sábado, 9 de novembro de 2013

Diálogos sobre a morte

Karl Schmidt-Rottluff - Conversation on Death (1920)

Poder-se-á falar num diálogo sobre a morte? Platão, no Fédon, colocou a discussão sobre a imortalidade no dia em que Sócrates é executado. Não se tratou de um efeito cénico ou de uma estratégia retórica. Foi, antes, a constatação de que mesmo que se queira falar da morte, só é possível falar da vida, pois, em si mesma, a morte é destituída de sentido . Só a vida lhe dá um sentido e um horizonte.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Poemas do Viandante (438)

Ferdinand Hodler - O dia (figura) (1899)

438. A volúpia de um sonho na manhã

A volúpia do sonho na manhã
abre um caminho de luz
na cama desfeita da noite.

A floresta espera o teu rosto,
o sagrado bulício do silêncio,
a chama do nome que te deram.

Conto as horas que faltam,
suspiro com o vento na ramagem,
brilho se o sol cai em mim.

Sentado sob a copa do outono,
espero que chegues,
um rumor de passos na terra.

Uma sombra toca-me ao de leve.
Trémulo, volto-me para
o prodígio do teu corpo na erva.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Tempo de Outono

Ernst Ludwig Kirchner - Sertigtal im Herbst

São as horas de recolhimento, de meditação sobre o caminho percorrido, de alegria profunda pela multiplicidade de cores que cobrem a natureza. São cores da morte, dir-se-á. Não, são cores da vida, desse estranho mistério que contém dentro de si a própria morte. São cores que chamam pelo pensamento, pela hora da renúncia, pelo desejo de retomar a viagem sem fim.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Bezerro de ouro

Emil Nolde - Dance Around the Golden Calf

Mais que descrição factual, a história do bezerro de ouro é símbolo eterno da nossa venalidade. Frágeis, os homens rapidamente trocam o seu caminho, aquilo que, no segredo do seu coração, chama por eles, pela adoração do bezerro de ouro. E nunca como hoje o bezerro de ouro esteve tão presente no mundo.

sábado, 2 de novembro de 2013

A verdadeira herança

Alejandro Mesonero - Deserdados

O que leva o Viandante ao seu caminho, à busca daquilo que chama por ele? Talvez seja o sentimento de ser um deserdado da terra. Ser deserdado significa que foi excluído de um bem que, por via da filiação, lhe deveria pertencer. Mas não é essa exclusão que move quem se põe a caminho. É uma exclusão muito mais funda e radical. É a súbita percepção de que todos os bens que poderia herdar ou adquirir são irrelevantes e não são mais do que poeira que se dissolve no horizonte. Essa hora de decepção leva ao desejo de encontrar aquilo que lhe cabe, a sua verdadeira herança, a prova da sua filiação. É a voz dessa herança, o sentimento de um vínculo, que chama pelo Viandante e o põe a caminho e no caminho.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Haikai do Viandante (165)


pedra sobre pedra
uma imagem do passado
a glória da terra

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Autoridade espiritual e poder temporal

Albert Gleizes - Autoridade espiritual e poder temporal (1939-40)

Ao considerar a velha expressão autoridade espiritual e poder temporal no âmbito da divisão das funções de governo do mundo perde-se aquilo que ela diz em si e por si mesma, para além das esferas privadas da religião e da política. O poder, pela sua natureza temporal, traz em si a marca da sua finitude. Todo o poder é temporal e, por isso mesmo, temporário. O que marca o espírito é, por seu turno, a autoridade e nesta o que está a ser pensado não é o mando ou a ordenação, a não ser como sentido derivado, mas a autoria. O espírito é autor e é nessa e dessa autoria que tem e lhe advém a autoridade. O poder é sempre caduco, o espírito cria e cria-se continuamente.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Abrir a janela

Karl Schmidt-Rottluff - A Janela Aberta (1937)

A primeira etapa da viagem termina quando o viandante abre a janela e depara com o vasto mundo. Estranho que uma etapa termine quando ainda não se começou a andar, quando ainda não se saiu de casa. O dramático, porém, é que a generalidade da espécie humana, por muitas milhas que tenha percorrido, nunca sai da sua casa, desse lugar onde tudo se refere a si. Nunca sai de si e dos seus pequenos, por grandes que sejam, interesses. Abrir a janela é então a primeira e decisiva etapa, pois abrir a janela não é outra coisa senão o abrir-se ao acontecer e ao que, no devir, nos chama.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Poemas do Viandante (437)

Ferdinand Hodler - Emoção (1894)

437. O súbito alvor do anjo sobre a terra

O súbito alvor do anjo sobre a terra,
a memória branca descarnada da face,
água tépida onde exausta te olhas.
Figura de cera que jaz dentro de mim,
símbolo de fogo ao raiar do mundo,
a promessa duma vitória já perdida.

Desfolho o calendário e aguardo o dia,
aquela hora em que venhas branca e nupcial
resgatar do sonho o desejo que nele se esconde.
Que nome te darei quando tudo cessar,
e as trevas forem apenas o rumor do incenso,
o desenho enegrecido pela luz bravia do mar?

domingo, 27 de outubro de 2013

Um rasgão no véu

James Ensor - Calvário

Porque todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado. (Lucas 18:14)

Como, numa sociedade como a nossa, poderá ser recebida esta palavra de Lucas? Os tempos modernos têm na sua essência a exaltação do eu. Tudo está organizado para fortalecer e glorificar esse eu exaltado, um eu que, segundo o ethos moderno, deve seguir o seu interesse próprio. A própria medida do comportamento racional é-nos dada pelo acordo da acção com a defesa do interesse próprio. A humilhação do eu é, portanto, um desafio à lógica dos nossos dias, uma proposta que não pode ser olhada a não ser com desdém. Um escândalo, para retomar uma velha palavra. Mas não será o escândalo um rasgão no véu com que a realidade se cobre?

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Haikai do Viandante (164)


Terra, pedra e fungos.
E do velho caos um deus
fez o novo mundo.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O caminho mais rápido

Markus Luepertz - Composición en gris (2001)

Ao pôr-se a caminho, o viandante descobre que bússolas e mapas têm pouco préstimo. Corre o risco de ficar seduzido e começar a coleccionar velhas instrumentos de orientação ou novas cartas. Não quer dizer que, por vezes, não os use, pois têm sempre um efeito benéfico para o espírito. O caminho, porém, só ele o pode descobrir no instante em que, entregue àquilo que o chama, o vai traçando. Alguns têm caminhos rectos, outros oblíquos. Há, no entanto, aqueles para quem a viagem é feita por veredas emaranhadas, becos sem saída, caminhos que levam a lado nenhum.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

O lugar abandonado

Carlo Carra - Casa Abandonada (1930)

Talvez os sítios abandonados tenham uma especial atracção sobre aqueles que estão em viagem. Não porque nesses sítios resida ainda um resto do espírito que os animou, mas porque um sítio abandonado simboliza ao mesmo tempo um lugar de acolhimento e a necessidade de continuar a jornada. Uma casa abandonada é um lugar onde se pode pernoitar, mas que na sua precariedade torna claro ao espírito a necessidade de partir.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Sociedade e não comunidade

Niels Bjerre - A Prayer Meeting (1896)

Para nós que fomos educados numa cultura católica, este quadro do pintor dinamarquês Niels Bjerre tem qualquer coisa de inusitado. Aquelas pessoas encontram-se para uma oração, mas não estabelecem entre elas nenhum princípio de comunidade. Estão umas junto das outras, mas não estão umas com as outras. Seguem caminhos puramente privados. Mesmo a figura do Cristo na cruz não exerce qualquer poder congregador. No mundo católico, uma oração conjunta estabeleceria uma comunidade, uma comunhão. Se se tratasse de uma oração não comunitária, então o indivíduo oraria em solidão. No quadro de Bjerre, não temos nem comunidade nem solidão, mas uma sociedade de indivíduos privados que, ensimesmados, perseguem os seus interesses salvíficos individuais. O quadro de Bjerre permite-nos perceber muito bem o que é a versão protestante do cristianismo e, a partir dela, perceber a diferença radical que tem do catolicismo.

domingo, 20 de outubro de 2013

Haikai do Viandante (163)


Um sulco de sangue
abre a porta do mistério
que a rocha encerra.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

A rosa sem porquê

Agnes Martin - A Rosa (1964)

Die Rose ist ohne warum.
(A rosa é sem porquê.)
Angelus Silesius, CW I. 289

Lê-se o verso de Silesius (o hemistíquo) A rosa é sem porquê e fica-se fascinado. A tentação é de ver um artifício poético, talvez uma aproximação metafórica à sem razão da beleza. Mas devemos ler literalmente o que lá está. É a leitura literal que nos assusta. No verso diz que o porquê ou a razão não fazem parte do ser da rosa. O assustador está na emergência desumanizada da rosa. A razão e os porquês são a presença humana, do entendimento humano, nas coisas, uma forma de as submeter ao nosso espírito e integrá-las numa cadeia de explicações. Mas tudo isso, apesar de nos tranquilizar - pois dar uma razão tranquiliza-nos -, é estranho à rosa. A rosa é sem porquê é uma injunção a estar perto da rosa sem projectar nela os meus temores e, por isso, a minha racionalização. Estou perante aquilo que não posso explicar, que não tem explicação, que se perfila, na sua simplicidade de ser rosa, como um mistério para o qual a minha pobre razão não tem chave. A rosa sem porquê solicita a mais extrema pobreza de espírito.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Um lugar de epifania

Rita Rutkowski - Campo da Verdade (1961)

Nunca se deverá confundir a verdade como adequação das nossas palavras aos factos e a verdade como revelação. O campo da verdade não é o sítio onde alguém profere a verdade. O campo da verdade é o lugar onde a verdade se revela. Onde tem o ser humano o seu campo da verdade? A vida é o campo onde a verdade se manifesta e se manifesta não por palavras mas naquilo que revelamos ao viver. A vida de cada um é sempre, saiba-o ele ou não, um lugar contínuo de epifania. A manifestação daquilo que ele é e do destino que o chama.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Haikai do Viandante (162)


Entre a pedra dura
brota, sob a branca luz,
a vida que cura.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Um caminho sem mapa

Frantisek Kupka - Composição em azul (1925)

Não há mapas ou cartas que ajudem o viandante no seu caminho. Na verdade, o caminho de cada homem, mesmo o do mais previsível dos homens, é sempre inédito e nunca cartografado. Por vezes, há viandantes que deixam atrás de si aquilo que parece ser um mapa, que poderá ajudar outros viandantes. Isso, porém, não passa de um equívoco. O que parece um mapa seguro e passível de ser seguido não passa de uma composição, onde alguém deixou o testemunho do caminho que trilhou, caminho esse que, mal foi trilhado, logo deixou de estar disponível. Aquele que quer fazer a viagem para o centro de si mesmo, para o que há de mais oculto e secreto em si, pode ver como os outros compuseram o seu caminho, mas deverá saber que para ele aquela composição é inútil, pois o seu caminho é singular e só por si mesmo pode ser trilhado.

domingo, 13 de outubro de 2013

Folhas mortas

Egon Schiele - Árvores Outonais (1911)

Tudo o que se passa na natureza pode constituir-se em símbolo. Se uma metáfora ou uma metonímia introduzem uma certa equivocidade no discurso e no pensamento vulgares, o símbolo aumenta exponencialmente esse grau de equívoco. Em primeiro lugar, porque os símbolos dão que pensar, convocam o logos, para, logo de seguida, o humilharem, ao tornar evidente a impotência da razão para lidar com eles. Em segundo, dirigem-se à experiência viva do homem, suscitando caminhos, abrindo veredas, estabelecendo inesperadas pontes entre margens que a experiência corrente nunca ligaria. 

Olho as folhas mortas que se desprendem das árvores, quando chega o outono. É o ciclo da vida. Mas se tomar a queda das folhas como símbolo, liberto-me da experiência meramente biológica da morte e renascimento da natureza, para poder entrar no reino do espírito. As folhas das árvores que caem simbolizam tudo o que precisamos de abandonar. As nossas crenças, os nossos desejos, os nossos prazeres, as nossas dores, os nossos objectivos, as nossas ilusões e os nossos sonhos. Tudo isso não passa de folhas mortas. Despidos, entramos no inverno, nessa noite escuro que espera o viandante que caminha para a luz.