segunda-feira, 6 de julho de 2015

No lugar da insignificância

Pére Pruna - Belén (1931)

Voltemos ao episódio do nascimento de Cristo, em Belém. A história que nos é contada dá-lhe a aparência de um acidente, motivado pelo fortuito das circunstâncias políticas vividas na altura. Esta leitura, porém, é ingénua. Não podemos olhar para as narrativas evangélicas como crónicas de acontecimentos factuais, uma espécie de pré-história da história. Elas são antes a construção de um conjunto de pistas que devem orientar os homens no caminho para si mesmo, para a verdade. A conexão entre a pobreza do presépio de Belém e o nascimento do Cristo nesse lugar é a indicação de que o Absoluto se revela naquilo que há de mais pobre e, aparentemente, destituído de significação. O viandante, ao meditar, a narrativa sobre os acontecimentos de Belém é ensinado a olhar para aquilo que é sem valor, destituído de poder, marcado pela ausência do brilho que envolve a vaidade dos homens. No lugar da insignificância manifesta-se o que há de mais significante e significativo.