domingo, 2 de agosto de 2015

Condenados à errância

Ferdinand Hodler - Ahasver, el judío errante (1910)

A história, que se começou a espalhar, ainda na Idade Média, de Ahasver, o judeu errante, é sintomática da vida espiritual e diz respeito a todos homens e não apenas aos que têm a particularidade de serem judeus. Faz parte de um repositório de experiências universais. A narrativa, em resumo, conta que Ahasver ridicularizou Cristo quando este fazia o caminho que o conduziria à crucificação. Recebeu, em troca, a maldição de errar mundo fora até à parusia do Cristo, isto é, até à segunda vinda, em glória, do Messias.

Que sentido podemos encontrar nesta narrativa? Se abstrairmos de uma interpretação histórico-racionalista, encontramos um caminho hermenêutico possível. Ahasver ri-se do seu desejo de vida espiritual (sendo esta figurada na ascese que conduz Cristo à morte na cruz). É este desprezo que o perde e o leva a errar até que se encontre a si mesmo, encontre a sua verdadeira natureza (a qual é configurada, na narrativa, na parusia de Cristo). A história de Ahasver não fala de um judeu particular que cometeu uma certa acção num dado momento histórico. Fala de todos e de cada um de nós que, ao desprezarmos a vida do espírito, nos condenamos à errância.