sábado, 30 de julho de 2016

O dom de olhar

Paul Cezanne - Os Jogadores de Cartas (1890-92)

Não sou um jogador. Falta-me o talento e a sorte. Eles sim, são verdadeiros jogadores de cartas. Toda a sua vida está ali entre mãos, pronta para ser deitada sobre a mesa. A minha vida nem a sinto como minha. Como poderia sentar-me à mesa e jogá-la numa última cartada? Eles jogam e eu vejo, e ver é a condição de quem está de fora. Pergunta-me: fora de quê? Fora de mim. Quem está fora de si está fora de tudo, do mundo, da vida, do jogo. Olhe-os. Tudo neles é inocência, pertencem ao instante em que as cartas caem sobre a mesa. Eu? Eu não me pertenço, não sei jogar. Chego aqui e olho. Foi-me concedido o dom de olhar. Tem toda a razão, é uma maldição.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

O desejável do desejo

Paul Ackerman - L'au-delà est désirable

Só o além é desejável. Não apenas porque aquilo que constitui esse além tenha o poder de atrair o desejo, o poder da sedução, mas porque a dinâmica deste desejo é o de nos fazer transcender, de nos raptar da pura imanência onde estamos presos e de nos atirar para o desejável que está sempre além e que por isso mesmo o nosso desejo tanto deseja.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Tempo perdido

Manuel Ruiz Pipó - À la recherche du temps perdu

Em busca do tempo perdido. Não há maior equívoco do que a ideia trazida pelo título da obra de Proust. E o equívoco não nasce do caso do tempo perdido jamais poder ser encontrado. Nasce do simples facto de não existir tempo perdido. Todo o tempo vivido faz parte de um caminho e nunca, na verdade, é perdido, seja qual for o sentido em que se tome a expressão tempo perdido. É sempre um tempo de um caminho onde o que caminho se procura reencontrar.

terça-feira, 26 de julho de 2016

Poemas do Viandante (562)

Franz Marc - Cavalo a sonhar

562. o cavalo sonha-se

o cavalo sonha-se
pesado no
pesadelo da noite
e vê-se vergado
ao peso do sono
ao temor da terra
pisada pelos
cascos fogosos
que acendem o
ardente ardor
da cavalgada

Dançar numa casa de loucos

George Wesley Bellows - Dance in a Madhouse (1917)

Dançar numa casa de loucos poderia ser uma metáfora sobre os transtornos - e eles são sem fim - da vida no mundo. No verdade, porém, a metáfora ilumina a vida espiritual. Num mundo caótico e irrazoável, a vida do espírito é como uma dança, na qual os que dançam se entregam, sem premeditação ou projecto, ao ritmo da música num espaço tornado caótico pela presença de todos os que dançam.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Haikai do Viandante (290)

Claude Monet - Summer, Field of Poppies (1875)

campos de papoilas
o sol bravio do verão
uma sombra cai

domingo, 24 de julho de 2016

No mundo dos híbridos

Max Ernst - La bicicleta gramínea (1920-21)

A aventura espiritual da arte moderna, tantas vezes mal entendida, tem a sua raiz na liberdade do espírito. É esta liberdade, servida pela faculdade da imaginação produtora, que permite um exercício de hibridação como aquele que o quadro de Max Ernst mostra: hibridar o reino dos artefactos mecânicos com o reino vegetal. Esta produção híbridos têm uma longa tradição que remonta às antigas mitologias. Ela revela-nos que, para além da estrita necessidade - que na arte tomou a forma da imitação, uma servidão ao dado -, existe um reino que, não sendo do domínio do caos nem da arbitrariedade, revela uma ordem mais livre e mais inesperada. Uma ordem onde o espírito, como o vento, sopra onde e como quer.

sábado, 23 de julho de 2016

Poemas do Viandante (561)

Winifred Nicholson - Abstracct sequence (Variation on Cyclamen and Primula) (1935-36)

561. frias florescem

frias florescem
as flores sibilantes
na sílaba
deste sábado
e na cintilação
do cíclame
reflecte-se
a prímula
da primavera

sexta-feira, 22 de julho de 2016

A flor cortada

Giuseppe Pelizza Da Volpedo - Flor cortada (1896-1902)

Sonhei-as. Durante meses, tive o mesmo sonho. Um bosque ameno e um cortejo matinal de raparigas vestidas de branco. À entrada dispunham-se em procissão e caminhavam. Iam em silêncio. Quando chegavam ao centro do bosque, eu acordava e nunca descobria aonde iam. Uma noite, decidi não me deitar e, pela aurora, entrei no bosque. No centro, havia uma clareira. Escondi-me. Acabaram por chegar. A luz sombreada iluminava-as. Eram belas como no sonho. A que vinha na frente cortou uma flor e, para meu espanto e terror, saiu da clareira. Caminhou para mim e estendeu-me a mão. Esperávamos por ti, disse. Olhei. Era o meu rosto que eu via na flor cortada.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

O canto do cisne

Ignacio Díaz Olano - Cisnes (1927)

Sabe-se há muito que a lenda do canto do cisne (estes seria mudos, mas antes de morrer entoariam o mais belo dos cantos) não corresponde a qualquer realidade. Esta não verdade empírica não deixa, porém, de conter a sua verdade. Um dado mundo espiritual, ao entregar-se na noite da história, entoa a sua mais bela canção. Mais do que anunciar as trevas que se aproximam, o canto do cisne sublinha a esperança do dia que, terminada a noite, triunfará no esplendor da aurora. O canto do cisne não é uma canção de morte mas de esperança.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

A casa do Homem

Felix Vallotton - In the Shadow (1916)

Pensamos, em primeiro lugar, a sombra como o lugar do mal. Este não suportaria a sua exposição à luz, que o denunciaria, e recolhe-se na sombra para exercer o seu império. Num segundo momento, constatamos que a pura luz seria insuportável mesmo para o bem. A intensidade da luz tornar-nos-ia cegos. Por fim, percebemos que a sombra é o lugar do homem, tanto para o mal como para o bem. Nem as trevas absolutas nem a pura a luz, mas a sombra. É neste registo sombrio que uns caminham de claridade em claridade, mas sempre sob a protecção da sombra, e outros vão de escuridão em escuridão, mas ainda e sempre na forma de sombra, cada vez mais densa. A sombra é a casa do homem sobre a Terra.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Poemas do Viandante (560)

Kazimir Malevich - Círculo Negro (1923-29)

560. o círculo negro

o círculo negro
de malevich
é lua nova
aluada e perdida
no fundo frio
e esconso
de um universo
sem sóis que
no desvão do dia
de luz o iluminem

(19/07/2016)

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Sem bandeiras

Lorenzo Viani - All'ombra della bandiera

O espírito não tem bandeiras nem causas. Manifesta-se de diversos modos - na arte, na religião, na filosofia - e estes modos de manifestação são as únicas limitações que admite. Erguer uma bandeira ou arvorar uma causa - mesmo que artística, ou religiosa ou filosófica - é limitar-se a um ponto de vista particular de tal modo que deixa de ser vida espiritual. Causas e bandeiras sombreiam um solo juncados de morte. A pátria do espírito é a vida infinita.

domingo, 17 de julho de 2016

Aos domingos

Henri Le Sidaner - Dimanche (1898)

Nunca senti os domingos como uma maldição. Não se equivoque. Vivi a melancolia de domingo à tarde, do fim-de-semana que acaba, da iminência de cair na terrível realidade. Não, não era o sentimento de uma maldição, porém. Por pesada que fosse a ameaça de segunda-feira, o domingo era sempre um dia de glória. Ia até ao bosque, aquele ali em frente, e diante dos meus olhos desfilavam raparigas, belas raparigas. Conversavam, riam, diziam frivolidades. Se conheci alguma? Não sei o que responder. Eu vi-as, mas elas nunca me viram. Quando nasci, já tinham morrido há muito. Tem razão, era uma disfunção na ordem do tempo. Foi ela que salvou os meus domingos.

sábado, 16 de julho de 2016

Cair em tentação

Max Beckmann - Temptation (1936-37)

A tentação é vista muitas vezes como provação que é colocada à vontade, para testar a sua fortaleza. Esquece-se, porém, o outro lado, o do desejo. Não é só a força da vontade que é testada na resistência à tentação. É também a força do desejo em ultrapassar a resistência da própria vontade. Cair em tentação pode nem significar que a vontade é fraca, mas que o desejo é excessivo.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Poemas do Viandante (559)

Gerardo Rueda - Contraponto (1971)

559. contraído e pronto

contraído e pronto
o ponto
semeia sombras
na alvura
branca do papel
traços em
contraponto
e uma fuga fulva
descreve
entre ponto e linha
um mundo
frívolo e cruel

terça-feira, 12 de julho de 2016

Haikai do Viandante (289)

Paul-Emile Pajot y Gilbert Pajot - A Concarneau, va- et- vient des bateaux de pêche

barcos sob os céus
trazem nas velas o mar
a dor ao passar

De porto em porto

Georges Braque - El puerto de El Havre (1903)

Há uma mitologia literária fascinante e fascinada em torno dos portos. Compreende-se que, antes da aviação, o lugar de partida para longe e o de chegada vindo ou de quem vem de longe tenha esse poder de encantamento. Contudo, a possibilidade de ser encantado reside já na experiência espiritual e interior dos homens. Também a viagem espiritual é um chegar e um partir, sempre pontuada por um porto, um porto simbólico. E estes, por inesperados e inusitados que sejam, são uma referência e uma que ajudam a desenhar o sentido da viagem interior.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

O cuidar

Kazimir Malevich - Harvest (1910-11)

Não por acaso a vida dos campos é tomada como analogia para a vida espiritual. Também esta é pautada pelo ritmo da lavoura. Preparar a terra, semear, cuidar e colher. A colheita, a obra que se produz, está ligada a todo este longo processo. Sem este, não haveria obra. A cada momento, é exigido ao viandante que não descure a terra que trabalha. O não descurar, o cuidar, não é outra coisa senão o amor que se põe na obra.

domingo, 10 de julho de 2016

Aprendizes de Ícaro

Remedios Varo - Aprendiz de Ícaro (1954)

Uma pequena parte dos seres humanos tem uma inclinação claramente voltada para baixo, como se neles habitasse um desejo irreprimível de se afundarem do domínio obscuro das potências telúricas. Tudo o que tocam fica contaminado por esse desejo de diluição no fundo do ser. A grande maioria dos homens olha horizontalmente o mundo. Temem o mundo de baixo e não aspiram olhar para cima. O domínio da terra é o seu horizonte de expectativa. Outros homens, porém, olham o alto e aspiram a elevar-se da condição terrestres. São os aprendizes de Ícaro. Se o desejo espiritual não for mediado pela graça da sabedoria correm o risco de se afundarem sem remissão naquele domínio obscuro a que são, por natureza, tão avessos.

sábado, 9 de julho de 2016

Poemas do Viandante (558)

Frantisek Kupka - Aguatinta (1913)

558. círculos de vermelho

círculos de vermelho
circulam no
sangue aberto
ao mistériazul
que desperta
rumores de água
onde desagua
uma lágrima
aguada de azul
quase vermelho

(05/07/2016)

sexta-feira, 8 de julho de 2016

A vinda da noite

Piet Mondrian - Landschap bij nacht (1907-08)

A noite nasce como um paisagem exterior, mas lentamente cresce para dentro dos olhos, inundando o espírito, trazendo com ela o silêncio, esse silêncio onde o pensamento se cala, e uma grande quietação se derrama naquele que perdeu toda a luz. Agora está pronto para subir ao seu monte Tabor,

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Haikai do Viandante (288)

Aubrey Phillips - A Calm Evening

noites de carvão
nascem ao entardecer
frio e escuridão

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Dialéctica do livro

John Yardley - Choosing a book

Num primeiro momento, estamos convencidos que escolhemos os livros que nos cabem ler para nos apropriarmos daquilo que eles contêm. Com a passagem do tempo, a ilusão desfaz-se e antropomorfizamos esses mesmos livros: são eles que nos escolhem. O segundo momento da dialéctica é o do magnetismo, do poder magnético que uma obra exerce sobre o seu potencial leitor. A sabedoria começa a nascer quando se descobre a unilateralidade de ambos os momentos. Nem nós escolhemos os livros, nem estes nos escolhem a nós. O terceiro momento é o da compreensão que o livro nos é enviado como um mediador. Aquele que envia e aquele que recebe são postos em relação pelo livro. Para aquele que recebe, o livro é sempre a voz da alteridade. Uma vezes surge como promessa; outras, como injunção.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Poemas do Viandante (557)

Kazimir Malevich - White Square on White (1918)

557. a sombra sombria

a sombra sombria
do branco
desce na
brancura da tela
e desenha
um campo
florido de forças
a crescer na alma
tão alva
e tão nívea
e tão branca

(28/06/2016)

segunda-feira, 4 de julho de 2016

O ano de 1914

Marc Chagall - O diário de Smolensk (1914)

Que ano este. Tem razão, mas todos os anos são bons para começar uma guerra. Sim, é verdade, mas alguns são mais propícios. As notícias parecem confirmar que estamos num desses anos. Os corações dos homens estão sedentos de aventura, os jornais estão inflamados e a temperatura dos quartéis parece subir a cada dia que passa. Os homens têm de ir para as ruas, ela está desejosa de um grande festim. Ela? Sim, ela. Enfada-se com a rotina e quer excitação, então murmura, com aquela sua voz rouca, ao ouvido dos homens e estes perdem a cabeça. Literalmente. Nunca falha. Ela vai enriquecer. Os próximos anos serão de grande colheita.

domingo, 3 de julho de 2016

Fechar a porta

Fernand Khnopff - I Lock my Door upon Myself (1891)

Há no culto moderno do self, iniciado por Descartes com o cogito como princípio, ainda que garantido por Deus, da certeza inabalável, uma infantilidade que raramente é notada. O centramento sobre si mesmo é uma característica da infância. A maturidade chega pelo descentramento, pela descoberta de que não se é deus, e, de forma mais radical, pela descoberta de que, na verdade, não se é nada. Esta última descoberta pode ter efeitos paradoxais. Pode gerar um grande alívio, uma libertação, ou pode conduzir a que o self se refugie em si mesmo, na sua nulidade, e feche a porta, para que a sua certeza infantil resista ao confronto com a realidade.

sábado, 2 de julho de 2016

Origem e originalidade

Paul Klee - Ab ovo (1907)

Uma das grandes tentações da vida espiritual, seja em que área for, é pensar que se vai começar alguma coisa desde a origem, sendo esta percebida como um começo absoluto. Esta tentação tem duas faces. Em primeiro lugar, pensa que existe uma origem absoluta à qual se possa chegar. Em segundo, crê, de forma ingénua, que se pode saltar por cima da própria sombra, isto é, da história. Não podemos contudo, dizer que não há um momento inicial, uma origem, a partir do qual se faz um certo caminho. A origem existe, mas existe a cada momento. Cada momento é originário e convoca os seres humanos não apenas a mergulhar nessa origem actual como a serem, por isso, originais.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Poemas do Viandante (556)

Gerardo Rueda - Azul y Rosa (1970)

556. um súbito azul

um súbito azul
arde ardente
no rumor
de uma rosa
no voo raso
da gaivota
presa na pétala
rosazul do 
céu de anil
do mar de luz

(28/06/2016)

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Haikai do Viandante (287)

William Turnar - Mortlake Terrace, residència de William Moffat, tarde de Verão (1827)

tardes de verão
tecem-se na luz das águas:
sol, barcos e sombras