sexta-feira, 4 de março de 2016

Espero

John Marin - Figuras en una sala de espera (1931)

Espero. Espero entre esta gente que também espera. Conversam por cima do meu silêncio. Invejo-os. Eu nada tenho a dizer. O que me resta é olhar, fingir que não os oiço. O que poderia eu dizer? Em mim tudo é incerteza, opinião inacabada. Começo a formular um juízo e logo me calo. Escrúpulos? Sim, não seria falso. Quem nada sabe, o que pode dizer, como pode julgar? Deixo-me envolver no silêncio que paira sob aquelas vozes, O silêncio cresce dentro de mim, toma forma, oprime-me o peito e solta-se como uma nuvem. Paira no ar e desce lentamente sobre as bocas que falam, e elas tornam-se mais lentas, mais abafadas, mais indecisas. A nuvem adensa-se e as vozes são já uma sombra, quase uma treva, até que a noite as engole e emudecem. Espero e falo no silêncio da minha voz.