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| Delight Weston, Leaping Dancer, 1921 |
quinta-feira, 20 de novembro de 2025
Impressões 131. A meio caminho
Já não é mulher, mas ainda não é pássaro ou anjo. Eleva-se para fugir à gravidade dos corpos e às inclinações do espírito. Falta-lhe, porém, a disciplina do voo. A queda é aquilo que a espera, mas de que fugirá, pois, agora, é um ser intermédio, a meio caminho do que foi e daquilo que deseja ser.
terça-feira, 18 de novembro de 2025
Silêncio de Outono (8)
domingo, 16 de novembro de 2025
Meditação breve (208) Uma perda
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| Rodney Smith, Gary Descending Stairs, 1995 |
Perdemos a sabedoria das metamorfoses, a velha ciência que nos permitia a transformação numa outra coisa. Quem ainda sabe fazer de si uma sombra que passa? Os dias tornaram-se difíceis para as aprendizagens decisivas. Quando nos queremos sombra de nós mesmos, apenas ficamos esse nós que sempre fomos, sem poder sequer para ensombrecer.
sexta-feira, 14 de novembro de 2025
Micronarrativa (78) O filósofo
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| Hans Watzek, Der Kiebitz, 1897 |
Enquanto uns jogam às cartas, reprimindo não sem dificuldade as emoções do jogo, ele veio apenas para observar. Não joga, não faz comércio, apenas detém o olhar pensativo sobre aquilo que acontece. Foi assim que há muito, diz-se, Pitágoras definiu pela primeira vez o filósofo, aquele que vai aos Jogos Olímpicos para contemplar aquilo que atrai as emoções e os interesses dos homens.
quarta-feira, 12 de novembro de 2025
Silêncio de Outono (7)
segunda-feira, 10 de novembro de 2025
Signo sinal 31. Uma mão
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| Moita Macedo, A mão que desenha, 1981 (Gulbenkian) |
Uma mão nunca é apenas uma mão, mas um signo que se desdobra naquilo que com ela se realiza, se descobre, se projecta. Quando se abre ou se fecha, a mão é um sinal do pensamento e do coração, da razão que se expõe em motivos e do sentimento que abre em experiências.
sábado, 8 de novembro de 2025
Silêncio de Outono (6)
sexta-feira, 24 de outubro de 2025
Silêncio de Outono (5)
quarta-feira, 22 de outubro de 2025
A memória do ar (42)
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| Dr. F. Stuhlmann, Runssóro, 1894 |
O vento, segundo João, o evangelista, sopra onde quer. Estas palavras
são fundamentais para compreender o ar. Invisível, só de dá por ele nos efeitos
da sua acção, nas consequências do seu querer. Suporta a vida e abre caminhos
que se pensavam fechados. Tem um querer próprio e, dele, os homens apenas têm a
memória. Mesmo presente, a relação humana com o ar é sempre pretérita.
segunda-feira, 20 de outubro de 2025
A sombra da água (43)
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| Robert Demachy, Automne, 1899 |
Uma figura outonal queda-se extasiada perante o enigma das águas. O céu reflectido, as folhas arrastadas pelo vento como pequenos barcos sem destino, a leve ondulação, tudo isso se ergue na sua mente como uma canção povoada pelos sonhos de infância, sinais de um mundo despido da febre do desejo, transfigurado num sonho que dança sob o silêncio da tarde.
sábado, 18 de outubro de 2025
Silêncio de Outono (4)
quinta-feira, 16 de outubro de 2025
Geometrias de fogo (43)
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| Natalia Gontcharova, Paisaje rayonista. El bosque, 1913 |
Também as árvores sonham. Por vezes, sonhos benévolos; outras, grandes pesadelos. São sonhos colectivos. O pior dos pesadelos é o do fogo. Quando com ele sonham, as suas folhas tornam-se nas mil cores dos grandes incêndios. Visto de longe, o bosque parece abrasado. Quando nos aproximamos, descobre-se que é apenas um pesadelo colectivo, em que a metamorfose das cores é um exorcismo do mal que pode chegar.
terça-feira, 14 de outubro de 2025
O Espírito da Terra (43)
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| Karl Greger, Ein Abend Bei Dordrecht, 1892 |
A terra abre o seu espírito à alegria das águas e ao júbilo do vento. Encerra, dentro das suas cavernas, segredos e mistérios, para se entregar à dança dos elementos e ao jogo da vida. O tempo suspende-se e fica a contemplar a paisagem, como se uma reminiscência da eternidade o entregasse ao puro êxtase.
domingo, 12 de outubro de 2025
sexta-feira, 10 de outubro de 2025
Silêncio de Outono (3)
quarta-feira, 8 de outubro de 2025
Biografias 38. As que esperam
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| André Kertész, Waiting for the ship, Budapest, 1919 |
Há biografias que se organizam não à volta daquilo que se faz, mas daquilo que se espera. Para essas pessoas, nunca chega o tempo oportuno, pois todas as horas são de expectativa. Espera-se a chegada do barco, ou de um amor, ou de uma hora, mas o nem o barco, nem o amor, nem a hora chegarão. As que esperam começaram por confundir expectativa e esperança. Um dia, perceberam que a esperança não lhes cabia no alforge do destino. O seu lote era outro, o de nunca deixarem de ser as que esperam.
segunda-feira, 6 de outubro de 2025
Diálogos morais 72. A noite
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| Eugene Robert Richee, Louise Brooks, 1928 |
- ...
- Este silêncio, perturba-me.
- ...
- Estão todos calados, porquê?
- ...
- Talvez, não esteja aqui ninguém. Está aí alguém?
- ...
- Não está ninguém. Oiço um murmúrio. Será uma fantasia?
- ...
- Não. Estou só eu. Sou a rainha da noite,
- Não, não és a rainha da noite. A noite não tem reis nem rainhas.
- Quem está aí?
- A noite.
sábado, 4 de outubro de 2025
Silêncio de Outono (2)
quinta-feira, 2 de outubro de 2025
Câmara discreta (30)
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| Imogen Cunningham, Braille, 1933 |
Cegar a própria cegueira, ocultando-a dos olhos que vêem e perscrutam o que se resguarda nessa ausência de olhar, nessa fixidez que se prende ao infinito e à eternidade. Apenas as mãos se deixam capturar, enquanto desfilam pelo rio de signos que os olhos não sabem, mas que os dedos, como uma visão mais sólida e verrumante, descortinam, rasgando a mudez do pensamento, para lhe dar a esperança da palavra.
terça-feira, 30 de setembro de 2025
Arqueologias do espírito 35
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| Eduardo Nery, Escada Mística, 1972 (Gulbenkian) |
A primeira vez que a um homem terá ocorrido construir uma escada, ainda que de degraus imperfeitos, não foi, por certo, o momento inicial em que desejou elevar-se acima da terra e vencer a gravidade. O espírito, quando os olhos se erguiam para os céus, há muito desejava elevar-se. A escada foi uma resposta a esse desejo de contrariar a natureza, mas também o símbolo futuro da possibilidade de elevar-se. Elevar o corpo e libertá-lo do constrangimento da matéria. Elevar o espírito para além das preocupações quotidianas. Mais do que um dispositivo arcaico, a escada é a realização de um desejo vindo do fundo do tempo.
segunda-feira, 29 de setembro de 2025
Silêncio de Outono (1)
quinta-feira, 25 de setembro de 2025
Impressões 130. Tristeza
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| George Seurat, Industrial Suburb, 1882-1883 |
Mais do que fealdade, há paisagens criadas pelos homens que trazem nelas uma tristeza desmedida. Olha-se e não é o impacto estético negativo que assoma em primeiro lugar, mas uma infinita mágoa, como se aqueles lugares fossem a emanação de um suplício sem motivo nem fim.
terça-feira, 23 de setembro de 2025
Meditação breve (207) O secreto talento
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| Adolph Miethe, Dreifarbenaufnahme: nach der natur, 1903 |
A natureza desdobra-se em pequenos presentes, que os homens recebem sem pensar no incansável trabalho da terra. O que é belo parece emanar da facilidade, quando, na verdade, como o escreveu um velho filósofo grego, o que é belo é difícil. E é neste mostrar como fácil aquilo que é, na sua essência, difícil, que reside o secreto talento da natureza.
domingo, 21 de setembro de 2025
Micronarrativa (77) Fantasias
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| Guilherme Camarinha, Jardim das Artes, 1967 (Gulbenkian) |
Como uma sombra, o viajante percorre o jardim. Pensa-o, a princípio, uma emanação do paraíso, mas deste, recorda, os homens tinham sido expulsos. Depois, enquanto a viagem avança, descobre que aquele é lugar de todas as fantasias. Estas são flores belas e perigosas. Aguardam ali que lhes tragam água e sol, para lançaram a sua sombra sobre o mundo.
sexta-feira, 19 de setembro de 2025
quarta-feira, 17 de setembro de 2025
Virtudes de Verão (12)
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| Vincent Van Gogh, Camineros en el Boulevard de Victor Hugo en Saint-Rémy, 1889 |
semeio um grão de perseverança
no campo húmido
pelos primeiros frios matinais
ergo os ombros e enfrento
as tentações do estio
o deslassar da vida no gruir do tempo
uma porta abre-se e o infinito
oferece-me uma estrada
um caminho sem princípio nem fim
Setembro de 2025
segunda-feira, 15 de setembro de 2025
Signo sinal 30. Peregrinar
sábado, 13 de setembro de 2025
Virtudes de Verão (11)
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| Salvador Dali, Playa encantada con tres Gracias fluídas, 1938 |
pela graça da sombra de setembro
derramo a água dançante
da gratidão
grato pelo murmúrio da manhã
grato pelo troar da tarde
grato pelo navio da noite
sulco o oceano da obrigação
preso na armadura
translúcida do reconhecimento
Setembro de 2025
quinta-feira, 11 de setembro de 2025
A memória do ar (42)
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| Dmitri Kessel, Venice, Italy, 1952 |
Há cidades que, como as plantas, surgem da terra, onde têm as suas raízes e de onde tiram a inspiração que as guia no seu destino. Outras, porém, mais raras, descem dos céus e poisam, ao de leve, cercadas de água, num solo que nunca deixa de lhes ser estranho. São cidades etéreas e o seu elemento é o ar. Dele se alimentam e aguardam a hora que, elevando-se , voltarão em silêncio ao céu.
terça-feira, 9 de setembro de 2025
Virtudes de Verão (10)
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| William Blake, Every man also gave him a piece of money |
sob o suplício de um sol sem piedade
distribuo pelo mundo os frutos
frescos da compaixão
tâmaras em vinho envelhecido
uvas no silêncio da noite
damascos a quem se perdeu no deserto
abro a mão da água que recebi
e deixo um rio deslizar
para as bocas cariadas pela sede
Setembro de 2025
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