sábado, 7 de junho de 2014

Poemas do Viandante (459)

László Moholy-Nagy - Nude (entre 1928-1937)

459. corpo perdido no sono

corpo perdido no sono
corpo ao abandono

suave vestígio de sombra
água que me assombra

vida trazida p'lo vento
luz fogo tormento

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Abrir a cozinha

Al Capone’s free soup kitchen, Chicago (1931)

Ali, onde a fome reina, não há lugar para escolher o senhor de quem se é súbdito. A necessidade traz com ela a vassalagem. O que abrir a cozinha terá a multidão à porta. O seu gesto será acolhido como um dom da Graça. São ínvios os caminhos pelos quais o homem faz a sua viagem.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Haikai do Viandante (191)

Juan Rulfo - Nicho de Atlihuetzía

vestígio de vida
irrompe pela a memória
a casa perdida

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Aprender a matizar

Man Ray - Noire et Blanche (1926)

O primeiro dever do viandante é aprender a matizar, deixar de ver  o mundo a preto e branco, exercer a virtude da gradação. Houve homens que julgaram descobrir a santidade na mais dura austeridade, verdadeiros atletas do espírito. A vida espiritual, porém, não é uma maratona, e o extremo rigor é sintoma não de espiritualidade mas de patologia. Pegamos no branco e no preto e depois criamos um mundo de sombras. Noutras alturas, há que tomar apenas o branco e decompô-lo nas múltiplas cores que fazem a vida. A viagem é uma aprendizagem da gradação da luz.

terça-feira, 3 de junho de 2014

O inimigo interno

Grete Stern - Consentimiento (Sueños) (1949)

Não são as ilusões ou o mal que caem sobre nós e, contra a nossa vontade, nos tomam de assalto e subjugam. Somos nós que consentimos e nos entregamos. O inimigo externo tem sempre poderosos aliados dentro de muralhas.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Signo sinal 3. A sombra de uma sombra

Hans Baumgartner - Vor dem Arbeitsamt, Zürich (1935)

Mais que um rasto deixado pela ocultação da luz, a sombra é um sinal, um símbolo. Sinaliza o homem e simboliza a sua condição. Não será, desse modo, a sombra de uma sombra? Na sombra revela-se não apenas aquilo que há de sombrio no homem, mas a sua natureza intermédia, a de não ser nem pura luz nem pura treva. Uma sombra deixado como rasto. Por quem?

domingo, 1 de junho de 2014

Seguir em frente

Leo Matiz - Polígono

Adentrar-se mais e mais no mistério, percorrer a longa galeria onde luz e trevas se sucedem sem fim, seguir em frente sem olhar para trás. Orfeu não suportou a exigência que a vida lhe pôs e perdeu Eurídice. Quem busca uma certificação ganha a certeza da perda. Resta, ao homem, apenas seguir em frente, saber que a luz ofusca e que as trevas são a noite escura da purgação dos equívocos e das ilusões. O resto é o mistério indecifrável.

sábado, 31 de maio de 2014

Poemas do Viandante (458)

Max Dupain - Model Olive Cotton, Cornulla Sandhills, New South Wales, Australia (1937)

458. o véu que te revela

o véu que te revela
no segredo de areia

o sol que se rebela
e logo te incendeia

a boca de canela
fogo que me ateia

sexta-feira, 30 de maio de 2014

De olhos no cume

Hiroshi Hamaya - Winter starts on peak of Mount Fuji. Japan (1962)

Subir pouco a pouco, elevar-se lentamente, colocar os olhos no cume. Que outro símbolo pode dizer melhor a tarefa do homem na vida? Subir ao cimo da montanha, enfrentar os duros caminhos e abrir o coração para a intempérie. Despojar-se do inútil e ascender confiado na acção gratuita do invisível.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Tornar-se cego

Júlio Pomar - Cegos de Madrid (1957)

Não se trata de ser cego, mas de tornar-se cego para ver. Pelos olhos entra o que nos deslumbra, e, deslumbrados, apenas temos olhos para o objecto do deslumbramento. Se nos tornarmos cegos, porém, o campo do visível deixa de ocultar o do invisível, daquilo que se esconde por detrás das coisas que prendem o olhar. Ao tornarmo-nos cegos abre-se a remota possibilidade de aprendermos a olhar.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Uma clareira azul

Fernando Lerín - Sem título (1985)

De súbito, no meio da mais tenebrosa das tempestade, surge uma clareira azul no céu. Os elementos estão em fúria, mas um novo caminho abre-se diante do viandante, chamando-o para o outro lado, oferecendo-lhe a graça de uma passagem.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Haikai do Viandante (190)

Max Dupain - Nude in sunlight (1937)

de nuvens coberto
um sonho de sol e água
sombra no deserto

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Sentimento de incompletude

 Hippolyte Blancard - Sem título (1888)

O que desencadeia em alguém o desejo da viagem, a necessidade de se pôr a caminho e de se tornar viandante? Não é a busca de novas sensações, nem o prazer da aventura ou a ânsia de descobrir novas realidades. Tudo isso são ainda funções que o turismo pode suprir. Aquilo que atira o homem para a viagem do espírito é o sentimento de incompletude. Alguma coisa que é sentida como sendo própria está em falta. O viandante faz-se ao caminho à procura da outra parte de si mesmo.

domingo, 25 de maio de 2014

Ruínas e memória

Lucien Clergue - Ruines, Arles (1954)

Mais que o memorial ou o monumento conservado, as ruínas representam uma espécie de fidelidade mnésica. A memória, na sua faceta restauradora ou comemorativa, tende a idealizar o passado, a despi-lo do tempo. mentindo assim sobre a nossa condição passageira. As ruínas, porém, mostram-nos o passado e o presente, evidenciam o trabalho do tempo. Recordam-nos vivamente que somos pó e ao pó voltaremos.

sábado, 24 de maio de 2014

A estrita necessidade

Hiroshi Hamaya - A girl carrying a baby on her shoulders as she goes to make errands in the snow covered landscape of Aomori. Japan (1955)

Quantas vezes hesitamos no caminho? Quantas vezes o conforto do momento é sinónimo e motivo de adiamento, de procrastinação, de exercício de uma ilusória liberdade. Depois, quando a necessidade se abate sobre o viandante, ele põe-se a caminho e enfrenta as mais terríveis condições. Nesses momentos, descobre que a liberdade nasce ali onde a mais estrita necessidade o impele.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Na terra devastada

Man Ray - Waste Land (1929)

Não fugir. Insistir, permanecer na terra devastada, deixar que ela traga até nós as primeira palavras, que abra a bolsa onde guarda os segredos e nos deixe espreitar. Ali, onde a terra foi devastada e abandonada pelos homens, também é lugar de viagem. Melhor, é sítio de peregrinação e de espera. Espera que a terra fale e a verdade, abençoada pelo silêncio, se revela.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Haikai do Viandante (189)


no mundo vazio 
no infinito deserto
silêncio sombrio

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Atravessar a ponte

Andreas Feininger - Storm clouds hover over the Brooklyn Bridge and the ghostly skyscrapers 
of Manhattan’s financial district in March (1946)

Imaginamos sempre que uma ponte assegura a continuação de um caminho que um obstáculo interrompe. Passar a ponte é retomar a normalidade quebrada. Mas a passagem de uma ponte pode ser uma prova, uma prova tormentosa. Nessa passagem alguma coisa se transforma em nós e quando se chega ao outro lado já se será outro. Não.Uma ponte não assegura uma continuidade, não é uma mera ligação que une o idêntico. Ela é um lugar de ruptura, de descontinuidade, o símbolo que nos chama à transformação, à metanoia.

terça-feira, 20 de maio de 2014

A incerta viagem

Ho Fan - Journey to Uncertainty (1956)

Na inauguração dos tempos modernos, a certeza foi definida como o alvo a atingir pelo pensamento humano. A vida riu-se de tamanha pretensão e tornou tudo mais incerto, como se o caminho que cabe a cada um devesse ser feito na escura noite, onde apenas a fé e a graça podem iluminar o homem na incerta viagem que lhe cabe.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Retorno a casa

Francesca Woodman - From Space2, Providence (1975-76)

Numa primeira fase da vida, os homens lutam pelo conhecimento e afirmam-se separando-se das coisas, assim transformadas em objectos. Posta à distância, a realidade é capturada pelo entendimento do homem. Essa fase, porém, está longe da sabedoria. O viandante começa a trilhar os caminhos da sabedoria quando se perde nas coisas e se despe da pretensão delas se diferenciar. Toda a viagem é um longo processo de retorno a casa.

domingo, 18 de maio de 2014

Poemas do Viandante (457)

Bill Brandt - Hampstead, London (1945)

457. esse corpo que se entrega

esse corpo que se entrega
despido ao olhar

esse amor desatinado
a gritar no peito

esse desespero manso
perdido na face

esse desejo de luz
nunca satisfeito