segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O templo do Espírito

Paul Gauguin - Y el oro de sus cuerpos (1901)

A espantosa definição paulina do corpo, como «templo do Espírito», opõe-se radicalmente aos esquemas usuais do helenismo. Herdado do pitagorismo, o famoso jogo de palavras sobre o corpo-túmulo (soma/sema) reencontra-se em Platão, impregnado duravelmente toda a mentalidade ocidental, antes e após Cristo. (Christian Belin, Le Corps Pensante - Essai sur la Méditation Chrétienne, p.118)

A visão negativa do corpo, visão tão espalhada na história do Ocidente, é, na sua essência, anticristã e claramente pagã. Mesmo quando é veiculada pela Igreja - e isso acontece muitas e muitas vezes - essa visão não deixa de ser aquilo que é e não deixa de estar em contradição com o próprio cristianismo. Não se trata, no cristianismo originário, de opor o Espírito ao corpo, mas de uma reconciliação entre ambos. A redenção do homem na cruz de Cristo, o tema central do cristianismo, é também a redenção do corpo humano, a ultrapassagem da visão negativa do corpo proveniente de doutrinas como o pitagorismo. A natureza do cristianismo não é a reactividade ao corpo ou à matéria, mas a sua revalorização e salvação. Ora isso implica que o corpo, onde se inclui a sexualidade, deva ser pensado num contexto emancipatório (o que não é sinónimo de libertino) e moderno, pois só assim a definição de Paulo de Tarso continuará, ou tornará, a fazer sentido.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Liberdade e mística

Maria Helena Vieira da Silva - Liberdade (1973)
 
A mística, correctamente compreendida, é o reino da liberdade: liberta o homem tanto dos seus condicionantes transcendentes como dos imanentes, sem o deixar afundar-se numa libertinagem anárquica, porque lhe abre-lhe a via para realizar a sua identidade. (Raimon Panikkar, Mystique plénitude de Vie, p. 210)
 
Para além da liberdade de iniciativa - a possibilidade de iniciar uma acção determinada por si mesmo -, há uma outra liberdade, aquela que nasce da libertação daquilo que nos torna estranhos a nós próprios e que nos aliena. Quando Marx afirma a religião como o ópio de povo, percebe-se que ele próprio possui uma visão alienada do fenómeno religioso e não compreende que a emancipação efectiva não só é anterior à questão económica e política, como tem uma natureza muito mais radical. Emancipar-se significa libertar-se tanto das condicionantes interiores como das exteriores. Ora é isto que as diversas escolas místicas propõem como experiência pessoal, certamente dentro de comunidades, mas não como projecto colectivista. Encontramos assim uma outra porta de entrada na modernidade, de onde a experiência religiosa não terá de ser expulsa mas onde se pode constituir como o elemento central do ser moderno. As diversas libertações e emancipações modernas, desde o liberalismo racionalista ao marxismo, são apenas visões degradadas e decaídas de uma experiência da liberdade muito mais fundamental, aquela que é o objecto central da mística.


sábado, 19 de janeiro de 2013

Sonetos do Viandante (13)

Luca Giordano - Orfeo e le Baccanti
 
13. Animal imperioso, sem destino

Animal imperioso, sem destino,
filho espúrio da terra, guardador
de todos os rebanhos desterrados,
protector desta casa de silêncio.

O vendaval que esperas há-de vir,
no tumulto da noite, na lembrança
dos dias em que cantámos a sombria
canção dos deserdados da fortuna.

Na mão terás de Orfeu a velha lira.
Desabarão palácios de cristal
ao som da melodia que nasce em ti.

Os rebanhos esperam-te, exaustos,
silenciosos, sem mácula no olhar.
Trazem nas mãos serpentes, luas e flores.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Haikai do Viandante (121)

Benvenuto Benvenuti - Alba in padule (1926)

Secreta a manhã
ergue-se no escuro pântano.
Céu de sombra e luz.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O homem crepuscular

Rafael Romero Barros - Crepúsculo (1890)

Por vezes diz-se "somos homens crepusculares". Talvez se queira dizer com isso que somos homens tardios, que pertencemos a um tempo em que uma antiga luz envelheceu e tudo se prepara para entrar na noite, essa negra noite que culminará a tenebrosa idade de ferro que nos foi dada a viver. Mas esta mitologia esconderá antes uma outra coisa. No crepúsculo pensa-se esse momento em que o dia hesita entre a luz e as trevas. Ora essa é a situação de cada um, aquilo que no post de ontem se denominava como o impreciso e o sombrio. O importante, porém, é o destino que se escolhe, aquilo pelo qual o ser anseia. Escolher a luz significa caminhar de claridade em claridade, sem que, nesta vida, seja possível sair do impreciso que a sombra sempre nos impõe.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

O impreciso e o sombrio

Pierre-Albert Marquet - Céu nublado em Hendaya (1926)

É nos dias nublados que melhor se vê, pois essa é a situação que se adequa à nossa condição mortal. As trevas tornam tudo negro e a pura luz cega-nos. O caminho do Viandante é feito de sombras, névoas e neblinas. Aí constatmos que tudo é misterioso e não alimentamos a ilusão que podemos compreender o que se nos apresenta. Houve quem procurasse a clareza e a distinção. O Viandante procura o impreciso e o sombrio.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Poemas do Viandante (398)

Felix Vallotton - Road at St Paul (1922)

398. O que esperas nessa estrada?

O que esperas nessa estrada?
A sombra da tarde,
o toque dos sinos?

O rumor da luz anuncia
a pessoa amada.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Haikai do Viandante (120)

Lilla Cabot Perry - Mountain Village, Japan (1898-1901)

Vertigem de luz,
sombra pura da montanha.
O inverno findou.

domingo, 13 de janeiro de 2013

A etapa geométrica

Benjamín Palencia - Paisaje (1932)

As paisagens cubistas representam um momento importante na vida do espírito. Ao tornar a sensibilidade geométrica, o cubismo permite que esta encontre um caminho para a razão. Não é, todavia, a racionalidade que é a questão importante, mas o processo de desmaterizalição da representação do mundo físico, a espiritualização das sensações, a abertura para lá daquilo que os sentidos nos trazem. O mundo geométrico é um mundo purificado, um universo que perdeu a ganga da matéria e começa a perder os contornos das sensações, que num primeiro momento se tornam mais agrestes. São, contudo, já pura racionalidade, prontas a dissolverem-se numa experiência de luz e fluidez que a matéria sensível nunca permitirá.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Sonetos do Viandante (12)

Rubens - El Consejo de los Dioses (1621-25)

12. Este mar de silêncio abre a noite

Este mar de silêncio abre a noite
ao terror do sagrado. Exausto, calo-me
e espero o orvalho da manhã.
Escutamos os sinos, fria parábola

da vida que há-de vir. Um mundo pálido,
invernia sediciosa, a promessa
de um grande amor que nunca nascerá.
Quantos anos a vida cantarei?

Calemo-nos! Os gestos, os olhares,
o gélido silêncio são sinais,
bastam para contar a nossa história.

Um ramo de magnólias, um sorriso,
era tudo o que havia para te dar.
Os deuses chegam sempre muito tarde.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Poemas do Viandante (397)

Albert Bierstadt - Wreck of the "Ancon" in Loring Bay, Alaska (1889)

397. Penso no mar langoroso e suave

Penso no mar langoroso e suave,
nos dias de calmaria,
o sol sombreado por nuvens amistosas
e clarões de luz a golfar
na porta aberta dos meus sentidos.

Medito na superfície rasa das águas,
na cerração sob o bater das ondas,
a costa a ceder passo a passo,
e o deus triunfante a erguer-se nocturno.
Na mão irada, o tridente,
o tremor das águas no coração.

O fogo cristalino apagou-se,
tudo é agora um imenso calvário.
A costa, um império de náufragos,
gente enlouquecida a gritar na noite,
restos de corpos trazidos pela maré,
plásticos, madeiras e algas.
Barcos de sombra passam macilentos
e tudo é silêncio na renúncia da razão.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Haikai do Viandante (119)

Edvard Munch - Claro de luna (1895)

O clarão da lua
rompe a noite e anuncia
terna a madrugada.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Poemas do Viandante (396)

Claude Gellée - Noite (1672)

396. Vem silenciosa sombra divina

Vem silenciosa sombra divina
e senta-te no véu da noite.
Desenha a folhagem das árvores,
o mistério do musgo que cresce 
e abre a terra aos meus olhos.

Quantos segredos terei para contar?
O vento sopra dobrando os ramos
e traz um canto febril,
uma canção de acácias laceradas,
perdidas no charco do teu coração.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O próximo e a aproximação

Van Gogh - O bom samaritano (1890)

E, respondendo Jesus, disse: Descia um homem de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos salteadores, os quais o despojaram, e espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto. E, ocasionalmente descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e, vendo-o, passou de largo. E de igual modo também um levita, chegando àquele lugar, e, vendo-o, passou de largo. Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, moveu-se de íntima compaixão; E, aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando-lhes azeite e vinho; e, pondo-o sobre a sua cavalgadura, levou-o para uma estalagem, e cuidou dele; E, partindo no outro dia, tirou dois dinheiros, e deu-os ao hospedeiro, e disse-lhe: Cuida dele; e tudo o que de mais gastares eu to pagarei quando voltar. Qual, pois, destes três te parece que foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores? (Lucas 10:30-36)

Ao ler o texto de Lucas poderemos pensar que estamos perante uma ética da compaixão. Isso, contudo, será uma visão demasiado exígua. A compaixão evidenciada é o resultado de uma aproximação. O que significa isto? Significa, antes de mais, que o próximo é o resultado de uma decisão do nosso livre-arbítrio. E essa decisão provém da escolha entre aproximar-se ou não do outro. Em segundo lugar, o próximo é uma construção gerada pelo acto de aproximação, de me tornar próximo. O próximo não é um conceito abstracto proveniente da razão teórica, mas o produto de uma acção, de uma praxis. Perante interpelação de uma situação podemos fazer daquele que nos interpela um próximo ou tomá-lo como um estranho de que nos afastamos. 

Só a partir desta tensão entre aproximação e afastamento, compreenderemos a compaixão. Literalmente, compaixão significa sofrimento partilhado. A partilha da dor só se torna possível pela decisão de aproximação. Por outro lado, a partilha da dor não é um mero eflúvio sentimental. Pelo contrário, a compaixão traduz-se num conjunto de actos com resultados práticos. Decisão, acção, resultados práticos, tudo isso permite, a partir do par aproximação - compaixão, recolocar o chamado amor cristão no seu devido lugar. Contrariamente àquilo que resulta de muitas práticas e prédicas religiosas, a caritas não é uma exalação de afectos, não é uma litania delicodoce de banalidades beatas misturada com sorrisos e lágrimas. 

Ela é o resultado de um ethos que ultrapassa o da amizade segundo Aristóteles. Na terceira classe de amizade, a amizade segundo a virtude, a mais importante para o filósofo grego, esta só se pode estabelecer entre homens que são “bons e semelhantes na virtude, pois tais pessoas desejam o bem um ao outro de modo idêntico, e são bons em si mesmos.” Ora a caritas implica que o homem se aproxime do outro sem saber qual a virtude deste. Não é porque dois homens são bons e virtuosos que se tornam amigos, mas porque um se aproxima do outro e exerce praticamente a virtude da amizade ou a caritas que uma amizade se pode constituir,  pois este exercício de aproximação compassiva convoca, mas não exige, no outro o exercício da reciprocidade. A bondade, deste ponto de vista, não é uma qualidade a priori dos indivíduos mas um exercício contínuo de aproximação ao outro.

domingo, 6 de janeiro de 2013

A luz matinal

Paul Klee - Clearing in the Forest (1926)

A floresta é, na filosofia de Heidegger, uma metáfora da vida. Os Holzwege (caminhos da floresta) são esses pensamentos que abrem um caminho, uma senda na floresta, isto é, um caminho na vida. Se não houver, porém, o clarão matinal que ilumina o viandante, os caminhos de pouco lhe valem. Melhor, a luz que penetra na floresta é aquilo que traça esses caminhos e os abre ao viandante. Ora a luz matinal, pela sua natureza incoativa e pela frescura a que está associada, é aquela que traça os mais promissores caminhos. Não se confunda, porém, a luz matinal com os verdes anos. O fundamental é, em cada etapa da via e da vida, abir-se a essa luz primeira, uma luz virginal e pura.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Haikai do Viandante (118)

Joseph Wright - Illumination of the Castel Sant'Angelo in Rome (1778-1779)

Fria, secreta, a noite,
arde num fulgor de seda.
Visão da alvorada.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Do espírito imaturo

Theo van Doesburg - Counter-Composition VI (1925)

Há um momento na vida que buscamos caminhos claros, marcados por linhas rectas, um exercício de geometria prática. Nessa altura, animados pela razão e pelo seu desprezo pelo sinuoso, julgamo-nos maduros e na via da verdade. Em breve, porém, se descobre que a razão geométrica não passa de um exercício adolescente, o sintoma de uma imaturidade do espírito. As curvas de um rio, os desenhos sinuosos feitos pelo vento nas areias do deserto, o horizonte incerto das montanhas escarpadas simbolizam mais eficazmente a via que espera o viandante. A geometria, a clareza e a distinção, a pura diferenciação do branco e do negro são ainda um armadilha, o exercício de uma sedução a que o espírito, na sua imaturidade, com agrado cede.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Poemas do Viandante (395)

Caspar David Friedrich - Mist (1807)

395. Tudo se dissolve na neblina da manhã

Tudo se dissolve na neblina da manhã,
os barcos que vão e vêm,
as águas agitadas batidas pelo vento,
o perigo escondido na rocha escarpada.

O mundo torna-se um sonho translúcido,
a pesença de uma luz de seda,
lâmpada que ilumina as horas
e esculpe sobre a terra estátuas de sal,
pequenas gaivotas de pedra,
a mão que me estendes sobre o oceano.

O amor é um mistério de penumbra.
Olhamos e sentimos o coração pulsar,
há ervas e cardos, restos de comida,
um copo vazio à espera da tua boca.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Rituais de caça

Pieter Brueghel, o Velho - Os caçadores na neve (1565)

Por que razão os rituais de caça, ainda hoje, desencadeiam entre os homens civilizados grandes paixões? A resposta mais fácil dir-nos-á que se trata de uma antiga herança proveniente dos tempos em que a caça permitia a subsistência da espécie. Há, contudo, algo mais do que essa memória proveniente da necessidade de alimento. A caça era mais do que um modo de vida, era um verdadeiro exercício espiritual, no qual o homem se descobria a si mesmo. Para além do desenvolvimento da precisão do braço e da acuidade da visão, havia um caminho a realizar, aquele que vai do corpo do caçador ao corpo da presa. Esta presa, porém, só na aparência era alguma coisa exterior ao caçador. Enquanto a presa fosse figurada como um objecto externo ao sujeito que caça, ela seria inatingível. A caça seria antes um exercício de fusão de predador e presa e, na prática, o caçador caçava-se a si mesmo projectado na presa. A vida espiritual do homem resulta de uma desmaterialização dos rituais de caça. É ainda e sempre a si mesmo que o homem persegue na vida do espírito, é a si que pretende caçar, é consigo que tem a nostalgia de se fundir. A paixão da caça é uma longínqua reminiscência dessa actividade do espírito, é o sintoma de um desejo esquecido e recalcado de se descobrir a si mesmo. Onde há uma paixão humana pode-se suspeitar quase sempre uma experiência espiritual fundamental que se perdeu, recalcou ou perverteu.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Haikai do Viandante (117)

Claude Gellée - Amanhecer

Clarão na manhã,
abres um sulco nos céus:
da noite, veio o dia.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Sonetos do Viandante (11)

Edward Burne Jones - Amor entre las ruinas (1894)


11. De todas as palavras, uma basta

De todas as palavras, uma basta
para que nesta hora a vida valha
mais que a dor ou a raiva que nos tolhe,
mais que a alegria falsa derramada.

Esqueçamos os dias que se gastaram,
bebamos sem limite ao ano novo,
que disfarçado chega pela sombra,
onde o terror se esconde silencioso.

Não falemos de orvalhos nem de ventos,
não falemos de estios incendiados.
Procuremos a pálida palavra

que ao coração anima nestas horas,
verbo de seda e musgo que ao cantar
abre ao amor a rosa tão cansada.