terça-feira, 7 de julho de 2015

A velha lápide

Albert Bloch - Antigo cemitério (1940-41)

Ela atravessava a aldeia e dirigia-se para o velho cemitério. Percorria-o como se o fizesse ao acaso, parando aqui e ali, lendo uma inscrição, compondo um ramo de flores, recolhendo-se perante a campa de um familiar. Depois sentava-se diante de uma lápide muito antiga, sem qualquer inscrição. Ninguém sabia a quem pertencia ou, sequer, quando fora ali posta. Já os avós dos avós dos mais velhos a conheciam naquele lugar, mas nem eles souberam a quem pertencia. Fascinada, pelo mistério, voltava lá todas as manhãs. Ainda não chegara aos setenta anos quando morreu. No dia do enterro, manhã cedo, os coveiros abriram a sepultura longe da lápide que fora o motivo da sua vida. Depois da missa, o cortejo percorreu a aldeia e entrou no cemitério. De súbito, uma estranha luz iluminou a velha lápide e o neto mais novo, uma criança de colo, balbuciou: é a casa da avó. Atónitos, olharam para lá. Diante da velha lápide uma cova funda esperava por ela.