terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Haikai do Viandante (177)

Esteban Vicente - Ao longe (1970)

obscuras paisagens
erguem-se sobre os meus olhos
ferozes imagens

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Elemento fogo

Gustavo Torner - Átomos - Os Quatro Elementos - Fogo (1986)

Ao atingir a perfeição, tudo incandesce, a terra, a água, o ar. No princípio e no fim está o fogo. Crepita nas lareiras, braveia na floresta, sopra no fundo das galáxias. No escuro da noite, quando o coração se exalta e o espírito se ilumina, é o fogo que desce e se torna vida.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Elemento ar

Gustavo Torner - Átomos - Os Quatro Elementos - Ar (1986)

Descobre-se no sopro, canta no vento, viaja incógnito sobre terra e água. Tão subtil que parece o símbolo da ciência, a promessa de um voo, o desígnio de um profeta que, tomado pela vertigem, anuncia um mundo de fogo e desolação.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Elemento água

Gustavo Torner - Átomos - Os Quatro Elementos - Água (1986)

Presa à terra e toda ela ânsia de mobilidade, metamorfose, figura que ao perder-se se transfigura. No seio, a leveza do ar e o desejo do fogo, a vida que se incendeia. No frio, é pedra e gelo, anúncio de morte. Água, o mistério dos mistérios. 

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Elemento terra

Gustavo Torner - Átomos - Os Quatro Elementos - Terra (1986)

Dos quatro elementos, a terra é o mais pesado. Traz com ele o segredo da gravidade e enraíza os homens no lugar a que chamam pátria ou lar. E no entanto está prestes a liquefazer-se, pois é pó, poeira arrastada pelo vento. E sob o sopro do vendaval, as casas entregam-se à ruína e os impérios desfazem-se.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Como as árvores

Liubov Popova - Árvores (1911-12)

Árvores, raízes na terra, ramos erguidos aos céus. Se há alguma coisa que estamos a perder é a percepção da árvore como símbolo da condição humana. Também o homem pertence à terra, é nela que tem as suas raízes, mas é ao alto, aos céus, que deve aspirar. No entanto, o peso da gravidade dobra-lhe a cerviz e, impotente, o olhar perde-se no pó. Será ainda capaz de voltar a olhar para uma árvore e deixar-se instruir por ela?

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Haikai do Viandante (176)

Carmen Dominguez - Cuando la luz confesó

um mistério habita
no sagrado ser da luz
voa e logo grita

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Na orla do bosque

Camille Pissarro - Lisière d'un bois (1879)

Estar na orla do bosque é permanecer na fronteira, nessa linha imaginária que separa dois mundos. Ali o viandante hesita, talvez tomado pelo pânico, talvez forçado pela tradição do cálculo. O que ganha e o que perde? O medo ou a interrogação retêm-no nesse lugar ensombrado. Terão mais força os velhos hábitos ou a voz que o chama conduzirá o seu desejo? É na fronteira, nesse espaço irreal, que os homens, indecisos, acabam por dissipar o tempo. Fugir ou adentrar-se no obscuro território que está para além da raia, eis o dilema onde a vida se dissolve.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Ocaso

Jaime Burguillos - Ocaso (1976)

Não é quando o Sol se põe e a noite desce que a viagem termina. O poente é antes o sinal de partida. Ao viandante espera-o a noite escura, a noite onde tudo se dissolve e o velho sentido das coisas é arrastado para o nada donde saiu. 

domingo, 16 de fevereiro de 2014

A fonte originária

Valentín Albardíaz - La fuente de doña Inés (1994)

O alfa e o ómega, o princípio e o fim. Não traçarão eles um caminho linear que de um levará ao outro? No princípio não nos será já apontado o fim, ao qual acederemos como mais ou menos rectidão? Mas se tudo isso resultar duma visão distorcida? Se isso acontecer, então o alfa e o ómega serão o mesmo, assim como o princípio e o fim. Podemos chamar fonte, a esse lugar donde tudo parte e aonde tudo deve regressar. O princípio é já a causa final da viagem iniciada. Os dois são a fonte originária donde proviemos e que nos aguarda.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

O turista e o peregrino

José Bellosillo - Adentrándome (1992)

Há duas formas de fazer o caminho que se abre ao chegarmos à vida. Podemos ir de estação em estação, percorrendo múltiplos e diversos caminhos como se, apesar da diferença, fossem o mesmo. Podemos, todavia, fazer o caminho sem sequer sairmos do local que nos cabe, penetrando-o mais e mais, percebendo a sua espessura, compreendendo-o na diferenciação que constitui a sua identidade. No primeiro caso, escolhe-se a via do turista. No segundo, a do peregrino.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Poemas do Viandante (450)

Francisco Soto Mesa - 3.98.1 (1998)

450. O súbito entrelaçar

O súbito entrelaçar
dessas mãos vazias.

O pássaro esquecido
na sombra do medo.

São flores incendiadas
no chão da floresta.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

De sombra em sombra

Lucio Fontana - Ambiente spaziale (Labirinto bianco) (1968)

Criar a penumbra para que a luz possa vir. Os homens são frágeis e não está na sua condição suportar demasiada luz. Por isso, é necessário que ela chegue até nós intermediada por uma e outra cortina. De sombra em sombra, o homem trilha o infinito caminho para a luz.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A viagem angustiada

Giorgio de Chirico - A viagem angustiada (1913)

Certas correntes de pensamento viram na angústia uma experiência pela qual se tomava consciência do ser, daquilo que é. Mas não será precisamente o contrário? Não será já a experiência viva do ser e da sua infinitude que gera uma consciência angustiada? Na angústia, a consciência confronta-se com o perigo da perda, com a atracção pelas ilusões que nos oferecem a possibilidade de trocarmos o ser pela aparência. Na angústia, revela-se assim o medo da nossa incapacidade de persistir no ser, o temor pelo não-ser.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Haikai do Viandante (175)

Albert Rafols Casamada - Blanco (1960)

as brancas paisagens
são sombras de velhas árvores
ramos e folhagem

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Entrar no bosque

Piet Mondrian - Bosque (1912)

Entrar no bosque é deixar o mundo da vida activa. Não se trata de uma viagem turística ou de uma mera transição entre reinos. O bosque espera aquele que, solitário e esquecido dos interesses humanos, procura a palavra que na eternidade chamou por ele. Ao entrar, o silêncio toma conta do seu coração e todo o seu ser é, nessa hora, um puro acto de escuta.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Na ira dos elementos

Antonio Muñoz Degrain - O Tejo. Chuva

Nos dias como o de hoje, onde a natureza parece revoltada e, na sua raiva, ameaça a frágil disposição dos objectos humanos, a relação do homem com a terra parece emergir naquilo que tem de mais fundamental. O homem sente-se pertença daquilo que o ameaça e escuta na ira dos elementos o seu próprio grito.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Poemas do Viandante (449)

Caspar David Friedrich - Evening (1824)

449. Em cada palavra dita

Em cada palavra dita
quando o dia cai,

em cada palavra escrita
no fulgor da noite,

há um temor que se avista:
Vem e logo vai.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

O tempo perdido

Manuel Ruiz Pipó - Em busca do tempo perdido

O título da obra de Marcel Proust, Em busca do tempo perdido, evoca duas ideias sobre o tempo. O tempo perdido acorda o desejo de um tempo a reencontrar, de um retorno a esse tempo de que nos separámos. Evoca também o tempo desperdiçado, de um tempo que se perdeu por dissipação da vida. Mas tanto a separação como a dissipação existencial são fenómenos exteriores à temporalidade. Devemos pensar na expressão tempo perdido como uma expressão pleonástica, pois todo o tempo é perdição, todo o tempo é tempo perdido.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Haikai do Viandante (174)

Georgia O'keeffe - Abstracção (1920)

secreto segredo
desdobrado entre cortinas
aberto p'lo medo

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

No porto de abrigo

Jean Édouard Vuillard - O porto de Honfleur (1919)

Não há para o viandante porto que seja o fim da viagem. Por mais que deseje recolher a terra firme e aí estabelecer o seu domínio, o viandante deve, após breves instantes de descanso em abrigo seguro, voltar a zarpar. Não lhe cabe instituir fronteiras nem fundar um reino. Fronteiras são irrisão e o reino a que pertence não é deste mundo.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Solidão e labirinto

José Iranzo Almonacid - Isolamento 71 (1971)

A solidão pode significar a perda num labirinto? Pode, claro. Muitos perdem-se nela e devem evitá-la custe o que custar. Para alguns, porém, a solidão é o caminho para fora do labirinto, como se ela fosse o fio de Ariadne que conduz o viandante à liberdade. Solidão e silêncio.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Construir a sua gramática

Paul Serusier -  La Grammaire (1892)

Também a experiência do espírito tem a sua gramática. Não uma gramática universal ou uma gramática normativa, mas uma gramática que, a cada passo da viagem, inventa a sua morfologia e descobre a sua sintaxe. Esta gramática estrutura uma linguagem singular e irrepetível. Quem quiser fazer-se ao caminho terá de se dispor a construir a gramática da sua própria viagem.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

A viagem e o ócio

Edward Burne Jones - Peregrino à porta da ociosidade (1875-1893)

Um dos grandes perigos que assaltam o viandante nasce da confusão entre a viagem e o ócio. A viagem não é uma excursão turística, o deambular onde preenchemos a mente ociosa com a alteridade do desconhecido. A viagem é o exercício da pobreza de espírito, a prática do despojamento, a ascese que leva ao esquecimento de si. Não há porta que seja fim, pois todo o tempo é tempo de milícia.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Liberdade condicional

Ivonne Sánchez Barea - Liberdade condicional (2000)

De certa maneira, o que relativiza já a afirmação, a velha discussão sobre se o homem possui livre-arbítrio ou é completamente determinado na sua acção é ociosa. Talvez seja mais sensato pensar o homem sob a figura da liberdade condicional. Como a liberdade condicional de um condenado, também a liberdade condicional de cada homem pode, a qualquer instante, ser revogada. Não por um qualquer juiz exterior, mas por si mesmo, pela submissão àquilo que, pelo ardil do desejo, o prende. Se a nossa liberdade é sempre condicional, o caminho do homem na Terra é um infinito processo de libertação.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Poemas do Viandante (448)

Lisa Milroy - Sky (1997-98)

448. Agora Janeiro parte

Agora Janeiro parte
Cinza e violeta.

O tempo transfigurado
Inscreve nos céus

Ramos de nuvens vermelhas,
Um súbito adeus.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Poemas do Viandante (447)

Caspar David Friedrich - Evening on the Baltic Sea (1826)

447. O inverno que anoitece

O inverno que anoitece
na sombra da tarde.

O dia que passa e se esquece
sem ninguém que o guarde.

O coração que adormece
quando tudo arde.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O lugar que me espera

Guillermo Pérez Villalta - Allì (1988)

É sempre lá ou ali o lugar que nos espera, como se a viagem fosse perpétua e o lugar, aquele que agora - em qualquer agora - ocupamos, fosse uma mera passagem. Ali é o lugar que torna a realidade do meu lugar irreal e me faz mover no caminho. E em cada passo dado, o ali avança um passo, como se ele esperasse mais e mais do viandante. Ali é o lugar que me espera.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

As mãos na massa

Ramón Rivas - Amassando o pão (1978)

A imagem do pão e do vinho é recorrente na cultura ocidental, nomeadamente na poesia. O seu poder evocador é associado à ideia de partilha - a última Ceia de Cristo, por exemplo - e, através dessa ideia, chegamos à vida comum, a uma forma, sempre sonhada e jamais realizada, de comunidade. É verdade que o pão e o vinho tornam-nos próximos uns dos outros, ampliando os vínculos e consolidando alianças. Todavia, a potência poética do pão e do vinho residirá noutra coisa, residirá na sua própria poeticidade, no facto de também eles serem uma produção (poiesis - ποίησις), de resultarem de uma dinâmica onde os homens são obrigados, literalmente, a pôr as mãos na massa. É este poder operativo que se manifesta na transformação dos produtos da natureza em pão e vinho que ressoa na poesia, como se o poeta intimasse o leitor a transformar-se, também ele, em pão e vinho.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Árvores no inverno

Alex Katz- A Tree in Winter (1988)

Uma e depois outra, e outra, mais outra ainda, num processo sem fim. Quantas vidas - e nós só temos uma - precisamos para aprendermos com as árvores no inverno? Deixar cair folha a folha, despir-se de cada uma das máscaras, das ilusões, de cada desejo, deixando o vento levá-los para longe. Em vez de acumular folhas, certas árvores abandonam-nas e entram na casa da morte, de onde regressam triunfantes. De quantas vidas precisamos para sermos como as árvores no inverno?