quarta-feira, 18 de abril de 2012

A canção da carne

Max Ernst - La chanson de la chair

Talvez o enigma da carne resida na sua íntima conexão com o tempo. É através dela que entramos no reino da temporalidade. Por exemplo, a experiência da rotação entre dia e noite ou a revolução das estações com o seu eterno retorno ainda não representam por si a experiência do tempo. A experiência directa do tempo nasce da progressiva consciência das metamorfoses da carne. São estas transformações que arrastam o espírito e o prendem no fascínio temporal. Trata-se de um verdadeira queda. A intemporalidade espiritual é arrastada pela carne para a finitude e a mutação. Mas não seria mais sensato falar de corpo em vez de carne? Não. Apesar do corpo, do meu corpo, ser carnal é possível separar um do outro. Pelo corpo, experimento o espaço e o limite da minha figura; pela, carne percebo o tempo e, como disse, a finitude. É através dela que tenho acesso ao fluxo da vida. É este fluxo, onde o espírito caiu, que é uma elegia, a verdadeira canção da carne.

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