segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Da essência da pobreza

Pablo Picasso - Los pobres a orillas del mar (1903)

Vivemos tempos equívocos relativamente à pobreza. Depois da insolência com que a necessidade de consumir era imposta, veio a desfaçatez da coacção à miséria. Seja, porém, na riqueza do consumo ou na penúria de bens falha-se o essencial. Importa aprender a ser pobre não por uma questão social, mas porque a realidade que é a nossa o exige. Pobreza significa pura e simplesmente tomar em consideração cada coisa como ela é e não apenas como se fosse propriedade. Isto significa não ter um olhar enviesado pelo "meu" ou pelo "teu" das coisas e do mundo, subtrair-se a lógica que encerra a sociedade no exercício do egoísmo mais estreito e no delapidar irresponsável daquilo que encontrámos ao chegar à vida. Significa, fundamentalmente, que devemos estar prontos, a cada instante, para abandonar seja o que for, sem que isso perturbe o espírito, pois nada, na verdade, nos pertence, mesmo aquilo que mais amamos. Esta pobreza essencial não se confunde com a pobreza social. Esta, a maior parte das vezes, é o resultado da perversão da pobreza essencial. Perversão que é sempre um empobrecimento, seja este manifesto na acumulação de incontáveis riquezas ou na pura indigência. A pobreza essencial, aquela que todos devemos aprender, é a das aves do céu e a dos lírios do campo, aos quais, como se sabe, nada lhes falta.