domingo, 31 de maio de 2026

Ecos da Primavera 6

João Queiroz, sem título, 1999

Um caos sem fronteiras é o mundo,

mas nele arde a púrpura da redenção,

o sangue de ouro do cosmos a vir.

 

Perscruto a seiva na luz das tílias,

o vento crestado dentro da minha voz.

 

A cidade cai na armadilha do domingo.

Dedilha as horas no azul do céu,

no êmbolo dos carros presos no alcatrão.

 

Maio de 2026

sábado, 30 de maio de 2026

Micronarrativa (82) O campo

Autor desconhecido, Picnickers enjoy a Meal, 1899

O campo é um sonho nascido na imaginação de quem vive na cidade. Cumulado de pureza e autenticidade, é o lugar de todas as virtudes. Os citadinos visitam o campo em pequenas excursões, para respirar o ar puro e banhar-se na atmosfera campestre. Da cidade, trazem a comida que lhes matará a fome e o cansaço da visita. Pensam então: estive no campo, mas estão prontos para voltar para a cidade. Basta, dizem. Que falta faz o ar vicioso.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Ecos da Primavera 5

Bernardo Marques, Primavera

Está próximo o fim de todas as coisas,

da rosa que é, da treva que não é,

do ardor que se aproxima, da luz que vai.

 

Peso as palavras na balança da memória,

teço um clarão sobre o que se avizinha.

 

A Terra é um pássaro sonolento e rodopia,

esquecida na poeira da Primavera,

na cintilação do hóspede perdido na noite.

 

Maio de 2026

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Signo sinal 35. Sombras

Victor Palla, sem título, 1990 (Gulbenkian)

Perante a saturada simulação das sombras, hesita-se sempre. O espírito não sabe se são um signo de vida ou um sinal de morte. E nessa longa indecisão, também ele, o espírito, se torna uma sombra, para descobrir o que é a vida e o que é a morte.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Ecos da Primavera 4

António Palolo, sem título, 1972 (Vídeo) (Gulbenkian)

A palavra, íntegra semente germinada

no súbito solo da eternidade:

Erva que não seca, flor que não cai.

 

Acordo sob o império da fala,

estendo os braços para o oiro da língua.

 

A Primavera solfeja no furacão da cidade,

irrompe na quietação da boca –

um mundo de sons sombreia a esteva e o vento.

 

27 de Maio de 2026

terça-feira, 26 de maio de 2026

Ecos da Primavera 3

René Bertholo, Pintura, 1959 (Gulbenkian)

Erguer das águas o assombro do sentido.

Erguer das pedras o prodígio do canto.

Erguer do incêndio o incenso do louvor.

 

Abro caminho com a fragilidade das mãos,

o ar com a madrepérola da manhã.

 

A cúpula do mundo ferve sob o sol de Maio.

As tílias cintilam, espalhando sombras

sobre o dorso dormente da tenaz do tempo.

 

Maio de 2026