segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Acumular e abandonar

Rembrandt - Parábola do homem rico (1627)

E o que acumulaste para quem será? (Lucas 12:20)

Na parábola do homem rico, a qual, como todas as outras, gerou múltiplas interpretações, a pergunta que fica sem resposta - e o que acumulaste para quem será? - é central. Central por ficar em aberto, mas por outro motivo. O tom de censura é nítido e dirige-se muito para a prática da acumulação que não se limita, longe disso, aos bens materiais. Qualquer acumulação, inclusive a de bens espirituais, está aqui posta em cheque. A vida do espírito é o contrário da vida material. A essência desta é a acumulação. Na vida do espírito, a essência é o contínuo abandono, inclusive das ilusões espirituais. Na vida espiritual não se trata de ter, de ter muitas experiências espirituais, de fazer muitas leituras ou de se elevar à erudição e tornar-se um farol da cultura. Trata-se apenas de se despojar da ganga que a vida e a ilusão depositam no espírito do viandante para lhe dificultar a continuação da viagem. Tornar-se pobre em espírito não é outra coisa.