quarta-feira, 15 de maio de 2013

Poemas do Viandante (415)

Frantisek Kupka - O desafio (1903)

415. Ergo o desafio tecido de vertigens

Ergo o desafio tecido de vertigens
e deixo fluir o medo,
a dor excessiva que fere a carne,
desenha o informe trazido pelo tempo
e crava o aguilhão no centro do peito.

No lago do passado, sobre as águas frias,
flutuam velhas caravelas,
barcaças rudes tracejadas a carvão,
umas mãos brancas e febris
estendidas para o vazio que as espera.

Nessa obscuridade a que chamam amor,
deponho as armas inúteis,
entrego o velho castelo
à sombra silenciosa da tua sombra
e aguardo o rigor cruel dessa boca.

Um presságio desenha-se no horizonte,
e o monstro que me espera
eleva-se na majestade dos céus.
O seu peso não tem medida
e o olhar rasga-me as entranhas da alma.

Perdi o ofício que me atava à vida.
Esqueci cada desafio trazido pelo tempo.
Exausto, anseio pela floresta,
e canto, imóvel e sereno, a loucura
do corpo lacerado pela solidão.