sábado, 23 de maio de 2015

Haikai do Viandante (233)

JCM - Colour Dreams (2014)

irrompe a lua
no frio céu azul da tarde
o deus que te aguarda

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Uma pequena luz

JCM - Black & White Dreams, Valladolid (2006)

A luz afunda-se no oceano e deixa a noite crescer dentro da cidade. Então ele anoitece pelas praças e vielas, espera, como uma promessa, o regresso daquilo que o ilumina, o chama para a vida, o visita mesmo se dorme. Quando a noite é mais negra, ainda uma pequena luz bruxuleante fulgura no fundo do seu coração. Abre os olhos, e ela ali está. Despida. Então ele soletra-lhe o nome e estende-lhe a mão, sente a pele deslizar-lhe sob os dedos. Deseja-a. Ela sorri. Todo o seu corpo freme e o olhar cintila. É a luz que o ilumina, a voz que o ergue da morte e o ressuscita para a eternidade de cada dia. Desperto, descobre-se só, mas a luz arde ainda num lugar secreto, no fundo silencioso da caverna da sua consciência.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Aprender a quietude

JCM - Time on space (2008)

Podemos pensar que a viagem espiritual é como um mergulho nas águas inóspitas do oceano. Isso, porém, é uma ilusão fundada no voluntarismo que tomou conta da nossa cultura. Na verdade, a viagem espiritual é antes um aprender a estar quieto e silencioso, um aprender a deixar que o espírito se derrame sobre si, como as águas do oceano se derramam sobre as velhas rochas, para que, lentamente, uma vida nova cubra a pedra rude com um verde belo e vigoroso.  

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Poemas do Viandante (508)

Jean François Millet - Nu reclinado

508. a noite em que tudo dorme

A noite em que tudo dorme
desce nos teus dedos.

Vem vagarosa e sublime
poisar sobre mim.

E eu oiço uma canção breve
na luz do teu rosto.

Assim embalado canto
e logo adormeço.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Um terrível fascínio

Daniel Vázquez Díaz - A fábrica adormecida (1920)

O mundo como fábrica. Nesta metáfora nós encontramos a apoteose de uma civilização baseada na pura acção. Melhor, numa acção degradada já em mera fabricação de artefactos para serem dados ao consumo. O acto de fabricar exerce sobre os homens um terrível fascínio. E é nesse fascínio que o homem aliena a sua natureza contemplativa, onde toda a acção é suspensa e o homem entrega-se à escuta da Voz que chamou por ele.

domingo, 17 de maio de 2015

Sobre vestígios

JCM - Vestígios (2014)

O homem pode encarar a vida de diversas formas. Há aqueles que julgam que o mais importante é deixar vestígios no mundo, como se este fosse o seu império. Outros há, contudo, que, a dado momento, descobrem a irrelevância do seu próprio vestígio. Tarde ou cedo ele será definitivamente apagado e esquecido. Resta-lhes preocupar-se com o vestígio que a vida no mundo deixa neles, aquilo em que ela os ajudou a tornar-se.

sábado, 16 de maio de 2015

O que se pode tornar visível

Romolo Romani - Imagem (1908)

Estamos de tal maneira habituados às nossas imagens precisas e nítidas que nunca nos questionamos se, nos primeiros tempos de vida, eram estas imagens precisas e nítidas que se apresentavam perante os nossos olhos. Muito provavelmente não. Uma dura mas inconsciente aprendizagem conduziu-nos à focalização do olhar. Vemos aquilo que aprendemos a ver. E se para lá destas imagens, que agora nos são visíveis, outras, talvez mais nítidas e precisas, estejam ocultas, estejam perdidas na invisibilidade a que nos condenamos pelo uso habitual dos sentidos? Esse é o trabalho do viandante, viajar de imagem em imagem, procurar no invisível aquilo que se pode tornar visível.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Raízes na terra

JCM - Símbolos, signos e sinais. Lisboa, Jardim Botânico, (2007)

Como a árvore, também o viandante deve lançar as suas raízes na terra. Só aquele que tem raízes fundas pode suportar as intempéries que o vento - aquele vento que sopra onde quer - traz consigo. Sem raízes na terra, como pode o homem olhar para o alto, contemplar os céus, e não ser arrastado na queda? Só aquele que desce pode encontrar a seiva que o fará subir.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Haikai do Viandante (232)

Nandor Mikola - In the Morning (1987)

desce sobre mim
a solidão da manhã
vida e luz sem fim

quarta-feira, 13 de maio de 2015

A força do amanhecer

Max Pechstein - Dawn (1911)

O amanhecer é frequentemente usado - até à usura - para simbolizar o começo de algo novo. A persistência da sua força simbólica não deriva, contudo, da analogia entre o começo do novo dia e aquilo que na vida dos homens é tomado como novo. A força simbólica do amanhecer é muito mais profunda pois reside nas forças poderosas da natureza que se manifestam nessa hora e no impacto que essas forças têm sobre o corpo, a alma e o espírito dos homens.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Convite à passagem

JCM - Muros (Lugo), 2007

Aquilo que detém o corpo é impotente para deter o espírito. O obstáculo não é um limite mas uma provação que solicita a que o espírito, escorado na sua pobreza e na abertura ao que está para além dele, o ultrapasse e se ultrapasse. O muro não é o fim da viagem mas um convite à passagem.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Aprender a tactear

Carmen Dominguez - Con-tacto

Talvez a aprendizagem sensorial mais importante para a viagem espiritual seja a que se liga ao tacto. Na visão e na audição, por exemplo, o homem é passivo, recebe as imagens que o exterior lhe envia. No tacto há uma dimensão activa, na qual o sujeito procura os objectos a tocar. Ora como toda a aventura espiritual é um estabelecer de relação, estabelecer contacto com aquilo que nos transcende, aprender a tactear não será das aprendizagens de menor importância.

domingo, 10 de maio de 2015

Poemas do Viandante (507)

Corneille - Juegos de pájaros en un cielo de verano (1998)

507. pressente-se o voo

pressente-se o voo
das aves estivais

trazem consigo um resto
de calor amainado

pelas nuvens que vogam
esquecidas nos céus

pela penumbra aberta
que desce dos teus olhos

sábado, 9 de maio de 2015

Um grão de areia

Robert Delaunay - Saint-Séverin nº 3 (1909-10)

A desmesura que certas igrejas apresentam é diferente daquela que o Antigo Testamento simbolizou na Torre de Babel. Nesta estava plasmada a desmedida humana, a ambição prometaica de conquistar o território dos deuses. Na igreja cristã aquilo que é simbolizado é a pequenez do homem perante o mistério divino. Ao entrar nesse espaço, o orgulho do animal racional é devolvido à sua dimensão: um grão de areia perdido no universo.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

A improvisação e o imprevisto

Wassily Kandinsky - Improvisação (1909)

Se o espírito é como o vento, sopra onde quer, a resposta do viandante só pode ser a improvisação. O improviso é aquilo que é solicitado pelo imprevisto. Improvisar, porém, não é entregar-se ao caos e ao acaso. É abrir-se à solicitação do espírito, a qual, para nós mortais, é sempre imprevista e sempre imprevisível.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Haikai do Viandante (231)

Pierre Bonnard - Lumière de soir, près de Vernon (1922)

a luz que te guarda
desce leve sobre a terra
assim cai a tarde

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Colher o que semeou

Kazimir Malevich - In the field (1911-12)

Também o viandante é um lavrador. A viagem é a sua forma de trabalhar a terra, de a semear e de cuidar das plantas. Tudo é feito em conformidade com as estações e os rigores do tempo. Nos dias de intempérie recolhe-se em casa e medita, para, logo que o tempo amaine, se fazer à estrada e colher aquilo que semeou.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Permanecer no Absoluto

Jiri Georg Dokoupil - Cristo (1986)

Se alguém permanece em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto, porque sem Mim nada podeis fazer. (João 15:5)

O enigma da vida espiritual reside todo ele na afirmação paradoxal de uma impotência. O homem, desligado do Absoluto, nada pode. O paradoxo é que o homem, na sua relatividade e na sua hostilidade ao absoluto, pode e com esse poder rasga o mundo. Ora o poder que João refere não é esse que nasce da iniciativa humana é um outro poder. Dele sabemos apenas que resulta da ligação ao Absoluto e que é frutuoso. O resto é enigmático. Este enigma não é resolúvel pela razão mas pela acção, a qual está consignada no verbo permanecer. Como pode o relativo permanecer no Absoluto?

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Casas de adobe

Edward Hopper - Adobe Houses (1925)

Casas de adobe. Os homens sonham com palácios e julgam que neles se funda o mundo. Não sabem, porém, que mesmo uma casa de adobe pode ser já um excesso. O viandante deve, se vive num palácio, aprender a viver aí como se vivesse numa casa de adobe. E se vive numa casa de adobe deve aprender a viver como se fosse um sem abrigo, pois na viagem que lhe cabe nada o pode abrigar das intempéries que sobre ele desabam.

domingo, 3 de maio de 2015

O anseio pelo invisível

Wassily Kandinsky - Amarelo - Vermelho - Azul (1935)

Aristóteles, logo no início da Metafísica, sublinhava a preferência dos homens pela visão, não apenas para efeitos práticos mas também porque ela permite-nos conhecer mais objectos e revela-nos mais diferenças que outros órgãos dos sentidos. O fascínio da visão, porém, pode ocultar ao homem os objectos e as diferenças que a visão não capta. Uma parte da pintura da contemporânea pode ser explicada como uma luta paradoxal contra o visível para tornar visível o que o não o é. Este anseio pelo invisível é a essência da viagem espiritual.

sábado, 2 de maio de 2015

Poemas do Viandante (506)

Emil Hansen - Light Sea-Mood (1901)

506. um poema de água e luz

um poema de água e luz
aberto no mar

desenha ligeiras ondas
na paz destes dias

onde palavras cifradas
trazem o silêncio

com que escondes o teu corpo
do vento e do frio