sexta-feira, 27 de maio de 2016

Esquecer o nome

Lagoa Henriques - Sem título (1974)

Cheguei aqui, a este lugar vazio, a esta terra de fumo e cinza. Sou um espectro abandonado na margem do rio, na floresta ardida pelos incêndios, os grandes incêndios de Verão. Era um corpo, a gravidade agia sobre mim e a terrível necessidade prendia-me à terra. Agora estou livre, mas já não sei o meu nome. Ao esquecer-me do nome, perdi o corpo. Não o sabia, mas o corpo é uma emanação, uma sólida emanação, do nome. Quem ama o corpo, deve cuidar do nome, pronunciá-lo a cada instante, para não o esquecer. Talvez não amasse o corpo e, por isso, deixei de recitar o nome. Agora estou aqui, leve e livre, na margem do rio, e, calem-se, não, não quero saber como me chamava.