Demasiado puro o ar da montanha. Esquecido, quantas vezes o viandante passa ao lado do que é essencial. Essa lateralização da vida nem se deve aos deveres que a existência impõe, mas às expectativas que nascem no espírito, essas pequenas e grandes tiranias do desejo. Vivemos numa cultura que incensa o desejo e perdemos a sabedoria de olhar para o que desejamos, de olhar para a nossa faculdade de desejar. Contrariamente ao que o espírito deste tempo supõe e impõe, raramente o desejo nos atira para a montanha, para o ar puro e o céu azul. Numa época onde a única diferenciação que se conhece é a social, não se aprende a distinguir entre desejos, a hierarquizá-los, a eliminar muitos para que se possam cultivar alguns, aqueles que exigem a pureza de espírito, a nobreza de alma, a coragem da abdicação. Mas só o espírito puro e a alma nobre suportam, sob o céu azul, o ar puro e rarefeito da montanha.
terça-feira, 17 de abril de 2012
segunda-feira, 16 de abril de 2012
Guerra santa
Jackson Pollock - War (1947)
Esse conflito que nos dilacera, abre o peito e rasga a carne, essa guerra santa entre o desejo de tudo nos apropriarmos e o mandamento de tudo entregar, é a essência da própria vida sobre a Terra. Em cada um, defrontam-se - numa guerra sem fim - duas injunções, dois imperativos, como se ele fosse possuidor de duas vontades; ou não será melhor dizer: como se ele fosse possuído por duas vontades? Não se pense que um imperativo vem de dentro de nós e outro nos é exterior. Pura ilusão dualista. Essas duas injunções são irmãs, irmãs inimigas que combatem pelo domínio da nossa vida. Se uma é inscrição do biológico e a outra do espírito, isso não significa que uma nos seja própria e outra estranha. O conflito que nos dilacera traz consigo uma teleologia, uma finalidade: a paz. O que a guerra interna nos ensina é a exigência de uma pacificação. A sabedoria está em encontrar o caminho não para a derrota de uma das irmãs inimigas, mas uma via de reconciliação e de reconhecimento dos direitos das partes em confronto.
domingo, 15 de abril de 2012
A voz do deserto
Giorgio de Chirico - The Red Tower
Ouvir a voz do deserto. O medo da solidão ofusca o desafio que o deserto lança a cada um. Não me refiro ao deserto geográfico, a essa paisagem de areia, sol e desolação, mas ao deserto interior, ao desenho de um espaço onde nos confrontemos com a Verdade ou, dito de outra maneira, onde a Verdade nos confronte, nos ponha em causa e desmascare a nossa ficção. Quando o deserto vem ter connosco, rasga o corpo e cresce na alma, sentimos uma angústia tão estranha que acabamos por fugir, fechar o espaço assim aberto e repousar na pura bavardage quotidiana, na efectiva alienação. Salvos daquilo que nos interpela, entregamo-nos ao fluir da nossa irrelevância. Prazeres e dores são estações da nossa cobardia perante o deserto - a praça vazia da nossa alma - e a voz que nele fala.
sábado, 14 de abril de 2012
A obscuridade mundana
René Magritte - Les Amants
Há sempre nos acontecimentos mundanos qualquer coisa de obscuro. Muitos deles são, por natureza, sombrios, como se fosse impossível mascarar uma certa rudeza constitucional das pessoas que neles participam. Noutros, mais glamorosos ou mais brilhantes, essa rudeza não é tão crua. Mas basta raspar um pouco com a unha - e não é preciso que esteja particularmente afiada - para que uma sombra se desenhe sob o nosso olhar. Um pouco mais de atenção e a sombra cresce, ganha peso, torna-se noite escura. No entanto, quantas vezes a natureza olhada a partir da nossa solidão mantém um brilho e um vigor inalteráveis? A questão que nasce na mente do observador está assim ligada não ao mundo e à natureza mas ao mundano, essa forma própria dos seres humanos perverterem o paraíso. A sombra projectada é a figuração da egoidade humana, esse desejo de ser alguma coisa, esse querer emergir do nada que se é. A obscuridade mundana nasce dessa incapacidade dos homens perceberem-se enquanto meros grãos de areia perdidos e errantes num universo infinito.
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Poemas do Viandante (261)
Monet - Houses of Parliament. The Sun Shining through the Fog
261. MONET, HOUSE OF PARLIAMENT. THE SUN SHINING THROUGH THE FOG
sombras da noite
rasgam o dia
e o sol cansado
deixa correr
entre lábios
um suspiro
uma agonia
quinta-feira, 12 de abril de 2012
quarta-feira, 11 de abril de 2012
Poemas do Viandante (260)
Sisley - Snow on the Road Louveciennes
260 - SYSLEY, SNOW ON THE ROAD LOUVECIENNES
a nostalgia dos invernos
que nunca vivemos
essa música
de seda
sobre um mar de neve
árvores despidas
um céu de cinza
e a solidão presa
na estrada
onde nunca passarás
como amamos
- nós que vivemos
sob o império do sol -
essas terras mais a norte
onde o inverno lembra
um natal preso
na memória da infância
terça-feira, 10 de abril de 2012
segunda-feira, 9 de abril de 2012
domingo, 8 de abril de 2012
Ressurreição
Começar mais uma vez? Recomeçar? Uma ressurreição que seja uma retorno ao começo não é uma ressurreição, mas o eterno retorno do idêntico. O que haverá no mistério da ressurreição de Cristo que prenda ainda a fé dos homens? Sim, certamente, a promessa da vitória contra a morte, a ideia de uma vida eterna, a expectativa de um além onde não haja condenação ao nada eterno, tudo isso é atraente, tudo isso fixa a imaginação popular, e dá-lhe um suporte intuitivo para a fé. Será, porém, isso que está em jogo? Melhor, será apenas isso que se jogo no mistério da ressurreição de Cristo?
Se for apenas isso, então é uma espécie de desafio para que se protele a vida nova, que se adie para depois da morte a ressurreição. A ressurreição crística, todavia, é um desafio a nós que estamos mortos e não o sabemos. A nossa morte não é a mera morte zoológica ou biológica, mas a morte em que mergulhamos na vida biológica, nessa preocupação excessiva com a nossa animalidade. A ressurreição de Cristo é o chamamento para uma vida plena aqui e agora. A morte de Cristo não é uma morte metafísica, puramente simbólica, mas uma morte no aqui e agora da História da humanidade.
A historicidade dessa morte (mesmo que essa historicidade seja apenas uma mera crença não justificada) é o indício que nos evidencia que a ressurreição é aqui e agora, a ressurreição da nossa vida diminuída e diminuta, da nossa vida mesquinha e sem sentido. Ressurreição não é um mero facto. É um desafio que é lançado ao homem vivo, para que na vida, em cada um dos seus instantes, triunfe sobre a morte. Não se trata de retornar ao mesmo, ao idêntico, à pura biologia, mas de se diferenciar, tornar-se outro, tornar-se naquilo que se é, resolver o mistério da sua própria existência.
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sábado, 7 de abril de 2012
Poemas do Viandante (259)
259. MANET, CRISTO MUERTO Y DOS ÁNGELES
desprendido
dos cuidados do dia
o corpo entregue
à paz do sepulcro
um abismo de trevas
na voz do anjo
de respiração suspensa
espera a hora
em que não haverá hora
a luz iluminada
do mundo
um traço de agonia
na cal da madrugada
sexta-feira, 6 de abril de 2012
Poemas do Viandante (258)
Manet - Cristo escarnecido por los soldados
258. MANET, CRISTO ESCARNECIDO POR LOS SOLDADOS
a luz mais pura
sob a noite
frágil
na solidão
ferida
na dolorosa dor
aberta para
o mar da criação
quinta-feira, 5 de abril de 2012
Poemas do Viandante (257)
Monet - Springtime
257. MONET, SPRINGTIME
a breve ventura
desliza
sombra
promessa
campos verdes
e o amor
sempre regressa
quarta-feira, 4 de abril de 2012
A experiência da Verdade
Kiss
of Judas Iscariot, anonymus of the 12th century, Uffizi Gallery, Florence
O Filho do Homem segue o seu caminho, como está escrito acerca dele; mas ai daquele por quem o Filho do Homem vai ser entregue. Seria melhor para esse homem não ter nascido. (Mt 26:24)
O Filho do Homem segue o seu caminho, como está escrito acerca dele; mas ai daquele por quem o Filho do Homem vai ser entregue. Seria melhor para esse homem não ter nascido. (Mt 26:24)
Esta passagem do Evangelho de Mateus coloca um problema de difícil solução, a aporia do livre-arbítrio. A escritura determina o caminho do Filho do Homem, o seu destino: o ser entregue. Esta determinação choca com a pressuposição do livre-arbítrio daquele que O vai entregar. A pena, em forma de ameaça, subjacente à frase "Seria melhor para esse homem não ter nascido" só é compreensível no âmbito da liberdade da vontade. Como conjugar a determinação do destino de Cristo com o livre-arbítrio de Judas Iscariotes? Se este fosse efectivamente livre a entrega do Filho do Homem era meramente ocasional, dependente da liberdade da vontade de Judas. A salvação seria meramente contingente e não decorreria de uma necessidade lógica da história da salvação.
O problema surge da tentativa de interpretar racionalmente o versículo, de submetê-lo à lógica apofântica, onde os juízos devem obedecer aos princípios lógicos da identidade e da não-contradição. O horizonte do nosso entendimento permite perceber a indeterminação quântica, o determinismo presente na física clássica e o livre-arbítrio do agir humano. Estes três estratos do real não são, para o nosso entendimento, incompatíveis. A grande dificuldade sentida reside na compatibilização da sobredeterminação providencial (aquela que determina, segundo a escritura, a entrega do Filho do Homem) e a liberdade humana.
Se dermos um passo para fora da tradição ocidental talvez possamos encontrar um caminho de resposta. Para o Budismo-Zen um koan é uma pequena narrativa ou, mesmo, uma simples questão que, à luz da razão, é impossível de compreender. A resposta racional é sintoma de uma mente não iluminada. Os koans são dados, pelos mestres, aos discípulos como caminho de meditação cuja finalidade é a iluminação. A verdade não é dada pela razão mas pelo transcender dos limites desta. Ora o versículo de Mateus constitui um verdadeiro koan. Isto não significa qualquer tipo de influência de uma tradição sobre a outra. Significa apenas que há algo no cristianismo que não se dirige à nossa razão, a não ser de forma secundária. Esse algo apresenta-se como um caminho de meditação. Esta não significa encontrar uma explicação racional para a aporia, mas fazer a experiência da verdade que ali se revela e, ao mesmo tempo, se oculta. A verdade de Cristo e do cristianismo será menos a verdade de proposições lógicas e mais a verdade de uma experiência existencial. Não disse Ele que era a verdade, a via e a vida?
terça-feira, 3 de abril de 2012
Poemas do Viandante (256)
Monet - La Plage à Sainte Adresse
256. MONET, LA PLAGE À SAINTE ADRESSE
a melancolia
a melancolia
dos dias de praia
solidão partilhada
nuvens e cinza
no desejo desejado
o teu corpo arde
barco solitário
barco solitário
na areia da tarde
segunda-feira, 2 de abril de 2012
Pobres sempre os tendes
encontrado aqui
De facto, os pobres sempre os tendes convosco, mas a Mim não me tendes sempre (Jo 12:8).
Tratará este versículo do Evangelho de João da facticidade da pobreza? Estaria Jesus a informar os circunstantes acerca das ilusões existentes nas futuras, embora ainda muito longínquas, políticas sociais de erradicação da pobreza? Estaria a reafirmar como inelutável - uma espécie de condenação ontológica - a pobreza entre os homens. Se assim fosse, estar-se-ia a reduzir os textos evangélicos a uma espécie de manual de sociologia e de ideologia política. Não é nestes jogos de linguagem, para utilizar a expressão de Wittgenstein, que as palavras evangélicas se devem integrar e ler.
Se as colocarmos no âmbito da sotereologia, no jogo de linguagem da salvação, elas terão uma leitura mais pertinente e adequada. Podemos ousar ler o versículo da seguinte maneira: cada um de nós terá sempre em si os pobres, aquilo que é ontologicamente diminuído, aquilo é eternamente um ser e um não ser, uma existência precária e efémera. Os pobres não nos são exteriores, não são pobres sociais, gente sem bens materiais, mas aquilo que em nós nos desvia de algo mais essencial, da riqueza imperecível e eterna. Os pobres em nós podem inclusive ser as riquezas materiais, os bens intelectuais, a glória vinda da honra e da fama. Os pobres são as nossas múltiplas inclinações para o efémero, o inconsistente, a ilusão.
Esse que nem sempre temos também não é alguém exterior, mas o que está no mais fundo de nós. Mas esse «a Mim não me tendes sempre» não é o prenúncio da morte de Jesus? Sim. Mas o texto evangélico não é apenas - ou não é essencialmente - uma narrativa de factos históricos. Aquele que não temos sempre é, paradoxalmente, O que está sempre no mais fundo de nós mesmos, O que a nossa preocupação com os pobres - no sentido acima referido - nos faz perder constantemente. A semântica do versículo joga-se nessa tensão entre pobres e Mim, entre a pobreza da nossa materialidade e a riqueza do espírito que nos habita. Não, por acaso, o contexto evangélico (Jo 12: 1-11) contrapõe o dinheiro para os pobres e o dinheiro gasto em perfume, com que Maria perfumou o Senhor. A nossa riqueza, isto é, a nossa atenção e o nosso cuidado deve ser dado ao Espírito que é a verdade mais funda que exista em cada ser humano.
domingo, 1 de abril de 2012
sábado, 31 de março de 2012
sexta-feira, 30 de março de 2012
Poemas do Viandante (255)
Cézanne - Le lac d'Annecy
255. CÉZANNE, LE LAC D'ANNECY
águas sagradas
uma árvore
uma casa
o lodo
na sombra da montanha
se chega uma metáfora
ou um corvo rasga
a noite
espero tranquilo
o barqueiro
virá
o enviado de orfeu
cantar na sombra
a luz presa
na madrugada
quinta-feira, 29 de março de 2012
De Abraão a Jesus - uma viagem
Caravaggio - Il Sacrificio di Isacco
Jesus respondeu-lhes: «Em verdade, em verdade vos digo: antes que Abraão fosse, Eu sou!» (Jo 8, 58)
Podemos começar a hermenêutica deste versículo do Evangelho de João sublinhando a natureza intercomunicacional que o sustenta. Jesus fala com outros homens, judeus no caso. O facto de serem judeus apenas é relevante devido à presença da figura de Abraão, o pai dos judeus. Todavia, os judeus são uma espécie de sinédoque da humanidade, na qual se toma a parte pelo todo. Jesus fala a todos os homens. Como se pode sustentar tal ponto de vista? A partir do próprio versículo. Se desviarmos o olhar do destinatário, os judeus, para o lugar de onde Jesus fala, tudo se torna mais claro. De onde fala, então Jesus, qual o topos de onde profere o seu discurso? Fala na e a partir da verdade (Em verdade, em verdade vos digo). O discurso é feito a partir do universal, de um universal que se dirige a alguns particulares, os judeus do Templo, mas que, nesse processo de particularização no espaço e no tempo, não deixa de ser universal. Por isso, ele dirige-se a todos os seres humanos.
Poder-se-á objectar que Abraão não é o pai de todos os povos, mas apenas dos judeus, por via de Isaac, e dos descendentes do seu filho bastardo, Ismael. O discurso de Jesus seria apenas um discurso particular, um assunto privado dos povos semitas. Mas se considerarmos Abraão como uma sinédoque que refere uma parte, neste caso constituída apenas por um exemplar, do todo composto pelos múltiplos fundadores - pais - de povos, a objecção perde sentido. Jesus fala a partir da universalidade da verdade para a universalidade da espécie humana. O seu discurso não é étnico mas universal.
E o que diz este discurso? Contrapõe o presente a um pretérito. Jesus, que na historicidade da vida do povo onde nasceu veio depois de Abraão, é anterior ao próprio Abraão, o que significa que é anterior a todos os povos, à própria espécie humana. Mas o discurso, o logos, de Jesus é mais complexo. Ele diz-nos não só que é anterior a Abraão, mas que é ao mesmo tempo anterior, posterior e contemporâneo de Abraão, isto é, de cada um de nós. O "Eu sou" de Jesus não se refere a uma ekstase temporal, ao presente, mas a um presente absoluto, a uma presença que está para além das ekstases temporais do passado, presente e futuro.
O texto de João é a convocação de todos os seres humanos para a viagem, aquela que vai do tempo para fora do tempo, que vai de Abraão para Cristo, que vai da situação aqui e agora para o não-lugar e não-tempo da presença absoluta do Eu sou. Esta viagem tem uma natureza universal e, ao mesmo tempo, particular. Universal porque o fim da viagem é o "Eu sou" crístico; particular, porque cada um, à luz de Abraão, parte da sua situação histórica. Uma viagem da história para fora dela.
quarta-feira, 28 de março de 2012
terça-feira, 27 de março de 2012
Do desprezo de si e do ódio à vida (II)
No texto anterior, um comentário a Jo 12,25, acabou-se por contrastar duas traduções do mesmo versículo. A questão que ressaltava era se o caminho para a eternidade seria a do desprezo de si, o desprezo de uma identidade tida como ilusória, ou se o ódio à vida, uma vida da qual não somos autores. A identidade empírica, à qual damos tanta importância na vida quotidiana, pode ser não levada em consideração, pois considerá-la seria solidificar aquilo que é um mero construto, um artefacto ou um dispositivo de produção de uma subjectividade. Como todos os dispositivos, artefactos ou construtos, a subjectividade - a identidade do ego - é perecível. Ela só pode existir no espaço e no tempo, e neles deve perecer. Entrar na vida eterna - nesse além do espaço e do tempo - exige assim que o si (self) se dispa de si (ego), enquanto este si for a máscara construída de uma subjectividade mundana.
A outra tradução, a qual dissemos ser complementar da primeira, é de exegese mais difícil. O caminho para a eternidade passa não pelo desprezo de si mas pelo ódio à sua vida. Devemos odiar a vida que nos foi dada, a vida biológica, a qual inclui a vida social, para entrarmos na eternidade. O problema centra-se na interpretação do termo ódio. Este deve ser interpretado no seio do par amor - ódio. Se se considerar este par como constituído por dois contrários, então o ódio não pode ser uma via de acesso à eternidade. Se, porém, for interpretado no âmbito da filosofia cristã, o ódio não passa de um amor diminuído, de um amor no grau mais baixo da escala amorosa. Odiar a sua vida não significa o contrário do amor, mas de um não considerá-la, não tê-la em atenção, um não ocupar-se dela, para se ocupar com aquilo que da eternidade chama por nós, que apela ao caminho do viandante, à peregrinação do peregrino.
segunda-feira, 26 de março de 2012
Poemas do Viandante (254)
Sisley - Provencher's Mill at Moret
254. SISLEY, PROVENCHER'S MILL AT MORET
naquele moinho
castelo sobre as águas
nasce das mós
o pólen
que traz a primavera
flores brancas
ressoam nos caminhos
e no rosmaninho solar cresce
o fulgor da sombra
pálida figura
do teu corpo perdido
no horizonte
domingo, 25 de março de 2012
Do desprezo de si e do ódio à vida
Santo Agostinho
Quem se ama a si mesmo, perde-se; quem se despreza a si mesmo, neste mundo, assegura para si a vida eterna (Jo 12,25).
Este versículo do Evangelho de João é composto por dois pares de contrários. O amor de si e o desprezo de si, por um lado; este mundo e a vida eterna, por outro. Esta tradução sublinha, através do si (self) uma conexão com a questão da identidade. Poder-se-ia entender a identidade como uma construção social, uma máscara com que nos apresentamos no mundo, nesse espaço-tempo - um verdadeiro cenário - onde representamos um conjunto de papéis. A palavra de João diria, então, que aquele que se confunde com a sua máscara social fica preso no espaço e no tempo e não acede aquilo que está para lá de todo o espaço e de todo o tempo, a eternidade.
A questão, porém, toma outra coloração se escolhermos outra tradução:
Quem ama a sua vida perdê-la-á, e quem neste mundo odeia a sua vida, guarda-la-á para a vida eterna (Jo 12,25).
Esta tradução acentua não o foco identitário e social mas a dimensão biológica. Mas esta dimensão biológica é apenas o primeiro momento. Amar a vida biológica - talvez por extensão a vida social - acabará por a perder, coisa que acontece a todas as vidas no sentido biológico. Mas o ódio, no espaço e no tempo mundanos, a essa mesma vida limitada (a do bios e a do socius) é o princípio de uma transmutação da própria vida que lhe permite tornar-se eterna, isto é, deixar de ser uma mera vida biológica ou mesmo social.
As duas traduções acabam por salientar aspectos diferentes, embora complementares, do caminho para a eternidade. Mas para o leitor que não domina a língua original e o ambiente semântico onde foi produzido o Evangelho de João aquilo que se torna mais problemático está noutro lado. Desprezo de si ou ódio à sua vida? Qual é o caminho para a eternidade? Uma coisa é o desprezo de uma identidade falsa e ilusória. Outra, o ódio a uma vida da qual não somos autores. [Retomar-se-á esta questão numa das próximas postagens.]
sábado, 24 de março de 2012
quinta-feira, 22 de março de 2012
Poemas do Viandante (253)
Pissaro- Norwood
253. PISSARO, NORWOOD
a aldeia que te deixou
casas e fumo
a árvore despida
traços de neve
na glória do inverno
do tempo que passou
não vale a pena
a queixa
nem a memória presa
aos restos da tarde
segue estrada fora
o mundo espera-te
sonho transfigurado
fumo neve fria
eterno estio por vir
quarta-feira, 21 de março de 2012
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