sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Poemas do Viandante (397)

Albert Bierstadt - Wreck of the "Ancon" in Loring Bay, Alaska (1889)

397. Penso no mar langoroso e suave

Penso no mar langoroso e suave,
nos dias de calmaria,
o sol sombreado por nuvens amistosas
e clarões de luz a golfar
na porta aberta dos meus sentidos.

Medito na superfície rasa das águas,
na cerração sob o bater das ondas,
a costa a ceder passo a passo,
e o deus triunfante a erguer-se nocturno.
Na mão irada, o tridente,
o tremor das águas no coração.

O fogo cristalino apagou-se,
tudo é agora um imenso calvário.
A costa, um império de náufragos,
gente enlouquecida a gritar na noite,
restos de corpos trazidos pela maré,
plásticos, madeiras e algas.
Barcos de sombra passam macilentos
e tudo é silêncio na renúncia da razão.