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domingo, 7 de junho de 2026

Ecos da Primavera 10

Howard Hodgkin, Mr. and Mrs. Patrick Caulfield, 1969 – 1970 (Gulbenkian)

Deixar os sacrifícios nas trevas do sangue.

Um jardim no húmus do conhecimento,

a flor-de-lis sob a luz da misericórdia.

 

No fogo da memória, crepitam os meus olhos.

Ávidos de água, toldados de terra.

 

As ruas despiram-se de transeuntes.

São um excesso no sobejo do universo,

a métrica lexical na gramática da errância.

 

Junho de 2026

 

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Ecos da Primavera 9

Mily Possoz, sem título (Gulbenkian)

O princípio da palavra é a voz da verdade,

raiz mergulhada no solo do mistério,

um salto sobre a fronteira do sem sentido.

 

Não desvio os ouvidos do rumor antigo,

do que chega e ilumina a minha casa.

 

O vento fresco da manhã corre nas ruas,

levanta a poeira esquecida,

a verdade na palavra perdida no mundo.

 

Junho de 2026

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Ecos da Primavera 8

Hein Semke, Paisagem, 1957 (Gulbenkian)

Da pedra dura, nasceu a água infinita

e das areias do deserto sem nome

um caminho de sombras sob o punhal solar.

 

Fixo o olhar no horizonte, um silvo abre

o céu primaveril ao azul do Estio.

 

A cidade descansa poisada no calendário,

dormita pelas ruas cobertas de pétalas

caídas em segredo dos jacarandás em flor.

 

Junho de 2026

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Ecos da Primavera 7

Fernando Lemos, Pedras, 1949 (Gulbenkian)

Sob o sol de Junho, a pedra repelida

será no fim do dia exaltada.

Pedra angular no segredo do silêncio.

 

Abro a porta ao êxtase da aurora,

ao orvalho deixado pela fadiga da noite.

 

Os martelos do mundo batem em furor,

abrem o silvo da cidade

ao florescimento das constelações nocturnas.

 

1 de Junho de 2026

domingo, 31 de maio de 2026

Ecos da Primavera 6

João Queiroz, sem título, 1999

Um caos sem fronteiras é o mundo,

mas nele arde a púrpura da redenção,

o sangue de ouro do cosmos a vir.

 

Perscruto a seiva na luz das tílias,

o vento crestado dentro da minha voz.

 

A cidade cai na armadilha do domingo.

Dedilha as horas no azul do céu,

no êmbolo dos carros presos no alcatrão.

 

Maio de 2026

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Ecos da Primavera 5

Bernardo Marques, Primavera

Está próximo o fim de todas as coisas,

da rosa que é, da treva que não é,

do ardor que se aproxima, da luz que vai.

 

Peso as palavras na balança da memória,

teço um clarão sobre o que se avizinha.

 

A Terra é um pássaro sonolento e rodopia,

esquecida na poeira da Primavera,

na cintilação do hóspede perdido na noite.

 

Maio de 2026

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Ecos da Primavera 4

António Palolo, sem título, 1972 (Vídeo) (Gulbenkian)

A palavra, íntegra semente germinada

no súbito solo da eternidade:

Erva que não seca, flor que não cai.

 

Acordo sob o império da fala,

estendo os braços para o oiro da língua.

 

A Primavera solfeja no furacão da cidade,

irrompe na quietação da boca –

um mundo de sons sombreia a esteva e o vento.

 

27 de Maio de 2026

terça-feira, 26 de maio de 2026

Ecos da Primavera 3

René Bertholo, Pintura, 1959 (Gulbenkian)

Erguer das águas o assombro do sentido.

Erguer das pedras o prodígio do canto.

Erguer do incêndio o incenso do louvor.

 

Abro caminho com a fragilidade das mãos,

o ar com a madrepérola da manhã.

 

A cúpula do mundo ferve sob o sol de Maio.

As tílias cintilam, espalhando sombras

sobre o dorso dormente da tenaz do tempo.

 

Maio de 2026

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Ecos da Primavera 2

Frances Hodgkins, Church and Castle, Corfe, 1942

O memorial de pão e vinho rasgou

a noite e abriu a morte

ao rumor da ressurreição.

 

Olho o vacilar do silêncio,

a palavra soletrada no esquecimento.

 

O bosque ao longe cresce para o sol,

traça uma muralha de vento

onde dia desagua no delta da eternidade.

 

 Abril de 2026

sábado, 21 de março de 2026

Ecos da Primavera 1

Henri Cross, Arbres au bord de la mer, 1906-1907

Ele é aquele que é e paira

sobre as águas do rio

e as ondas dos oceanos.

 

Ouço-o no tamborilar da chuva,

no ressoar do relâmpago.

 

O mundo ilumina-se na voz

vinda das águas,

no eco do candelabro aceso.

 

Março de 2026