quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Tornar-se ninguém

Georgia O'keeffe - Black Cross with Red Sky (1929)

A cruz, na história, é o último lugar, e o crucificado não tem nenhum, é um 'não lugar', foi despojado: é um ninguém, mas João vê essa humilhação extrema como verdadeira exaltação. (Bento XVI)

Tornar-se ninguém. Quando, no Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett, Telmo, ao escutar a voz do Romeiro, pergunta «Romeiro, quem és tu?», D. João de Portugal responde-lhe «Ninguém, Telmo; ninguém; pois se já nem tu me reconheces.» Esta experiência de humilhação suprema (a humilhação do não reconhecimento) de um elemento da aristocracia portuguesa nasce do descalabro de Alcácer-Quibir. Ela é marcada pela aniquilação do papel social e pela queda da máscara construída na interacção comunitária. Esta aniquilação - mero acidente na vida das sociedades, resultado de um desaire, mas nunca um projecto de vida - é o projecto central do cristianismo, projecto centrado na exemplo do modelo crístico.

O texto citado de Bento XVI tem uma tonalidade interessante. Ao falar da cruz como o último lugar, não fala de forma abstracta e descontextualizada. A cruz é o último lugar na história, nesse lugar que regista as metamorfoses das comunidades humanas, os feitos dos homens, a glória que lhes toca. Contrariamente ao entendimento nietzschiano, o cristianismo, com a sua cruz e o projecto de tornar a pessoa em ninguém, não é uma negação da vida, mas um crítica impiedosa, ao mostrar a sua irrelevância, às estruturas e hierarquias que a dinâmica social projecta nas comunidades, incluindo as religiosas, diminuindo-lhes a verdadeira vitalidade. A vida não está em ser o primeiro, o mais importante, mas em tornar-se ninguém, em libertar-se da máscara que a vida social impõe, em ocupar um não lugar. Qual o lugar da vida verdadeira? É o não lugar, aquele que para ser ocupado exige que alguém se torne ninguém, que se transforme nesse a quem ninguém reconhece.