quarta-feira, 11 de maio de 2016

Nenhuma casa

Filippo de Pisis - Paisagem alpina com casa (1927)

Olho a casa de longe, e tudo é pura memória, esteira que a partida abre sobre o mar rumoroso da montanha. O ar frio gela-me os pulmões, mas caminho. Não posso voltar atrás. Não tenho para onde voltar. A casa, aquela onde nasci, tornou-se-me estranha. Ainda ontem eu chamava-lhe, bem alto, a minha casa. A noite, porém, desceu sobre ela. De manhã, o velho corvo estava morto. A casa tremeu sob o ranger da mobília. Sombras corriam pelos quartos. Uma voz, tão escura e tão rouca, nunca a ouvira, soou imperativa: pensas que esta é a tua casa? Vai-te! O corvo está morto e nenhuma casa é a tua casa. Não voltarei.