terça-feira, 14 de julho de 2015

Chegar a casa

Roelant Jacobsz Savery - A Mill Tower on the Moldau near Prague (1613)

Concentrado na condução, nem dava pelos quilómetros que devorava. Rasgava paisagens, deixava cidades e aldeias para trás. Quem o visse, pensaria que queria anular o tempo. Na verdade, não sabia para onde ia. Cansado da ganga do quotidiano, pegou no carro e deixou-se levar pelo destino. Quando anoiteceu, ao fim de cinco horas de estrada, viu uma estranha estrela. Tornou-se o seu guia, mudo e brilhante, que lhe indicava o que fazer a cada instante. Conduzia há muitas horas, mas ainda não sentira o cansaço. Quando avistou a indicação para sair em Praga não hesitou. Mal começou a caminhar em direcção à cidade, uma luz suave caiu sobre ela e a paisagem urbana começou a perder os contornos, até que os bairros se desfizeram em névoa e um velho mundo ocupou o espaço à sua frente. Quando a aurora chegou, avistou ao longe, numa curva do rio, a torre de um antigo moinho, há muito desaparecido. Fixou o olhar, mas o moinho era real, demasiado real. Confuso exclamou: cheguei a casa.