Helena Vieira da Silva - Biblioteca (1953)
Numa história onde, por várias vezes, grandes bibliotecas foram queimadas, num país onde, devido à escassez, as bibliotecas foram elevadas à condição de templo sagrado (tão sagrado que muito nem lá entram), a biblioteca tornou-se uma metonímia da sabedoria. Aquele é uma biblioteca ambulante. Morreu uma verdadeira biblioteca. Estas expressões acabam por estabelecer uma ligação estreita entre a leitura de livros e a sabedoria. Mas ler livros tornar-nos-á sábios? Não houve, na história da humanidade, grandes leitores cujo comportamento foi insensato ou, mesmo, absolutamente perverso?
Não é a leitura de livros que nos torna sábios, mas uma certa disposição para a sabedoria que nos leva a encontrar nos livros um alimento dessa mesma sabedoria. Dito de outra maneira, a sabedoria não é a consequência de uma causa chamada leitura. Pelo contrário, a leitura é a consequência de uma certa disposição para a sabedoria. Só assim a leitura faz parte da viagem espiritual do homem. Caso contrário, mesmo que não tenha efeitos perversos em certas personalidades, ela não tem mais efeitos intelectuais do que o consumo de chocolates tem ao nível do corpo.
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