos, não como corpo que procura no fundo de si a sua alma, mas como aquele que morreu e que na morte, na morte do homem velho, encontrou uma nova vida, melhor: encontrou a vida. Orfismo e cristianismo respondem ao mesmo problema, mas a vitória do cristianismo está toda ela contida no destino diferente que tiverem Orfeu e Cristo na sua descida ao reino dos mortos.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

A anunciação e a proclamação

Oskar Kokoschka - A Anunciação (1911)

O que faz da Anunciação um episódio central do cristianismo é a capacidade de escuta de quem é a receptora do anúncio. Escutar é, desse modo, uma dimensão central do caminho do espírito. A vida pública está ligada ao regime da proclamação. Mais do que escutar, os que têm papel central na esfera pública querem proclamar a sua verdade. O caminho do espírito, porém, não se inscreve no regime da publicidade. Quem quer entrar nele terá de pôr de lado qualquer veleidade à proclamação e aprender a escutar. O homem na sua finitude e falibilidade não é o anunciador da verdade, mas aquele para quem a Verdade é anunciada. Saber escutar é, desse modo, uma virtude central no caminho do viandante.

domingo, 12 de maio de 2013

Haikai do Viandante (142)

Caspar David Friedrich - Cape Arkona at Sunrise (1803)

Luz pálida e pura
da súbita madrugada
abre a noite escura.

sábado, 11 de maio de 2013

A outra solidão

Alexander Harrison - Solitude (1893)

Para além daquela solidão terrível sentida como abandono, há uma outra que se aventura para lá da terra firme e entra nas águas inquietas e tenebrosas. Perscruta a noite e esquece a segurança. Nessa solidão, o espírito enfrenta o terror trazido pela incerteza e aprende a confiar no porvir. Abrir-se à solidão significa, então, abandonar-se a si mesmo e confiar no espírito que o habita, deixar-se guiar, aprender o sentido da corrente, da sua própria corrente. A solidão é o lugar onde cada um pode encontrar-se consigo mesmo, o sítio da noite escura do espírito. A solidão é o lugar da verdade de si.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Dos limites da fantasia

Alexandre de Riquer - Fantasia

O discurso do senso comum, muitas vezes dinamizado por uma certa divulgação pseudo-científica, tem valorizado, para além do domínio artístico, a dimensão da fantasia. Desde a importância da fantasia na vida sexual até à sua mobilização no âmbito da publicidade e da técnica de vendas, passando pelos múltiplos usos quotidianos do fantástico, a fantasia tornou-se um vocábulo que facilmente é mobilizado como panaceia do aborrecimento e do cansaço. 

O resultado desta banalização do exercício fantástico da imaginação está longe de ser percebido. Seja a fantasia realista ou inverosímil, ela é sempre um exercício de suspensão do contacto com a própria realidade. Perante uma realidade tida como prosaica, a subjectividade recria-a, imagnariamente, à luz dos seus desejos. Esta velha propensão da humanidade para a fantasia esconde uma inconfessável impotência para acolher e maravilhar-se com a própria realidade. A usura que o olhar quotidiano sofre, impede-o de uma atenção à própria realidade. A fantasia surge, então, não como um remédio mas como uma técnica de intensificação da patologia quotidiana. 

Em diversas tradições espirituais da humanidade, e contrariamente ao que se pensa, a crítica ao desejo funda-se na fuga mundi que ele introduz através da fantasia. Essa crítica à consciência desejante não é, na verdade, uma crítica do desejo, mas ao delírio que, pela fantasia, desvia o desejo do seu objecto real. O que nessas tradições - por exemplo, na mística cristã - está em jogo não é um desvio da consciência relativamente à realidade, mas a aprendizagem de uma atenção ao que é real, como caminho que conduz ao espanto (a experiência que, segundo os gregos, leva à filosofia) perante aquilo que é, e ao deslumbramento perante a verdade.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Poemas do Viandante (414)

Emilio Sánchez Cayuela (Gutxi) - Silencio (1985)

414. Desenho o silêncio nas margens da palavra

Desenho o silêncio nas margens da palavra
e deixo-o correr pelos dedos,
rio de água clara,
fruto caído e sombra de pássaro.

Trago-o preso no coração,
mancha de incenso pela tarde,
a pergunta perdida
na esquiva desolação da cidade.

Dispo-te quando chega o estio,
e traço uma fronteira de rumores.
Esqueço cada palavra
e deixo-te, silêncio, nascer pela alvorada.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

O desejo da insignificância

Salvador Dali - Cabeça de Medusa (1962)

Apesar de Perseu, a Medusa continua a petrificar-nos. Sedutora, leva a que desviemos o olhar do nosso caminho e concentremos nela todas as nossas atenções. Transformados em pedra, tornamo-nos errantes, sem saber onde vamos e o que procuramos. A velha Górgona não é um mero monstro mitológico, mas a nossa capacidade de ilusão que nos ata de pés e mãos ao que é lateral e insignificante. O desejo da insignificância é o caminho que nos leva à Medusa e nos transforma, apesar de vivos, em rocha dura.

terça-feira, 7 de maio de 2013

A inocência

Jean-Léon Gérôme - A inocência (1852)

A inocência é uma das temáticas mais misteriosas da vida humana. Na tradição ocidental, ela é figurada pelo estado paradisíaco, no qual o homem desconhecia o mal. Ora, segundo o mito, a entrada do homem neste mundo dá-se com a Queda. Deste ponto de vista, chegamos já ao mundo num estado de culpabilidade. Aquilo que surge então como o grande desafio é tornar-se inocente, não no sentido de retorno a um estado de inconsciência perante o mal ou de alienação pela real situação em que o homem vive. O que homem deve procurar é a inocência neste mundo e nas solicitações que ele lhe coloca. Não é fugir do mundo e abster-se de agir nele, mas tornar a sua acção isenta de culpa, inocentá-la pela intenção com ela é levada a efeito, inocentá-la por ele próprio aprendeu a inocência.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Confusão geral

Stanislaw Ignacy Witkiewicz - Confusão geral (1920)

Há na vida quotidiana um estado geral de confusão, estado esse inimigo da vida espiritual do homem. A sociedade, ao complexificar-se e ao centrar-se na dimensão da produção/consumo, tornou-se estruturalmente confusa. Ao mesmo tempo, os indivíduos, uma vezes seduzidos outras amedrontados, perderam a capacidade de tornar para si mesmos claras as verdadeiras razões pelas quais vale a pena viver. A confusão social e a confusão individual intensificam-se uma à outra, tornando cada vez mais a vida caótica. O triunfo dos interesses materiais sobre o espírito, apesar de fortemente apoiado na razão científica e calculadora, está a rasurar todo o sentido da existência humana. Para onde quer que o homem se volte, apenas encontra ruído, poluição e uma confusão generalizada.

domingo, 5 de maio de 2013

Um espaço para a liberdade

Giorgio de Chirico - El enigma de la fatalidad (1914)

O determinismo - crença de que tudo o que acontece se regula por uma causalidade necessária - é uma espécie de secularização do fatalismo metafísico. Uma providência inescrutável determina a priori a ordem do mundo e o destino de cada um. Muito curiosamente, não foi a ciência moderna que libertou os homens da pesada mão da fatalidade mas as religiões, na sua dimensão de experiência espiritual. A liberdade foi uma criação do espírito religioso - e de forma absolutamente acentuada do espírito do cristianismo - que abriu uma brecha entre a fatalidade metafísica e o determinismo secular, lembrando aos homens que são feitos para a liberdade, fornecendo-lhes mesmo métodos de emancipação e de libertação da subjugação à pura necessidade. Na verdade, aquilo que está em causa nas religiões - apesar de tantas vezes obscurecido - é esta possibilidade de ser livre, é esta proposta de emancipação da fatalidade do mundo.

sábado, 4 de maio de 2013

Haikai do Viandante (141)

Carlos de Haes - Aguas buenas, Pirineos (1882)

Montanha sagrada,
por ti sigo o meu destino.
Vou só e sem nada.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Poemas do Viandante (413)

Vincent Van Gogh -  Road with Cypress and Star (1890)

413. O vento arde sobre os ciprestes

O vento arde sobre os ciprestes,
traça redemoinhos na paisagem,
deixa vestígios de luz no horizonte
e a promessa de um incêndio
no imóvel movimento das cores.

Olho a pulsação das árvores
e sinto o arpejo das almas
subindo lentamente aos céus.
 
Eternos e precários ciprestes,
sombra tardia aberta na vida,
cálice abandonado na terra,
um excesso romântico de Deus.
 
Os astros correm nos céus,
desenham páginas de silêncio
na astúcia que derramam
sobre as casas escondidas
na desolação da planície.
 
Pobres caminhantes, a vida joga-se
como um sobressalto desolado
entre o segredo de um nome
e a sombra levitada do cipreste.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

O véu da ilusão

Vincent Van Gogh - Salgueiros ao pôr-do-sol (1888)

Há três coisas, efectivamente, que impedem o homem de conhecer Deus de alguma maneira. São, em primeiro lugar, o tempo, em segundo, a corporalidade, em terceiro, a multiplicidade. Enquanto estas três coisas estiverem em mim, Deus não está em mim e não opera verdadeiramente no meu foro íntimo. (Meister Eckhart, Sermões Alemães, XI)

O tempo, a corporalidade (isto é, o espaço) e a multiplicidade de coisas de natureza espácio-temporal surgem, na perspectiva do místico renano medieval, como o véu que impede o contacto directo com a verdadeira realidade. Sublinhe-se que não estamos perante um véu de natureza moral. Aquilo que impede o contacto do homem com o Absoluto não é, em primeiro lugar, uma conduta em desacordo com os princípios morais ou com a lei dada aos homens nos chamados mandamentos divinos. Antes de uma hipotética imoralidade há uma ilusão, ilusão essa que leva os homens a tomar como o efectivamente real a dimensão empírica captada pelos nossos sentidos. O apego ao tempo, ao corpo, à multiplicidade das coisas finitas é problemático porque, ao prender-nos numa ilusão sensorial, nos impede a abertura à verdade. A imoralidade deriva da ilusão e não o contrário. E o carácter problemático de uma conduta imoral reside em que ela reforça o véu de ilusão que cobre o homem e impede que o Absoluto desça nele e opere nele e a partir dele e da sua relatividade.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Uma lúgubre realidade

Leon Frédéric - A era do trabalhador (1895-97)

Como será possível denominar o quadro com o estranho título de A era do trabalhador? O que vemos, em primeiro plano, são mulheres e crianças e não encontramos vestígio de trabalho nem figuras que possam preencher o conceito de trabalhador. O que nos diz então este quadro sobre a era do trabalhador? Diz-nos que a actividade do homem se reduziu à sua condição natural, à pura corporalidade, à mera estratégia da sobrevivência da espécie, à preocupação com a reprodução da vida. A era do trabalhador é o tempo histórico em que o homem, despido da espiritualidade, se entrega plenamente aos afazeres da reprodução e da sobrevivência. A era do trabalhador é a confissão de uma dificuldade pela qual a espécie passa. Todas as suas forças se concentram nas dinâmicas biológicas ligadas ao corpo. A era do trabalhador, contrariamente ao que se propaga nas diversas retóricas sociais, não é a do reconhecimento da dignidade do trabalho e do trabalhador, mas o tempo em que a actividade do homem perdeu o sentido espiritual que dava dignidade tanto ao trabalho como àquele que o executava. A luminosidade do quadro de Leon Frédéric oculta, na beleza dos corpos e na esperança trazidas por novas vidas, a lúgubre realidade do homem moderno, a sua oclusão na pura corporalidade, o esquecimento daquilo que faz dele mais do que um animal.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Amor entre ruínas

Edward Burne Jones - Amor entre ruínas (1894)

Veio, porém, a lei para que a ofensa abundasse; mas, onde o pecado abundou, superabundou a graça. (Paulo, Romanos 5. 20)

Se olharmos o quadro de Burne Jones, numa primeira impressão, percebemos as ruínas como um cenário onde o amor é representado. O par ali representado parece exterior ao lugar. Mas, parafraseando Paulo de Tarso, podemos dizer que, onde abundam as ruínas, superabunda o amor. A desolação das ruínas e a consolação amorosa estão intimamente ligadas, como se o amor fosse sempre o triunfo sobre a ruína, sobre a desolação trazida pelo tempo, fosse sempre uma promessa de eternidade nascida no centro da destruição que o tempo traz consigo.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Poemas do Viandante (412)

Vincent Van Gogh - Olive Trees (1889)

412. Oliveiras, livros abertos na planície

Oliveiras, livros abertos na planície,
memória vinda de um tempo esquecido,
rasto silente de quem passou
e deixou um sinal sobre a terra,
o gesto com que se abre a mão
e espera que alguém receba a dádiva.

Toco-te nas folhas e o corpo canta,
sente o cheiro de terra forte e rasgada,
o trabalho das gerações preso no fruto,
a esperança da estirpe que cria raízes
e inscreve na terra uma seara
de troncos rudes e cobertos de musgo.

Velhas árvores salvas da cilada,
o tempo ardiloso ronda-vos cheio de luz,
prestes a tomar-vos os campos
e fazer de vós ramos onde arde o futuro,
promessa de uma terra vazia,
a canção do outono silenciada no lagar.

domingo, 28 de abril de 2013

Do sofrimento e da desolação

Albert Bloch - The Grieving Women (1950-57)

O utilitarismo tem como ponto fundamental a maximização do prazer e a minimização da dor. Este princípio hedonista aplica-se ao indivíduo mas também à sociedade. Em Stuart Mill, por exemplo, o indivíduo deve aprender a adequar a sua felicidade à felicidade do grupo. Estas teorias, bem como as materialistas, esquecem demasiado depressa a estranha ligação que há entre prazer e dor ou entre felicidade e desolação. Isto era muito claro para os pensadores gregos, mas a deriva subjectivista trazida pela modernidade acabou por criar um mundo onde a infelicidade, a dor, o sofrimento e a desolação - apesar da sua presença ominosa - não são dignos de ser considerados nem de ser vistos. O triunfo do sujeito sobre a dúvida em Descartes transforma-se na ideologia da felicidade e do apagamento da dor. O próprio cristianismo, fundado no sofrimento e morte de Cristo, foi sendo adocicado - por exemplo, pela retórica vazia do amor (não é que o amor seja coisa vazia, mas o modo como se fala dele é-o muitas vezes) - de forma a não incomodar as boas consciências que sob ele possam florescer. Não se trata de fazer a apologia do sofrimento. Trata-se de não o negar e de perceber que ele faz parte da viagem, pois confronta-nos radicalmente com a nossa natureza frágil, finita e falível. Também ele, porventura de maneira mais acentuada do que a felicidade e o prazer, nos ensina alguma coisa sobre a realidade e a autêntica natureza daquilo que somos.

sábado, 27 de abril de 2013

O silêncio e o nada

Odilon Redon - O silêncio

O silêncio não diz nada (rien), talvez porque é o nada (néant) que «diz» o silêncio. Compreendo que o nada (néant) é silencioso e que apenas podemos perceber o nada (néant) no silêncio. (Raimon Panikar, Mystique plénitude de Vie, p. 162

Há no mundo de hoje uma enorme poluição sonora. Não há lugar algum para onde possamos ir sem que o ruído nos invade. O pior, porém, são as palavras que nunca se calam dentro de nós. Esta poluição é o sintoma de um medo profundamente enraizado. Medo de quê? Medo de enfrentar esse nada que fala no silêncio, medo de se abrir para ele, medo de nos esvaziarmos para que ele seja nada em nós. O silêncio é a abertura para além do domínio das imagens sonoras, para além da multiplicidade das línguas e da pluralidade das palavras. No silêncio, escutamos, vazios, o Logos, esse nada anterior a todos os seres, esse verbo anterior a todos os sons. E isso aterroriza-nos, como o silêncio dos espaços infinitos já aterrorizava Pascal.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Haikai do Viandante (140)

Francesco Guardi - Capriccio of a Harbor (1760-70)

Um porto ensombrado
acolhe barcos e homens.
Zarpam lado a lado.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

De crepúsculo em crepúsculo

Pierre Bonnard - Crepúsculo (1892)

O crepúsculo não é apenas a claridade que permanece depois do pôr-do-sol ou que antece a alvorada. Por analogia, crepúsculo designa a condição do homem. O homem possui uma consciência crepuscular. Isto significa que ela não é uma consciência obscura ou absolutamente tenebrosa. Mas significa também que a luz da sua consciência está longe, muito longe ainda, da mais pura luminosidade. O grande equívoco do Iluminismo foi pensar que, com o predomínio da razão, o homem transitava de uma consciência crepuscular para uma consciência luminosa. Essa não é, contudo, a natureza do homem na Terra. Enquanto envolto na vida deste mundo, o homem não progride das trevas para a luz, mas desloca-se, infinitamente, de crepúsculo em crepúsculo.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Poemas do Viandante (411)


411. A tília perdida no caminho

A tília perdida no caminho
abre-se solitária e austera ao viandante.
Promessa de floresta nos campos,
as folhas tintas de sombra,
luz da tarde a despontar ao longe.

Sou um velho animal ferido
e sob os teus ramos contei os dias,
tracei mapas de urze e abandono,
esperando, transfigurado, um sopro
que tocasse no íntimo da folhagem.

O silêncio de Deus caiu sobre ti
e, se um relâmpago cruzava os céus,
era apenas o eterno desamparo
de uma nuvem que se acolhia
no húmido regaço de outra.

Olho os teus ramos tocados de vida
e oiço o cântico do anjos.
Palavras feridas cintilam-te nas raízes
e rasgam um caminho de solidão.
Nele, tranquilo, aguardo por ti.

terça-feira, 23 de abril de 2013

O combate enigmático

Arshile Gorky - Combate enigmático (1937)

Não há combate mais enigmático do que aquele que alguém trava consigo mesmo. Não quer ele melhorar e ultrapassar-se, ser outro e ter novas virtudes e reconhecidos méritos? Onde reside o enigma? Assim pergunta a pessoa sensata, tão habituada a reduzir tudo à dimensão da sua sensatez. Mas o enigma não se oferece aos que persistem na sensatez. Aquele que combate o enigmático combate consigo mesmo está preso numa névoa obscura, a névoa da sensatez. É dela que ele se afasta combatendo, mas não sabe ainda que o enigma do combate reside na sua inutilidade. Se o véu, um dia e inesperadamente, se rasgar, descobrirá que não lhe resta aceitar-se naquilo que é. Nessa hora, a insensatez triunfou e ele está pronto para o caminho da sabedoria.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

O medo e a ameaça

Juan Genovés Candel - Amenaza (1969)

Talvez o grande inimigo da vida do espírito não seja o mundo e as suas seduções mas o medo. A ideia de se abandonar ao vento do espírito, de abrir mão de si e das suas seguranças, pode gerar - e gera, certamente - um sentimento de ameaça, de estar na vida desprotegido e entrega ao cuidado de algo que não se controla. Abdicar da vontade própria, pôr de lado as ilusões que constituem o cerne da identidade é o contrário da inclinação natural do homem. A sedução do mundo é apenas um analgésico e um tranquilizante perante a ameaça da verdadeira liberdade.

domingo, 21 de abril de 2013

Orfandades

Giovanni Segantini - Gli orfani (1886)

Talvez o sentimento de orfandade ultrapasse em muito a experiência da perda parental. Por terrível que seja a orfandade biológica e familar, ela inscreve-se - porventura, ganha sentido - num outro sentimento de orfandade anterior e consitutivo da nossa experiência do mundo. Talvez vir ao mundo seja já sentido como orfandade, como a perda de algo decisivo e fundamental. E esse sentimento de perda acompanha o homem ao longo da vida, como se fosse um sinal para que ele tome consciência daquilo que perdeu. De certa maneira, a tematização da derrelicção em Heidegger é uma aproximação a essa orfandade originária. Só que esta não é o sentimento de um puro abandono no mundo de um ser para a morte, mas o vestígio que desencadeia a reminiscência e põe o homem a caminho do que perdeu.

sábado, 20 de abril de 2013

Haikai do Viandante (139)

Francis Picabia - El árbol amarillo (1909)

Árvore amarela
abre-se sobre a floresta,
traz a luz com ela.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Poemas do Viandante (410)

Malcolm Morley - Leopard Panthera (1997)

410. Brilham na noite os olhos do leopardo

Brilham na noite os olhos do leopardo,
diamantes que perfuram as entranhas,
e abrem na vida o mistério da morte.

Soberbo animal decaído na terra,
rasto de fogo sob o gélido pavor,
vertigem que sacode a poeira
e rasga a luz em tecidos de sombra.

A pura espera de sangue na boca,
um hálito de facas afiadas
apontado ao coração da vítima,
dança arcaica no terreiro obscuro,
onde o deus armou o altar.

Esses teus olhos resvalam na alma
e o corpo transido entrega-se
ao galope do anjo negro.
E sob o luminoso olhar canta-se
o requiem que a morte concede
ao vestígio de dor que anima a vida.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Caminho de sabedoria

Pablo Picasso - Pareja de pobres (1903)

Segundo o bispo Alberto, um homem pobre é aquele que não se satisfaz com nada que foi criado por Deus; e isto está bem dito. Mas nós dizemos ainda melhor e tomamos a palavra pobreza num sentido ainda mais elevado: é um homem pobre aquele que não quer nada, não sabe nada e não tem nada. (Meister Eckhart, Sermão alemão n.º 52)

Será preciso, para compreender estas palavras de Eckhart, distinguir entre ciência e sabedoria. A ciência é a posse de qualquer coisa, de uma imagem da realidade, de uma representação das coisas. A sabedoria, porém, nasce do desapossamento total. Ela é, de facto, pobreza de espírito. A importância da pobreza não deriva de haver pobres socialmente, mas no facto de que quem procura a sabedoria deve aprender a tornar-se pobre de espírito. O que significa isto? Significa que deve abandonar todo o conhecimento ilusório adquirido no mundo, todo o domínio das aparências com que se auto-ilude. A pobreza de espírito, porém, não é apenas uma purga cognitiva e uma limpeza teórica. Ela é também uma purificação da vontade, ao abandonar toda a vontade de poder e todo o desejo de posse. Aniquilar em si a vontade de poder, de saber e de possuir é o primeiro passo para uma abertura à verdadeira sabedoria. Estas são as mais estranhas palavras que se podem dizer a uma consciência moderna, tão orgulhosa das suas conquistas, dos seus poderes e dos seus saberes. Não compreende que na verdade, por útil ou agradável que tudo isso seja, não deixa de ser vento que passa.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Folhas mortas

Ernest Biéler - La Ramasseuse de feuilles mortes (1909)

Colher as folhas mortas para as transformar em fertilizante que, ao ser devolvido à terra, alimentará a vida. Quando Platão diz que uma vida não examinada não merece ser vivida, é de folhas mortas que ele está a falar. Examinar a vida vivida é recolher as folhas mortas e, através de severo e meditativo exame, dar-lhe um sentido que alimentará a vida a viver. Nada do que se fez, pensou ou omitiu é sem préstimo. Pelo contrário, reside nessas estranhas folhas que o tempo arrancou de nós a matéria viva que a vida exige para entrar nesse reino inquietante a que damos o nome de futuro.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Poemas do Viandante (409)

George Inness - Autumn Oaks (1877)

409. Na sombra misteriosa dos carvalhos

Na sombra misteriosa dos carvalhos
nasce uma conspiração de silêncios,
rumores de água que esperam o inverno
para desabar sobre a terra
e rasgar os olhos presos ao horizonte.

Quantas vezes ardeu o coração,
sob a inclemência das folhas caídas,
sob o vento urdido pela memória?
Quantas vezes a ferida sangrou,
se incauto o tempo escutou a luz da noite?

Carvalhos, barcos que florescem na planície,
folhas verdes traçadas pelo sangue do outono,
antigos tronos perdidos no invisível.
Velhos e magníficos, anunciam na terra
o desejo da água que corre para o mar.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Renúncia a si e interesse próprio

Giotto di Bondone - A renúncia aos bens (antes de 1300)

Deves saber que até agora nunca ninguém, nesta vida, renunciou a si que não encontre a que renunciar ainda. Poucas pessoas tomam isso em consideração e preservam na renúncia a si. (Meister Eckhart, Instructions Spirituelles, 4)

Os homens medievais não eram diferentes dos homens de hoje. As mesmas paixões e as mesmas virtudes ligam-nos, apesar das diferenças históricas e sociais. O que os distingue, verdadeiramente, é o ideal que orienta a vida de cada um. Sublinho ideal e com isso quero dizer que entre o ideal e a realidade há uma efectiva distância.

O ideal de renúncia à vontade própria era um princípio orientador da vida medieval, que transbordava das instituições religiosas para a vida secular. Ora, hoje em dia, esta ideia é completamente estranha ao nosso modo de vida e à forma como as novas gerações são educadas. Aquilo que a sociedade apresenta como racional é a busca do interesse próprio e a satisfacção da vontade individual ou dos desejos pessoais.

Ao mesmo tempo que os mecanismos de socialização incentivam o egoísmo, quando não o narcisismo, são impotentes para criar as condições materiais para que todos possam satisfazer esse  interesse próprio e perseguir aquilo que o desejo e a vontade lhes ditam. Quando Sarte, em Huis Clos, diz que o inferno é os outros, devido a frustrarem o nosso desejo, apenas apreende uma parte do problema. 

É o próprio mecanismo das sociedades modernas que é infernal, pois necessita, pela sua natureza, de incentivar até ao paroxismo a vontade e o desejo de cada um, ao mesmo tempo que se estrutura de forma que até as necessidades mais básicas são praticamente impossíveis de satisfazer por grande parte das pessoas. Talvez se chegue, um dia, à situação em que aprender a renunciar a si seja mais que uma condição da vida religiosa, para se tornar a condição de possibilidade da existência de sociedades humanas equilibradas num planeta exaurido nos seus recursos.

domingo, 14 de abril de 2013

Haikai do Viandante (138)

Alexander Cozens - Landscape with Wooded Crag

Ó sombria paisagem,
que estranho e frio fantasma
te traçou a imagem?

sábado, 13 de abril de 2013

Razão e Revelação

Copista Anónimo de Rubens - Triunfo da Eucaristia sobre a Filosofia

A tentativa de assumir a teologia cristã no apriorismo filosófico tem que dar-se por fracassada. A filosofia retirou-se, novamente para a sua tarefa de ciência puramente racional, e também desistiu da ambição de transformar o conteúdo da Revelação cristã numa espécie de verdade necessária da razão. (Robert Spaemann, El rumor inmortal - La cuestión sobre Dios y la ilusión de la Modernidad, p.83)

Apesar da existência, nos círculos do cristianismo, de um pensamento que se expressa na arte do copista anónimo de Rubens, que representa o triunfo da Revelação sobre a razão, a verdade é que parte substancial do pensamento moderno, já para não falar no medieval, foi uma tentativa de conjugar as tradições originadas na razão e na Revelação cristã. Robert Spaemann sublinha-o, embora assinale o fim desse projecto ao reconhecer o fracasso da assimilação da teologia cristã pelo apriorismo filosófico e a desistência da intenção da filosofia de transformar o conteúdo da Revelação numa espécie de verdade da razão.

Poderemos perguntar sobre o que, em cada um dos projectos, resiste ao outro. Do ponto de vista da razão, a natureza dogmática da religião revelada parece ser, apesar de uma longa convivência, um obstáculo instransponível. Por seu turno, o carácter crítico da razão parece tornar o princípio de autoridade em que se funda o cristianismo inassimilável pela razão crítica. No entanto, há que questionar a impossibilidade desse projecto de aproximação e de fusão entre razão e Revelação.

Algumas notas sobre essa possibilidade de aproximação que parece ter caído em desuso. Em primeiro lugar, o carácter débil ou frágil da razão autónoma e crítica. A autonomia da razão descoberta pelos gregos e tornada elemento estrutural do pensamento moderno e contemporâneo não foi outra coisa senão um processo de mitificação da razão, que emerge assim como uma potência e princípio de autoridade, de que não se percebe a proveniência nem o fundamento. 

Em segundo lugar, o carácter crítico da razão, pelo qual se rejeita o dogma e a autoridade, não apenas está fundado nessa natureza mítica acima referida, como se funda ele próprio num elemento dogmático, devido à origem e natureza da crítica. Esta deriva de krísis (κρίσις) que significa disputa e julgamento, mas também sentença, decisão, determinação. O elemento dogmático é dado pelo facto da sentença ou decisão terem de se apoiar numa norma a priori não sujeita à crítica.

Em terceiro lugar, se o conceito de dogma remete para uma autoridade, ele contém em si, na arqueologia semântica que proporciona, elementos de dúvida que implicam uma tomada de decisão, o que, surpreendentemente, aproximam o conceito de dogma e de crítica mais do que seria imaginável.

Por fim, convém chamar a atenção, e a leitura dos textos evangélicos é muito susgestiva, para a natureza crítica da Revelação. A Revelação da divindade de Cristo é dada, muitas e muitas vezes, no âmbito de uma crítica do comportamento social e moral e também das ilusões que se têm acerca do mundano. É o próprio Cristo que, no Evangelho de João, é identificado como o Logos divino. A palavra logos que é traduzida por verbo, significa razão uma Razão divina.

Talvez o processo de aproximação entre as duas bases fundamentais da cultura ocidental ainda tenha um destino e uma possibilidade de realização, apesar do ambiente hostil que esse projecto, certamente, encontrará nos dias e hoje.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

A atenção ao mundo

El Greco - Vista del Monte Sinaí (1570-72)

Insisto: a sede da mística não é na estratosfera, mas sobre esta "terra dos homens", mesmo se o místico tem a audácia de nela escalar os cumes mais altos. Não sonha em ir para a lua, onde não há atmosfera, mas tenta subrir sobre o Tabor, o Sinai, sobre o Meru, sobre o Kailãsa, sobre o Sumbur (Semeru), sobre o Haraberazaiti (Harbuz), etc.: isto é, os lugares terrestres onde céu e terra se encontram. (Raimon Panikkar, Mystique plénitude de Vie. p. 209)

A vida do espírito não é um acto de cobardia e de fuga ao mundo. Pelo contrário, é o modo de vida onde se exige a maior das atenções à vida na Terra, pois esta é a condição do ser humano. Atenção não significa alienação e estranhamento perante sua própria natureza de ser dotado de espírito. Significa, em primeiro lugar, compreender que também a Terra e as coisas na sua materialidade contêm, para não dizer que são, o espírito. Significa, em segundo lugar, que a vida do espírito se alicerça na materialidade do corpo humano, nos poderes e fragilidades da carne. Significa, em terceiro lugar, que qualquer ascensão espiritual implica o reconhecimento de que a materialidade corporal do ser humano está submetida à lei da gravidade.

O místico (ou espiritual) deve então ser o mais desperto dos homens para as realidades terrestres. Sem essa atenção e esse estar desperto, não há monte a que ele consiga ascender, não haverá possibilidade de trilhar o caminho que o leva ao ponto onde a Terra e o Céu se encontram, não encontrará o lugar em que Deus e o homem se tocam. O desprezo pela finitude da terra e pela fragilidade do corpo terá como contrapartida o encerramento na caverna e a prisão no corpo, como já Platão bem o sabia.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Haikai do Viandante (137)

Vincent Van Gogh - Alameda ao pôr do sol (1884)

Tão triste alameda,
sob o império do sol posto,
os deuses hospeda.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Soneto do Viandante (23)

Gustave Courbet - Donna con l’onda (1868)

23. Não basta que detenhas entre mãos

Não basta que detenhas entre mãos
A promessa esquecida pelo tempo.
Não basta que me encantes pela noite
Com o sorriso pálido de outrora.

Deixa que o vento cante sobre a pele
E os seios sejam água nesta boca.
Rio puro e desmedido, rio sonhado
Quando o corpo partia à desfilada,

Égua branca ferida pelo amor,
Animal sem infância nem destino.
Quero cada segredo do teu ventre.

Quero-te viva e nua, quero-te sóbria
E pura, pelo ócio descoberta,
Relâmpago e luz, fogo sem cinza.

terça-feira, 9 de abril de 2013

O espírito e a história

Maurice Denis - Paradise (1912)

Na sequência de um post anterior, O horror da história, retorna-se à questão da história e ao seu cruzamento com experiência espiritual da humanidade. Os tempos modernos substituíram a ideia de um progresso histórico, de carácter providencial, em direcção à Parusia, a segundo vinda do Cristo, e ao Juízo Final por uma história puramente profana vista como progresso material e moral da humanidade. Em Kant, a humanidade europeia encontrou o seu pensador do progresso moral e no Conde de Saint-Simon descobriu o seu profeta da técnica. A religião cristã, já dividida pela Reforma protestante, vai deixar de ocupar a preeminência que tivera no espaço público e tornar-se um assunto do foro subjectivo dos indivíduos, agora cada vez mais atomizados. Esta subjectivação do espírito do cristianismo teve uma dupla consequência. A perda de uma compreensão global do sentido da espiritualidade, em primeiro lugar. Depois, e como corolário, a transformação da religião em mera moralidade e ritualismo, ou a sua negação, nas formas da indiferença, do agnosticismo e do ateísmo, muitas vezes organizado de forma militante e, nos últimos tempos, adquirindo uma espécie de tonalidade religiosa invertida.

A experiência da humanidade europeia, e por arrastamento da humanidade em geral, do século XX veio tornar patente os limites na crença do progresso moral da humanidade. A perda de vitalidade espiritual ocorrida nos séculos XVIII e XIX abriu as portas para as terríveis experiências totalitárias do século XX e para duas guerras mundiais. A grande experiência que a humanidade europeia, e com ela, mais uma vez, toda a humanidade, começa a fazer neste início do século XXI - uma experiência que talvez tenha começado no outro lado do Atlântico - é que as esperanças depositadas no progresso técnico-científico se estão a mostrar infundadas. O desenvolvimento do conhecimento científico e as revoluções tecnológicas, apesar dos benefícios que trazem com elas, são fontes indescritíveis de dor e de desespero. No cerne das nossas sociedades, a racionalidade tecnocientífica mostra-se impotente para gerar sociedades equilibradas e de bem-estar. Pelo contrário, apesar de alguns momentos onde as sociedades parecem querer encontrar uma forma justa de distribuição dos bens resultantes da ciência e da indústria humanas, logo se sucedem períodos de graves crises, onde o desespero cresce e a injustiça alastra. O paraíso terrestre que a modernidade, sob a ideia de progresso moral e material, prometera aos homens mostra-se, a maioria das vezes, como um verdadeiro inferno para milhões e milhões de pessoas.

Estas constatações não invalidam a bondade de uma educação virada para o progresso da moralidade nem o valor da ciência e da técnica. Mostram apenas os seus limites, os quais são muito mais profundos do que aquilo que o optimismo séculos XVIII e XIX pensou. A dolorosa descoberta que se está a fazer é que a evacuação da religião, e fundamentalmente da espiritualidade cristã, do espaço público, o seu exílio no foro subjectivo, aniquilou um espaço crítico das ilusões mundanas do homem. Destruiu também uma fonte de inspiração para a procura da verdade e do bem. As sociedades ocidentais, e por arrastamento parte das outras, passaram por um momento onde eram animadas por forças meramente mecânicas, que tiveram a sua expressão máxima nas sociedades fordistas e tayloristas do século XX, para chegarem a sociedade caóticas, onde cresce a fragilidade da generalidade das pessoas, ao mesmo tempo que pequenos grupos as submetem ao seu arbítrio e à tirania dos seus desejos, apresentados como interesses legalmente defendidos. É neste caos, já bem visível na Europa do Sul mas que em breve atingirá o centro e o norte, que se deve recolocar a questão da religião e da espiritualidade, como as forças vivas que poderão trazer um novo princípio ordenador às existências individuais e à vida das sociedades. Não uma praxis religiosa vinda da Idade Média ou dos tempos da moderna Inquisição, mas um reinvenção do cristianismo eterno e da eterna busca espiritual da humanidade. É preciso um espaço extra-mundano para olhar criticamente o mundo e as nossas ilusões sobre ele, para descobrirmos modos de vida alternativos ao caos em que nos estamos a precipitar.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Haikai do Viandante (136)

Salvador Dali - El camino de Port Lligat con vista sobre el cabo de Creus (1922-23)

Caminho quieto,
pelos campos perdido,
sob um céu secreto.