domingo, 8 de setembro de 2013

Tornar-se vazio

Guillermo Pérez Villalta - O reino do vazio (1993-94)

Assim, qualquer de vós, que não renunciar a tudo o que possui, não pode ser meu discípulo. (Lucas, 14:33)

Alguém, mais informado sobre a História do Ocidente, poderá perguntar como se pôde edificar uma civilização estruturada na propriedade a partir de uma religião que prega a mais radical das renúncias. Esta perplexidade, porém, não é a essencial. O mais importante é compreender o desafio tão inumano que é lançado ao homem. Renunciar a tudo significa renunciar a tudo e não apenas a algumas coisas mais ou menos desaconselháveis moralmente. No desafio lançado por Cristo, não há qualquer moralização. Não se trata apenas de abandonar as coisas más. Também as boas devem ser objecto de renúncia. Tornemo-nos vazios, é a injunção que o texto de Lucas regista. Não se trata só de renunciar à propriedade privada, aos bens materiais, às coisas que, desde cedo, dizemos que são nossas. Posso renunciar a tudo isso e, no entanto, ainda não ter renunciado a nada. Tornar-se vazio significa renunciar a si mesmo, entrar no reino da pura aceitação do acontecer.

7 comentários:

  1. Hum...análise perigosa «aceitação do puro acontecer»?

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    1. Depende do ponto de vista. Do ponto de vista social, é perigoso, mas não é esse ponto de vista que aqui está em questão.

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    1. No Ocidente não precisamos do taoismo. O cristianismo, se não for interpretado como uma mera moral, está mais de acordo com a nossa índole.

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  3. Está bem...é que as palavras têm um enorme poder...

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  4. Sim, o Cristianismo reune em si o essencial para que se obtenha um equilíbrio espiritual, físico e consequentemente, social, que nos permite viver de uma forma harmoniosa conosco e com tudo o que nos envolve. Só é necessário entender a doutrina e como diz, não a interpretar como uma mera moral.

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    1. Completamente de acordo, o cristianismo é um modo de ser e um caminho de vida e não um conjunto de preceitos e imperativos.

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