sexta-feira, 17 de junho de 2022

Sete Cartas - 6 Ao anjo de Filadélfia

Vincent Van Gogh, Ángel, 1889

Na poeira de ébano desta terra, reina anjo avaro,

armadura branca presa na pálida luz da palavra,

olhos de pérola atalaiam as ruas da cidade,

o tormento do calor na sombra coagulada,

estátua de sal, mãos de seda, pó de penumbra.

 

Ouve-se a brancura da voz na força da tarde,

o poder de quem tem a chave de todas as chaves,

o silêncio nascido na textura de cada dia.

Eis o segredo animal a dançar na pólvora das horas,

promessa de luz, sangue vazado no joio da vida.

 

Nas praças perdem-se homens de exíguo poder.

A carne levita-lhes na gravidade azul do desejo,

o espírito prostrado ante a porta sempre aberta

para a incandescência estelar das searas

crestadas pelo peso do Sol no rio do abandono.

 

Com esta chave abrirás o segredo dos mares,

o rumor das palavras esquivas nas folhas de jornal,

as mãos perdidas por entre musgos e relvas,

um dedo ferido na porta empurrada pelo vento,

tempestades trazidas na voracidade da tua voz.

 

Com esta chave fecharás a luz na sombra do mar,

os dedos cobertas de nódulos, feridas, a cinza

do êxtase presa nas muralhas de cristal,

a devassidão com que os passos empurram

homens de pedra para o relâmpago da tempestade.


1993

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