sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Poemas do Viandante (432)

Gustav Klimt - Adão e Eva (1905-6)

432. Os cabelos descem-te em fúria pelos ombros

Os cabelos descem-te em fúria pelos ombros
e o silêncio da tarde descai estrangulado pelo corpo:
rumor de folhagem, aroma de neve, água cintilante
sobre o fruto maduro que anuncia o outono.

Abro um livro ao acaso e desfolho-te, a cicatriz
desenha um rio, a fronteira, o alvor da maçã.
A palavra chega, negra e terrível, esboço de geada,
promessa perdida na sombra azul da manhã.

Abres a janela e olhas a névoa sobre os pomares.
Nus, os ombros esperam pelo deslizar da mão.
Ao longe, ouvem-se corvos, o uivo branco do amor.
O teu corpo amanhece no deslumbrado sangue do meu.