sexta-feira, 2 de agosto de 2019

O desdém

Deborah Turbeville, Unseen Versailles - Aurelia Weingarten, 1980
Talvez se tivesse cansado de tudo, ou talvez fosse uma revoltada, é possível, mas tenho uma hipótese mais interessante. Havia nela uma tal altivez que são raros aqueles que podem dizer que conviveram com ela. Fui um desses, mas não pense que sei mais sobre ela do que um mero conhecido. Nunca foi dada a confidências e a afabilidade do convívio não passava de uma muralha com que se defendia - é esta a verdadeira palavra - dos poucos que a rodeavam. Quer saber do que se defendia ela? Do amor, do que haveria de ser? Todos a amávamos, claro, e ela não o suportava. Procurava, na verdade, o desdém, mas nunca o encontrou, a não ser no gesto com que nos abandonou a todos.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

O sal do silêncio (23)

Johan Hagemeyer, Silence, 1920
Os jardins onde o silêncio nasce escondem-se por detrás da muralha noite. Jardins secretos, onde os anjos esperam uma palavra. Neles, as árvores rumorejam resguardadas da cal do tempo e os seus ramos abrem-se para a eternidade, a nuvem vacilante que se demora no coração dos homens.

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Pintura e haikus (11)

Ken Howard, High water, Summer, 1996
No meio do mar,
o Verão cresce na água.
Os homens renascem.

terça-feira, 30 de julho de 2019

Micronarrativa (22) Impaciência

Alexander Rodchenko, Girl with a Leica, 1934
Sentada, ela esperou. Enquanto havia sol, pequenos quadrados de luz iluminavam-na furtivamente. Nesses momentos, a esperança não a abandonara. Depois, fez-se noite e ela confundiu-se com a escuridão. Aquele por quem esperava passou então por ali, mas não a viu. Impaciente, continuou o caminho, esperançado em encontrá-la num outro sítio onde ela nunca haveria de estar.

domingo, 28 de julho de 2019

Poesia do Viandante (732)

Yoriyasu Masuda - Ambiente espiritual (1996)
732. o espírito espuma

o espírito espuma
na boca
de orvalho
floresce envolto
em auroras
de cânhamo e sisal
declina
no incenso
do carvão a arder

(28/12/2016)

Diálogos morais 16. Tolerância

Auguste Rodin and Rose Beuret, Meudon, 1893
- Como podes gostar tanto de cães?
- Mantêm-me vivo.
- Vivo?
- Vivo rodeado de matéria inerte a que dou vida...
- E essa não te chega?
- Não, preciso de ver os cães, de os sentir.
- Para quê?
- Para nada, apenas porque estão vivos.
- Ah, se eles fossem de mármore, ainda poderia tolerá-los.

sábado, 27 de julho de 2019

Impressões 36. Estranhos lugares

Paul Strand, Street, Tetuan, Morocco, 1962

Há lugares - que estranhos são - onde só aquilo que é secreto se pode encontrar. Não se procure ali a claridade nem o que na claridade se dá a ver. Ninguém o achará. Sombras, vultos, vestígios encontram nesses locais a sua pátria. Se os espreitamos, vemo-los como se fossem o rasto de um cometa. Se queremos observá-los de frente, encontramos apenas o vazio que nos enche a alma.

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Haikai do Viandante (375)

Claude Monet, Summer, Field of Poppies, 1875
Campos de papoilas
são fogos de luz na terra.
Rumor de Verão.

quinta-feira, 25 de julho de 2019

A rapariga da flor

Chas. A. Hellmuth, Study of Miss A., 1921
Lembro-me muito bem dela. Como poderia ser de outra maneira? O rosto transbordava de melancolia, o que não deixava ninguém indiferente. Não havia rapaz que não estivesse apaixonado por ela. Acabou por casar com um janota - hoje ninguém usa essa palavra, eu sei -, um daqueles homens inconstantes, quase femininos na preocupação com a aparência. Conquistou-a ao oferecer-lhe uma flor. Ela pegou nela, encostou-a ao coração e rendeu-se. Ele abandonou-a passados alguns meses. O que lhe aconteceu, pergunta-me. Não sei muito bem. Há quem diga que foi para outra cidade e que todos os dias compra uma flor que encosta ao peito, enquanto passeia melancólica com ar ausente. Não sei se é verdade.

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Poesia do Viandante (731)

William Congdon - Winter 3 (Exeter-New Hampshire) (1956)
731. alguém chega

alguém chega
coberto
de silêncio
aos ombros
o manto
do inverno
uma trova
de neve
sobre o néon
dos nenúfares

(28/12/2016)

terça-feira, 23 de julho de 2019

Diálogos morais 15. Cegueira

Ernst Haas, Homecoming Prisoners, Vienna, 1947

- Conhece-o, conhece-o?
- (...)
- É o meu filho, viu-o?
- (...)
- Ninguém fala comigo.
- (...)
- Parece que tenho peste. Conhece-o?
- (...)
- Outro que passa. Ninguém vê a minha dor. Viu-o?
- (...)
- Ficaram cegos estes soldados. Viu-o?
- (...)
- Como o teriam podido ver se são cegos.

domingo, 21 de julho de 2019

Diálogos morais 14. Caminho

John Boyd, Couple snowshoeing, 1907
- Está frio.
- Não mais que ontem.
- Sim, mas a cada dia que passa tudo se torna mais difícil.
- É verdade, o caminho nunca mais acaba.
- Julgo que estás errado.
- Estarei?
- Chegará o momento em que o próprio caminho desaparecerá.

sábado, 20 de julho de 2019

Micronarrativa (21) O peso da sabedoria

Petr VelkoborskýLittle schoolboy, 1987
A sabedoria é uma coisa boa, muito boa. É o que me dizem lá em casa e a professora não pára de o repetir. Quase acreditei, mas descobri que era uma afirmação falsa, palavras para enganar crianças. A sabedoria é uma coisa pesada, tão pesada que, ao entrar no nosso cérebro, torna-o cada vez mais pesado. Quando estudamos demais corremos o risco de não conseguir levantar a cabeça. Temos de ter cuidado. Nada pior que um homem que não pode erguer a cabeça.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Poesia do Viandante (730)

William Congdon - Destroyed City (1949).
730. cidades circuncidadas


cidades circuncidadas
pelo terror
púrpura perpétua
engalanada de ervas
e destroços
cidades cantadas
na tômbola
sinuosa da solidão
castas cidades
cidades de cimento e sal

(28/12/2016)

quarta-feira, 17 de julho de 2019

O sal do silêncio (22)

Harry Callahan, Chicago, ca.1950
As aves partiram, os ninhos foram deixados ao abandono. O silêncio cresceu e, como sal, depositou-se na brancura da neve. Árvores irrompem da terra, elevam-se aos céus. Os seus ramos enegrecidos e descarnados esperam. O tempo passa vagaroso, movido pelo lento murmúrio com que o vento em vão procura as folhas que deseja acariciar.

terça-feira, 16 de julho de 2019

Micronarrativa (19) Vingança

Cecil Beaton, Three models dressed in Ladurée macaron colours, 1948
Uma lê, a outra reza. De que estou à espera? Sempre podia pegar num livro ou fazer uma oração, mas ler para quê e rezar a quem? Aguardo que se cansem. Quando quiserem falar comigo, direi que me dói a cabeça, levanto-me e deixo-as aí, abandonadas e entregues aos devaneios com que me esquecem.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Haikai do Viandante (374)

Clara Gangutia, Arco-íris, 1991
Sob o arco-íris
a vida corre em silêncio.
Da terra ao céu.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Poesia do Viandante (729)

Adolph Gottlieb - Amanhecer (1971)
729. no ardor do astro

no ardor do astro
o dia amanhece
transborda de luz
abre a úlcera
e urde
os tentáculos
que trarão
o navio da noite

(28/12/2016)

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Diálogos morais 13. Escuta

Josef Sudek, St. Vitus cathedral, Prague, Czech Republic, ca. 1926-27
- Ouviu?
- Não, não ouvi nada.
- Apenas um rumor, um sussurro.
- Talvez seja algum animal, um rato, um esquilo perdido.
- Não, o som desses conheço-o muito bem.
- ...
- Olhe a luz, veja como os raios penetram na catedral.
- Sim, mas não oiço nada.
- Se não consegue escutar a luz, o que conseguirá ouvir?

terça-feira, 9 de julho de 2019

Micronarrativa (18) O medo do encontro

Guy Bourdin, Fashion photography, 1970s
Ela queria sentar-se na sua própria sombra, mas um medo ancestral impedia-a. O que seria dela se, esmagada, a sombra se retirasse e ela, sem defesa ou saída, ficasse abandonada à tirania da luz? Então, quando o desejo a impelia, segurava-se a qualquer coisa que impedisse o corpo e a sombra de se encontrarem.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Haikai do Viandante (373)

Richard K. Hofmeister, Castle Enshrouded by Mist, 1979
Névoa e silêncio
cobrem o velho castelo.
Chão de pedra fria.

domingo, 7 de julho de 2019

Diálogos morais 12. Asas

Andrzej Mroczek - Nuit sur la Place du marché principal de Cracovie, 2004, (Sculptures d’Igor MITORAJ)
- Também te arrancaram os braços.
- É verdade.
- E as asas, o que é feito delas?
- Nunca as tive.
- O sexo, porém, sempre to permitiram.
- Não tenho a certeza.
- Não?
- Por causa dele, disseram-me, nunca teria asas.

sábado, 6 de julho de 2019

Poesia do Viandante (728)

Julian Schnabel - Always Virtue (1988)
728. virtudes são vírgulas

virtudes são vírgulas
no vendaval
do vício
                fogos-fátuos
na fogueira
da folhagem
                reticências
no rumorejar
do ruído

(28/12/2016)

sexta-feira, 5 de julho de 2019

O sal do silêncio (21)

Eve Arnold, Silvana Mangano at the Museum of Modern Art, New York, 1956
Há rostos silenciosos, e no silêncio que os habita esconde-se a luz de todos os mistérios do mundo. Em nenhuns outros se é capaz de imaginar uma personagem da tragédia grega. O silêncio é a máscara que permite que a voz do destino fale para o espectador atónito e que, quase incrédulo, espera a revelação da verdade.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Meditação Breve (105) De pernas para o ar

John Vachon, Children playing at a playground, Irwinville school, Georgia, 1938
Por vezes, como se dentro delas falasse um forte instinto, as crianças sentem que alguma coisa não está bem. Então, colocam-se de pernas para o ar e esperam, não sem razão, que a verdade lhes seja revelada.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Haikai do Viandante (372)

George Pierre Seurat, Landscape with Horse, 1882
Um cavalo come
a erva da Primavera.
O homem espera.

terça-feira, 2 de julho de 2019

Micronarrativa (17) A sombra do desejo

Ray K. Metzker, Philadelphia, 1964
Ela nunca sabia quem iria encontrar ao virar de uma esquina. Umas vezes, não estava lá ninguém. Outras, passava por conhecidos e desconhecidos. O encontro mais decisivo foi aquele em que se deparou com a sombra do seu próprio desejo.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Poesia do Viandante (727)

Norman Narotzky, Last Light, 1990
727. last light in the sky

last light in the sky
luz e lírios
cisnes selvagens
desdobram-se
nas docas
lançam âncora
na areia lívida
the livid sand
dos areais da língua

(28/12/2016)

domingo, 30 de junho de 2019

Impressões 35. O hálito da Terra

Jeanne Carbonetti, Aliento de Primavera, 1988
Também a Terra possui um hálito. Chega até nós não na forma de um aroma, mas como um espírito que procura uma forma, como uma alma que se aproxima de um corpo e, fulgurante de luz e cor, entra nele pela porta aberta do olhar extasiado.

sábado, 29 de junho de 2019

Protecção

Richard Peter, Dresden 1945. View from the city hall tower, 1945
Não era um anjo. Longe disso. Foi alguém que, quando começaram os bombardeamentos, decidiu ir para o cimo da torre e observar. Era corajoso e, diz-se, não odiava os atacantes. Talvez compreendesse as suas razões. A princípio, chorou e sentiu uma dor lancinante a germinar mesmo no centro do seu ser, enquanto a cidade, a cidade onde nascera e que amava sobre todas as outras, se desmoronava. Depois, as lágrimas secaram, a dor desapareceu, o coração, que sempre fora benevolente, empederniu. Só assim suportava o que via. A partir do coração, a pedra cresceu a cada bombardeamento, tomou-lhe conta do corpo, paralisou-o. Hoje, é a estátua que ali vê. Protege-nos com o seu olhar de mármore.