segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Poemas do Viandante (54)

54. ACENO

o gesto
que se afoga
no calor da água

as últimas folhas
suspensas
do sol de novembro

o aceno
que me despede
na viagem

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Poemas do Viandante (53)

53. LUZ ESMAGADA

foi um longo estio

horas calcinadas
a poeira vinda do sul
e a luz esmagada abria-se
no almofariz da tua mão

sábado, 3 de outubro de 2009

Poemas do Viandante (52)

52. AMÊNDOA ACESA

que fruto agradará
ao pano suave 

de tuas mãos?

o musgo da tarde
a cambraia dos dias
a amêndoa acesa
na luz da melancolia

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Poemas do Viandante (51)

51. METÁFORA

o nome que te deram
– luz de erva
sobre campo de cinza –
chama por mim

velha metáfora
desliza na tinta
e afoga-se
na água do papel

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Poemas do Viandante (50)

50. MOSTO

do dia
trago
o rosto
e o cheiro
a uvas
preso
ao mosto

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Poemas do Viandante (49)

49. CANTO

o peso da palavra
gota de orvalho
a límpida manhã 

dessa voz

se  as luzes acendiam
empurravam a noite
para o deserto

em silêncio
deus cantava

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Poemas do Viandante (48)

48. SOMBRA

tremem as folhas
sob o império
do vento

o sino repica
na sombra
do silêncio

e a mão desagua
na praia
do sentimento

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Poemas do Viandante (47)

47. CLAREIRA (2)

um enredo 
de papel
o feixe de ervas
à cabeça
e de súbito 

um segredo
traz a noite
à clareira 

da tarde

domingo, 13 de setembro de 2009

Poemas do Viandante (46)

46. UM MISTÉRIO

as ervas
juncam a boca
sabor agreste
trazido
pelo vento 

da infância

às vezes
um presépio
a clareira da noite
mistério de luz

e abundância

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Poemas do Viandante (45)

45. IMPÉRIO

parto
o barco
aparelhado

velas 
a água do mar

os ventos
calam-se
sob o negro
império
do luar

Força

Há alturas em que tudo se dissolve, mas não é a luz que vem e ilumina o fundo da alma. É antes um fogo caótico, o redemoinho da vida que tudo engole e despedaça. No cérebro abrem-se fracturas e o coração é um rio seco, abandonado pelas águas, de vegetação morta, povoado de fantasmas. Tudo então se multiplica, e se se perde a segurança que a unidade de si dá, não é porque se tenha adentrado mais e mais no caminho. Tudo parece ter voltado atrás. Como Sísifo, recomeço a subida, mas que força será aquela que pode vencer a ausência da minha própria força?

domingo, 6 de setembro de 2009

Poemas do Viandante (44)

44. CLAREIRA

a rede
animais prendia
o ramo partido
da macieira
cachos
a despontar
nas videiras

e o vento
noite fora
terror e cinza
apenas clareira
que se abria
no lugar
onde o coração
dormente
adormecia

sábado, 5 de setembro de 2009

Deixar vir

Deixar vir a noite com o seu silêncio, deixar vir a incerteza que a escuridão traz, deixar vir o sussurro da Voz que ecoa para lá do horizonte.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Poemas do Viandante (43)

43. SOBRE

sobre o rio
silêncio
de flores
espreita
a primavera

sobre o mar
nuvem
de cobalto
na voz
que espera

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Esquecimento

Esquecer todos os projectos, os fins e os meios, esquecer-me até de esquecer, e deixar acontecer o puro devir do Espírito, segundo a lei que não conheço, a vontade que não domino, o fim que me ultrapassa. O esquecimento do esquecimento, eis a divisa que brilha no pendão.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Poemas do Viandante (42)

42. SÓS

inclino-me
para a mudez
da tua voz
e no segredo
arvorado
pela noite
canto-te
como se
estivéssemos
sós

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Dissipação

Passam os dias e o deserto cresce como uma ameaça ou uma promessa. Se quero agarrar o caminho, tudo se dissipa e é névoa, onde os olhos impotentes se cerram. Que faço tão longe de Ti? Que faço nesta prisão onde devaneio amarrado às sombras da velha caverna? São dias de chumbo os meus dias, horas sôfregas onde vejo o tempo passar diante de mim. Na inércia que me acomete, vagueio, mortal errante perdido de sua casa.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Poemas do Viandante (41)

41. A FRONTEIRA

a folhagem
batida pelo vento
o chão de areia
a casa vergada
pelo tempo

assim escutava
o sopro a bater
no canavial
a fronteira
que subtraía
de um o outro
coração

domingo, 30 de agosto de 2009

Despotismo das circunstâncias

Um mês longe dos afazeres habituais, mas mesmo assim submetido ao despotismo das circunstâncias. O sentimento desse despotismo é a medida da ausência de liberdade.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Poemas do Viandante (40)

40. GRITO DE SILÊNCIO

um grito 
de silêncio
na cortina
do mar

sombra 
de água
cardume de limos
nuvem trazida
pela maré

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

De Quedar a En-Gaddi

Das tendas de Quedar ao horto de En-Gaddi, será ainda um caminho que se desenha, uma viagem que se abre, uma luz que paira sobre a sombra do mundo? Vai o Viandante das trevas para as trevas, mas nele há a esperança de luz, a súbita presença da tua face, o odor a desprender-se de teus olhos. De Quedar a En-Gaddi é o meu caminho, entre vinhas que não guardaste, entre rebanhos cansados de meio-dia, entre as tuas mãos enegrecidas pelo sol. De noite saí de Quedar, declinava o astro quando me mataste a sede em En-Gaddi.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Poemas do Viandante (39)

39. TRAIÇÃO

traição
rumor
sopro 

ou vento

mancha 
de solidão
na árvore
em flor

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

O devaneio de uma sombra

Mergulhar em si mesmo e esquecer-se de si. Procurar a vida do espírito não é procurar a satisfação dos seus desejos, nem encontrar um caminho para ultrapassar as suas frustrações, ou para realizar o não realizado dos seus projectos. Mergulhar em si para ver os seus desejos, as suas frustrações, os seus projectos como aquilo que eles são: um devaneio de uma sombra. Quem dará importância ao devaneio de uma sombra? Ao aceitar o devaneio enquanto devaneio, poder-se-á ir mais além no caminho, agora mais substancial.

domingo, 23 de agosto de 2009

Poemas do Viandante (38)

38. NÃO PERTENÇO AQUI

sem memória
caminho
olho os goivos
e as flores
que trazes
entre mãos

mas não pertenço aqui
e volto à estrada

esqueci os sinais
e o lugar
onde guardava
os segredos
como se fossem
violetas

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Da sedução - II

Na sedução há um atrair que é um tornar próximo fundado, ao mesmo tempo, na dinâmica do ficar cativo e iluminado, na tensão entre luz e trevas. Mas esta compreensão da sedução está alicerçada numa outra coisa. Seduzir provém do latim seducere que significa “levar para o lado”. Que experiência encontramos aqui e que poderemos reportar ao sentido hodierno de sedução? Na sedução ecoa a inclinação. Ser levado para o lado é ser inclinado por e para qualquer coisa. A inclinação na ética kantiana tem uma conotação negativa, pois ela resulta sempre de uma submissão à sensibilidade e de uma posição não autónoma. Mas em si mesma a inclinação não pressupõe a natureza daquilo para onde somos inclinados. O que está em jogo, de facto, é que na sedução há uma ruptura com a esfera própria e um transcender-se, transcendência que pode ser captada na ideia de inclinação. Na sedução, ao inclinar-me, sou levado para o lado, mas este lateralizar não implicar um perder-se no caminho. Depende daquilo que me inclina e me faz sair de mim e procurar um caminho. Pode ser mesmo o início do caminhar, pois este implica sempre um deslocar-se de um lado para outro.

domingo, 16 de agosto de 2009

Poemas do Viandante (37)

37. O LUGAR

uma dor
no silêncio da tarde
um caminho
um fogo
apenas o lugar
onde
te aguardo

sábado, 15 de agosto de 2009

Da sedução - I

Poder-se-á pensar a relação entre o caminho e a sedução? Será que caminhamos porque o caminho nos seduz? No cerne do uso corrente, a sedução é vista a partir de uma ambiguidade semântica. Por um lado, há todo o campo da atracção, daquilo que nos atrai e cativa ou deslumbra. Por outro, há o espaço semântico que nos fala do perder o caminho, do desencaminhar (engano, corrupção, suborno, desonra, etc.). Neste último sentido, a sedução é aquilo que nos desencaminha, que faz perder a via, que, em última instância, nos perde. O primeiro sentido de sedução, porém, traz uma outra perspectiva. O seduzir, ao ser um atrair, significa um fazer aproximar, tornar mais próximo. O que nos seduz torna-nos próximos da fonte de sedução. Em todo o seduzir há uma aproximação. O sedutor e o seduzido tornam-se assim o próximo um do outro. Mas o campo semântico do seduzir enquanto atracção é também ele ambíguo. O que atrai é aquilo que nos cativa e nos deslumbra. Dito de outra maneira, o que nos prende e o que nos ilumina. Na aproximação que nos torna próximos há as trevas da prisão e o deslumbramento da luz. A sedução não é puro deslumbramento, mas um jogo onde trevas e luz, cativar e iluminar, subsistem em tensão. A tensão torna-se a energia do caminhar, seja do espírito para Deus, seja de um espírito para outro espírito, ou de um corpo em direcção a outro corpo, que o aguarda.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Poemas do Viandante (36)

36. BARCO

o barco 
leva-o o mar
em ondas
de espuma 

salpicadas de mágoa

pobre 
coração cansado
perdido na luz
preso ao naufrágio

O desinteresse do particular

Poderemos ver as coisas como elas são em si mesmas? Se eu abandonar qualquer interesse sobre o que vejo, aquilo que vejo manifestar-se-á no seu ser? Se os interesses particulares introduzem um enviesamento da visão, a sua supressão será o suficiente para que o que se manifesta perante mim se revele em sua verdade? Mas se abandono os interesses particulares, aquilo que chamo de meu, o que restará de mim? E o que restará das coisas que se manifestam? E isto não é um problema teórico da gnoseologia, mas uma questão prática de interesse vital. Caminhar abandonando todo o interesse que me constitui, despir-me de toda a propriedade, preparar-me para a revelação das coisas, não é uma mera questão conceptual, mas o próprio acto de caminhar. A viagem é sempre um agir em direcção aquilo que é. Mas o que é aquilo que é?

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Poemas do Viandante (35)

35. HÁLITO

deixa o hálito
tocar a mão

será nuvem
lâmpada

seara 
de violetas
a abrir-se
para o verão

sábado, 1 de agosto de 2009

Contemplação

Há uma hora em que nos devemos interrogar sobre o caminho. Não sobre o caminho em si, mas sobre o nosso interesse nesse caminho. Será ele a via que nos diz respeito, ou não passará de uma forma de alienação da consciência. É muito fina a fronteira que separa a autenticidade da representação dessa autenticidade. De certa maneira, ou antes de uma maneira que jamais suspeitou, Marx tinha razão. A religião é um ópio, uma forma de alienação. Mas o fundamental dessa alienação não reside em relações sociais pervertidas, mas na perversão da relação do homem com Deus. A própria contemplação pode ser apenas uma máscara para enfeitar e reforçar a egoidade, uma espécie de coroa de glória e um passaporte para a distinção e a diferenciação. Aqui a distinção e a diferenciação são formas de afirmação perante os outros egos, o sublinhar e o reforçar da nossa crença na existência do nosso. A contemplação pode não ser mais do que o mero jogo onde se representa o papel de contemplativo, uma forma subtil de alienação do si mais fundamental que nos habita e um exercício de puro egoísmo.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Poemas do Viandante (34)

34. INCLINAÇÃO

não sei 
se olho
se canto


a luz vacila

escuto
e tudo para ti
é senda 

caminho
feroz inclinação

quinta-feira, 30 de julho de 2009

O mistério do amor

O mistério do amor. Não me refiro ao amor divino, mas ao amor humano, ao amor erótico. O amor divino é uma metáfora humana, demasiado humana, para dar a pensar e a viver a atracção que o espírito sente pela fonte da existência. Mas esta metafórica tem o condão de ocultar a dificuldade de se permanecer perante o próprio amor humano, daquele que serve de termo comparativo para sustentar a metáfora do amor divino. O facto é que há uma obscuridade a envolver o próprio amor humano, como se o amor erótico fosse uma metáfora assente num termo comparativo desconhecido. Quase poderíamos dizer que o amor humano é mais misterioso que o divino. Se quisermos falar da experiência erótica, apenas a dimensão equívoca da metáfora permite o discurso. Um discurso puramente denotativo sobre eros é de tal insipidez que não há amante que nele se reconheça. A presença de um corpo a outro, o jogo dos sentidos, a tensão do desejo, a desordem dos corpos, o fluir hormonal, a atracção dos espíritos, todos esses movimentos que a Física, a Química, a Biologia, a Anatomia e a Psicologia podem descrever, são enquanto tais insignificantes. A sua significância emerge através do poder evocador da palavra, e a palavra só é evocadora se ela se desconvoca da denotação e aceita o desafio de dizer o não dito, o inédito, o não dizível. Dizer o não-dizível, uma impossibilidade lógica, é a face discursiva do jogo erótico, também ele habitado no seu cerne por uma impossibilidade. É este não-possível que é a sua condição de possibilidade. Só o impossível torna possível o amor. A questão remanescente será: mas que impossível é este?

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Poemas do Viandante (33)

33. RECOMEÇO

na sombra
passos
oiço-os
ao entardecer

e recomeço
o caminho
volto
a nascer

Da humilhação

Ter a obrigação de fazer uma coisa absolutamente estúpida é uma prova para a nossa humildade. Pensamos que aquilo que em nós resiste é a nossa inteligência, a razão que acompanha os nossos pontos de vista. Tudo isso é reconfortante para o nosso pequeno ego, mas a verdade é outra. O que resiste em nós é o orgulho, o ego próprio inflacionado perante a estupidez do ego que nos superintende. O que fala em nós nessa resistência é a falta de humildade. É humilhante ter de fazer coisas estúpidas só porque outros, que têm poder para tal, no-lo impõem. Mas essa é uma oportunidade para nos desprendermos de nós mesmos, para nos desligarmos das nossas considerações sobre a natureza superior da nossa pequena máscara e aceitar aquilo que Ele nos envia.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Poemas do Viandante (32)

32. PUDOR


o pudor
desta rosa -



uma mão
uma sombra
o barco
aberto ao
silêncio

sábado, 11 de julho de 2009

Caminhos

Como poderemos aprender o caminho? Caminhando. Nesse estar aí aprendemos a direcção. Isso não significa que não nos equivoquemos, que não soframos derrotas e humilhações. Significa apenas que os equívocos, as derrotas e as humilhações fazem parte do caminho e dirigem-nos na direcção que espera por nós. Um retrocesso nunca é apenas um retrocesso, um engano na encruzilhada é um passo na direcção certa. Todos os caminhos fazem parte do caminho e seja qual for a estrada que escolhamos O que espera por nós lá se encontra à nossa espera.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Poemas do Viandante (31)

31. CONSTELAÇÕES DE AVES

constelações de aves
acendem-se
nos céus

e na terra
os astros
são fogo

jamais ardeu

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Seja feita a Vossa vontade

Escreve Eckhart."Deus deseja que em todas as coisas renunciemos à nossa vontade." O que significa, porém, essa renúncia? Antes de mais, significa a renúncia ao particular, ao subjectivo, ao perspectivístico, ao relativo. Desapossar-se de si, renunciar à vontade própria, significa, então abrir-se ao que não tem limites, ao que não é particular, ao universal e ao absoluto. Isso não pode ser compreendido, todavia, como uma afirmação da natureza absoluta da criatura, mas apenas a afirmação da sua possibilidade de participar naquilo que a ultrapassa. A vontade própria encerra-nos na pequenez da nossa propriedade. Renunciar a ela é abrir-se aquilo que lhe é incomensurável. A vontade própria é uma prisão. Renunciar a ela é renunciar à servidão. Seja feita a Vossa vontade, foi isto que o Cristo veio dizer aos homens. Dito de outra maneira: sede livres.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Poemas do Viandante (30)

30. SEGREDO

um sussurro
sopra
entre mãos

e um segredo
desprende-se
da terra
em aluvião

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Luz e trevas

"A luz brilha nas trevas, e as trevas não a compreenderam." Como poderemos compreender a luz se nos habituámos desde o nascimento às trevas? E todos os passos, por luminosos que pareçam, são ainda um adentrar nas trevas. Mas as trevas não são apenas a ausência de luz, elas são o lugar onde a luz brilha e ao brilhar tão intensamente torna em trevas aquilo onde brilha. Adentrar nas trevas é ainda um caminho para a luz, porventura o único caminho que resta.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Poemas do Viandante (29)

29. A ROSA

deixo a palavra

pedra abandonada
ao vento


e canto-te
antes de a rosa
abrir
desfolhada

sábado, 20 de junho de 2009

Poemas do Viandante (28)

28. SE


se o anjo
fala na noite
e nas trevas
olha o coração
como respirar
o frio do inverno
o terror

duma manhã 
de verão

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Criar e ser criado

"O poeta entra em si mesmo para criar. O contemplativo entre em Deus para ser criado." (Th. Merton) Se o caminho para entrar em Deus for o de entrar em si mesmo, então o acto de criar e o de ser criado confundem-se e o artista criador não é mais do que criação, imagem e semelhança daquele que o cria. E aqui podemos surpreender um sentido novo da mimésis grega. A mimésis, a imitação, não residiria essencialmente na criação de uma cópia da realidade natural, mas na imitação do gesto criador. O artista cria à imagem e semelhança do Criador, desse Criador que continuamente me cria. Em arte, nomeadamente em poesia, a mimésis do real empírico é absolutamente secundária relativamente a esse mimésis mais originária, a da identificação do artista com o Deus criador. Sendo assim, todo o acto artístico tem uma dimensão litúrgica na qual o artista imita ritualmente o gesto criador de Deus, O celebra e O cultua. Por isso, não há arte profana. Toda a verdadeira arte pertence ao domínio do sagrado, tenha ou não o artista consciência disso.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Poemas do Viandante (27)

27. VELHA CANÇÃO


sem medida
quem tudo mede

uma vara
uma sombra
a palavra de gelo
na velha canção

oiço-a crepitar

terça-feira, 16 de junho de 2009

Poemas do Viandante (26)

26. OIÇO-OS CANTAR

pássaros
no colmo

do telhado

oiço-os cantar
no sono leve

e frio
se adormecem
ao luar

A maior ilusão

A maior ilusão é aquela que reside na confiança de que as coisas são como nós julgamos que são. De um momento para outro, tudo rui e a realidade mostra-se totalmente outra, surpreendente. Como poderemos nós guiar-nos pela ânsia da estabilidade, se mesmo o que temos por mais certo não é senão incerto. Abrir o espírito para a incerteza do mundo e deixar vir essa incerteza no seu ser incerto. Nada esperar, nada desejar, mas aceitar aquilo que for enviado.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

O caminho do amor

Já longe na jornada, o viandante pergunta-se: qual é a tua via? Busca dentro de si, busca perplexo no silêncio da noite, busca o que ele bem sabe desde há muito. A sua via não é do encontro amoroso com o divino. Há no caminho do amor algo que o deixa sempre frio, como se o excesso de sentimento ou de afecto fosse um obstáculo ao próprio caminhar. Vários são os caminhos e cada um só pode percorrer o seu próprio, aquele a que foi chamado.

domingo, 14 de junho de 2009

Poemas do Viandante (25)

25. VENTO


sopra o vento
na ramagem 

do quintal

um corpo
um anjo
a luz 

que se apaga
se passa o umbral