segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Poemas do Viandante (385)

Paul Klee - Casa giratoria (1921)

385. Na floresta

Na floresta
rodopia 
a velha casa.

Negro pássaro
preso ao céu
perdeu as asas.

domingo, 18 de novembro de 2012

Haikai do Viandante (104)

Frantisek Kupka - Aguatinta (1913)

Frágeis universos.
As cores são velhos mundos
feitos de água e versos.

sábado, 17 de novembro de 2012

Caminho de sabedoria

Marcel Duchamp - Étant donnés: 1º la chute d'eau, 2º le gaz d'éclairage (1946-66)

A experiência da porta é uma das mais essenciais na viagem. Cada porta representa um enigma, mas também um desafio e uma possibilidade. O viandante faz a experiência do limiar, desse não estar dentro nem fora, sente a perplexidade por estar prestes a deixar o conhecido e entrar no desconhecido. É neste desconhecido que está o enigma, o desafio e a possibilidade. Quando se chega a uma porta fechada é porque todas as possibilidades anteriores estão consumadas e um instinto certeiro nos conduz aquele limiar. Perplexo, o viandante sente o coração dividido entre o conhecido e realizado e o não pensado, o não sabido, o não realizado. Naquele instante, a viagem pode terminar ou, então, ganhar sentidos inesperados, pois novos possíveis se escondem atrás da porta. Tudo depende do viandante, da sua disposição, da atracção que ele permite que o atinja vinda do outro lado da porta. Um livro, um quadro, uma pessoa, uma situação. Tudo isso pode ser uma porta, isto é, um enigma, um desafio e um possibilidade que chama por nós. A sabedoria está em discernir, no caminho, que portas devemos abrir e aquelas que devemos passar ao largo. Um caminho de sabedoria é aquele que é feito de porta em porta, um caminho singular e intransmissível.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Haikai do Viandante (103)

Mon Montoya - ¿Hasta cuándo conservaron la ilusión de que podrían quedarse? (1999)

Símbolos, sinais,
sintomas desta viagem;
rudes e fatais.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Poemas do Viandante (384)

Anónimo Realista del Siglo XIX - The Train between Stokton and Darlington, Great Britain (1827)

384. A fuligem

A fuligem
que se solta
do ferro.

Pura poalha
à janela
do inverno.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Sonetos do Viandante (8)

Pierre Auguste Renoir - Gabrielle con la rosa (1911)

8. Deixas o olhar preso num sonho

Deixas o olhar preso num sonho
e com a mão suspensa no ar
quase me tocas, quase feres
o que em mim clama por ti.

Que f’rida purga no desmando
que arde no teu rosto cansado?
Um véu de cinza, a velha rosa,
tão desfolhada se perdeu.

Noite em que tudo desfalece,
onde os sorrisos de outrora
e o bravio cântico de amor?

Alma fechada e vazia,
perdeste o fogo e o delírio,
resta uma flor exausta e fria.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Sonetos do Viandante (7)

Ernst Ludwig Kirchner - Desnudo femenino de rodillas ante un biombo rojo (1912)

7. Seio descuidado aberto sobre o mundo

Seio descuidado aberto sobre o mundo,
luz matinal que me incendeia o desejo.
Pobre esperança de tocar o fundo
desse teu corpo que espero e vejo.

Seda e cetim, puro algodão em flor,
prazer secreto sob a minha mão.
Despida e nua – oiço sombrio rumor –
dás o teu corpo. Nunca digo não.

Chegada a hora, as mãos e os dedos
abrem-se, flores, ervas, rios, segredos
que desaguam agora nesta rua,

onde te espero pura, branca e nua.
Vem na fria noite iluminar os astros,
somos lua e sol, não deixaremos rastros.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Haikai do Viandante (102)

Ludwig Hirschfeld-Mack - Círculo cromático com 12 divisiones (1922-23)

Círculo de cor.
Entre o dia e a noite, a vida
é sombra e rumor.

domingo, 11 de novembro de 2012

Sonetos do Viandante (6)

William Hogarth - The times - plate 1 (1762)

6. Secreta mutação no ventre do tempo

Secreta mutação no ventre do tempo.
Horas sombrias, azedas, horas perdidas,
o rumo ensanguentado, a vida pobre,
um rosário sem rosas. Tudo estiola

sem rumo nem segredo, no silêncio
das coisas sem sentido, sem palavras
que sejam um relâmpago, a aurora
que chega e anuncia um outro tempo.

Vertigem, dor, o bem submisso ao mal,
um exercício ávido de gritos,
de noites que não têm fim nem retorno.

O tempo que nos cabe, sol de trevas
incendiado, inferno desmedido,
metástase hedionda, fria e sem fim.

sábado, 10 de novembro de 2012

Haikai do Viandante (101)

Miquel Rivera Bagur - Assossec (1989)

Vermelho deserto,
areia, sol, vasto horizonte.
A morte tão perto.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

O tempo dos vendilhões

Stanley Spencer - Expulsion of the Money Changers (1921)

O episódio da expulsão dos vendilhões do templo é, juntamente com o dai a Deus o que é de Deus e a César o que é de César, um dos elementos matriciais da cultura ocidental. Se a separação entre Deus e César prefigura a separação entre religião e política, a expulsão dos mercadores do templo revela um topos cuja estrutura merece ser meditada. Há múltiplas leituras do acontecimento. Por exemplo, Mestre Eckhart, num dos seus sermões, faz uma leitura simbólica e espiritual, sem qualquer incidência política e social. A natureza simbólica dos textos evangélicos implica a existência de múltiplas leituras que não se excluem mas complementam. Este episódio, do ponto de vista social, não significa apenas a divisão dos espaços, a separação rigorosa do locus do espírito do locus do mercado. Significa também a sua hierarquia. As coisas espirituais estão acima das questões de mercado, de tal maneira que estas estão impedidas de se misturar com aquelas. No ideal regulador da vida do ocidente, esta separação e hierarquização sempre esteve presente, as coisas do espírito estão acima das questões do mercado e têm sobre estas preeminência.

A modernidade pode ser vista como um processo de subversão desta velha hierarquia. Lentamente, os mercadores expulsos do templo começaram a invadir as esferas que não lhe diziam respeito. Infiltraram-se na ciência e na política. Transformaram a ciência numa cadeia de apoio aos negócios e converteram a política à protecção do lucro privado dos vendilhões expulsos do templo. A vingança contra o templo de onde foram expulsos veio a seguir. Veio não apenas através da conivência entre os guardas do templo e os vendilhões, mas no acto de substituição do próprio templo. Os bancos são as novas catedrais onde os mercadores se entregam à corrupção do espírito e à corrosão do carácter dos homens. A vida, que um dia foi organizada em função do espírito, é agora toda ela voltada para o mercado e vivida em função do dinheiro. Os mercadores expulsos por Cristo voltaram e criaram os seus templos, onde o espírito não tem lugar, para invadirem e contaminarem todas as esferas da vida. No entanto, no fundo dos homens o episódio evangélico da expulsão dos vendilhões não deixa de ecoar, gerando a sensação de que alguma coisa está mal, de que alguma coisa insensata inverteu a natureza das coisas, de que o mundo está fora dos eixos.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Haikai do Viandante (100)

Thomas Hart Benton - Impression, Camouflage (World War I) (1918)

Céus em turbilhão.
E nas águas partem barcos,
vai-se o coração.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Poemas do Viandante (383)

Gwen John - A Corner of the Artist’s Room in Paris (1907-9)

383. Esse lugar vazio

Esse lugar vazio,
não sei como preenchê-lo.
Espreito da janela,
vejo uma mesa e um livro,
vejo uma sombra lívida,
mas não consigo ver
onde está a tua mão
para perder-me nela.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Haikai do Viandante (99)

Piet Mondrian - Composición 1916 (1916)

Naturezas mortas,
traço e cor sobre o papel,
jardins, casa e hortas.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Poemas do Viandante (382)

Caspar David Friedrich - Cemitério

382. ESCUTAREMOS UMA VEZ AINDA OS MORTOS

Escutaremos uma vez ainda os mortos,
as palavras silenciosas ciciadas
na penumbra da tarde,
o severo olhar vindo do outro lado,
o julgamento deixado sobre a história.

Todos dormimos na vida um sono,
o esquecimento da verdade,
a relíquia que todos cortejam
e que de todos se esconde,
ao erguer muros de pedra e ilusão.

Escutaremos uma vez ainda os mortos,
a verdade que lhes trouxe a morte,
a terra descampada onde repousam,
entre árvores erguidas para o alto
e o sonho da eternidade.

domingo, 4 de novembro de 2012

Sonetos do Viandante (5)

Michel Larionov - El desnudo azul (1903)

5. Adormecida sobre a terra pura

Adormecida sobre a terra pura,
a mão no rosto e, no corpo nu,
o véu da lua, seda e cambraia azul,
'strela selvagem, vento, água e fogo.

Puro delírio, seio aberto e suado,
rasto de sangue por amor chorado.
A tudo o sono esquece. Dor, maldade,
vida desfeita, o riso frio e imundo.

Nesta manhã desconsolada vens,
suave e sonâmbula, cobrir o dia,
com o segredo de uma rosa anil,

pura e perfeita, desmedida e bela.
Rosa que se abre sobre o corpo lívido,
rumor de pássaro no frio da tarde.

sábado, 3 de novembro de 2012

Serenidade

Miró Mainou - Serenidad (1968)

Este é o tempo que exige do viandante a maior serenidade. A violenta tempestade aproxima-se e não há abrigo onde se possa recolher nem homem que lhe estenda a mão. Nada depende da pequena vontade que lhe cabe. Resta a pura entrega ao acontecer e esperar o que à graça lhe aprouver.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Poemas do Viandante (381)

Paul Klee - A garden for Orpheus (1926)

381. Orfeu no jardim

Orfeu no jardim
sentado dedilha
a pesada lira.
Lágrimas nos olhos,
no coração a dor
e no peito a ira
por tanto desejo
lhe roubar o amor.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Haikai do Viandante (98)

Camille Pissaro - A Path Across the Fields (1879)

Amenas paisages,
velhos campos e caminhos,
 frutos e viagens.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Poemas do Viandante (380)

Vincent Van Gogh - Bosquecillo (1890)

380. No bosque frondoso

No bosque frondoso,
a sombra pálida,
canções e rumores
trazem-te o outono
coberto de musgo,
trevos e flores.