terça-feira, 9 de julho de 2013

Libertar-nos da multidão

James Ensor - The Entry of Christ into Brussels (1888)

Contemplando a multidão, encheu-se de compaixão por ela, pois estava cansada e abatida, como ovelhas sem pastor (36). Disse, então, aos seus discípulos: «A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos (37). Rogai, portanto, ao Senhor da messe para que envie trabalhadores para a sua messe (38).(Mateus 9:36-38)

Este versículos parecem sublinhar a necessidade do pastorado como forma de guiar os homens, dominando-os. Esta leitura, porém, é demasiado apressada e elimina toda a dimensão crítica contida no texto. Onde reside essa dimensão crítica? Está toda na consideração que é feita sobre a multidão, sobre aquilo que foi teorizado no século XX sob a categoria de massa. A multidão ou a massa não é um valor positivo. Pelo contrário, é o que é digno de compaixão. A palavra compaixão tem aqui o seu significado radical de sofrer com. A multidão sofre e gera naquele que não pertence à massa a necessidade de sofrer com ela e por ela. A multidão está cansada e abatida, pois perdeu a direcção e o caminho. Ovelhas sem pastor.

Esta apreciação da massa e da necessidade do pastorado está assente sobre o silêncio de uma outra categoria, a do indivíduo. Para lá do rebanho há o indivíduo. Sobre este nada é dito, mas surge, em contraponto com a multidão, como uma categoria positiva. Surge representado naquele que tem compaixão pela multidão, Cristo. Indivíduo é aquele que encontrou o seu caminho, que se dirige por si mesmo, que é autónomo, pois descobriu em si o seu próprio guia. Isto altera a interpretação que se faz do pastor. O pastor não vem para dominar o rebanho, mas para libertar os indivíduos que há nele, para transformar o rebanho num reino de seres livres e responsáveis, à imagem e semelhança daquele que sofre pela multidão. O pastor veio para retirar cada um do rebanho, para nos libertar da multidão.