terça-feira, 2 de outubro de 2012

Poemas do Viandante (372)

Giorgio de Chirico - Héctor Andrómaca (1917)

371. O MISTÉRIO MAIOR DE UM CORPO À ESPERA DE OUTRO

O mistério maior de um corpo à espera de outro,
da ânsia que cresce com o aproximar da hora,
o risco no céu azul para lembrar uma promessa.
Há um instante em que chega o terror de que não
venhas, que o tempo te tenha tragado
para te devolver à planície do esquecimento.

São assim os dias dos homens sobre a terra,
cheios de uma cintilação imprecisa,
a troca de um nome, a traição de um amor.
O perigo e o medo impele-os para quem não
os espera, e o desejo que nasce do movimento
não passa de espuma fria deixada pela onda.

Os meses vêm cobertos de imperativos,
erva rala sobre a terra, pasto de animais feridos
à espera da consolação da morte.
Por que espera o outro pelo nosso corpo?
O terror escondido no vítreo silêncio da casa,
a vaidade nascida de uma alma submetida.