segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Sonetos do Viandante (9)

Theodore Gericault - O beijo (1922)

9. Esse toque de sombra, essa queda

Esse toque de sombra, essa queda
infinita no abismo silencioso.
O escárnio de falar, suprema dor
de estar vivo na treva que nos cobre.

Rasgo-te na memória uma ruga,
entro na terra aberta como um pássaro
e canto em cada hora a tua figura
no rumor incendiado pelo vento.

Sempre que o deus nos olha, tudo cai.
As certezas que tínhamos são cinza,
montanhas calcinadas no horizonte,

restos de fogo e areia sobre o mar.
Entrego-me ao destino nessas mãos
e espero em silêncio a fria noite.