quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Poemas do Viandante (650)

Frantisek Kupka - Ensayo, robustez (1920)

650. ensaio um passo redentor

ensaio um passo redentor
na robustez
da eternidade
e oiço o canto
das estrelas
a poisar no jardim
que estremece
sob o pálido pavor
dos rubros pés de deus

(14/12/2016)

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Meditação breve (47) - Contemplativos

Charles Gatewood

O mais surpreendente naqueles que são contemplativos não é o facto de estarem arredados da acção e dos negócios humanos.  O que surpreende é a sua contemplação balançar sempre entre a aparência da indiferença e a prontidão com que respondem a uma solicitação de quem deles se aproxima.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Água que corre

Paula Modersohn-Becker - Landscape with Marsh Channel (1899 )

Como o fogo, também a água que corre exerce um grande fascínio sobre o espírito do homem. Ficar a ver passar as águas de um rio conduz os homens a uma experiência muito arcaica. Não é a antiguidade da experiência, porém, que a torna fascinante, mas o jogo de espelhos que ela opera. O espírito olha o fluir da água e reconhece-se a si mesmo. O rio de Heraclito é já uma solidificação dessa experiência, uma tentativa de racionalizar a experiência da fluidez do próprio espírito humano, mas este, como a água, recusa-se ao estado sólido e logo escapa do contorno da figura que o prende e parte em busca de si mesmo, para além das múltiplas figuras que vai tomando.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

As moradas do espírito

Walker Evans - Apartment Building Façade with Horse-Drawn Carriage, Sixth Avenue, New York, 1934

Múltiplas são as moradas que aguardam o espírito e em todas elas ele demorará o tempo de reconhecer que essa não é a sua morada e que uma outra o espera, num caminhar sem fim nem quietação.

domingo, 17 de setembro de 2017

O caminho sem fim

Alexej Titarenko - St. Petersburg, 1998

O exercício da metamorfose é a natureza do espírito. Quando perde a elasticidade e se petrifica, morre. É uma estátua de sal. Se, como Lázaro, for ressuscitado, espera-o o caminho infinito da transformação. Nenhuma casa é a sua casa, nenhum porto o abriga, nenhuma figura é a sua figura. O lugar onde chega é já aquele de onde deve partir. Além é sempre aquilo que o espera.

sábado, 16 de setembro de 2017

Poemas do Viandante (649)

Frantisek Kupka - Encuentro (1919)

649. o centro do silêncio rosna

o centro do silêncio rosna
se encontra
no orvalho
uma mão de caruma
e ladra
como um ladrão
sabe ladrar
à porta de pedra
desfeita
no feitiço da linguagem

(13/12/2016)

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Haikai do Viandante (335)

Jan Sudek

Os ramos despidos
na sombra do meu olhar.
Espero o inverno.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Meditação breve (46) - Rede

Albert Renger-Patzsch - Crab fisherman (1927 )

Transportamos a rede na qual, incrédulos, nos enrolamos.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Máscaras e armaduras

Charles Clifford - The Armor of Philip III, 1866

Fala-se muitas vezes de máscaras sociais, estando estas ligadas aos diferentes papéis que os seres humanos desempenham. São um dos artefactos cénicos que são mobilizados na vida social. Nelas está sempre presente a dimensão do disfarce, o qual nos permite encarar de forma menos traumática as interacções que são exigidas nos espaços públicos e privados em que vivemos. A questão é que a máscara, sem que o pensemos, transforma-se muito cedo em armadura. Um dispositivo de defesa, de protecção, mas também de ataque. O que dá solidez às máscaras sociais é o facto de elas serem armaduras disfarçadas, armaduras mascaradas. Proteger-nos do perigo e conquistar vantagens, eis o programa da nossa animalidade. Para chegar à vida do espírito não basta tentar arrancar o disfarce, a máscara, é preciso perceber o que se esconde nele. E o que se esconde não é um suposto verdadeiro ser, mas a armadura do combatente, o sinal do seu desejo de conflito.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Meditação breve (45) - Fogos de artifício

Hernando Viñes - Feux d'artifice (1954)

A generalidade das actividades, mesmo as mais sérias, a que os homens se entregam não passam de fogos de artifício. Iluminam-nos por um instante para que eles esqueçam da escuridão que os envolve e os habita.