segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Poemas do Viandante (606)

Cruzeiro Seixas - Homem com pássaro (1958)

606. um pássaro poisa

um pássaro poisa
na cabeça 
curva
do homem
um ramo de giestas
tão vivas
tão cantantes
no silêncio ofegante
do odor vernáculo
da madrugada

(06/12/2016)

domingo, 22 de janeiro de 2017

Meditação breve - 5. Escrita

John Yardley - Choosing a book

A proliferação de livros de todo o género numa cultura como a ocidental é uma tentativa desesperada para colmatar o facto das duas personagens fundamentais e fundadoras dessa cultura, Sócrates e Cristo, não terem escrito uma linha. Tudo o que se escreve no Ocidente não passa de uma hermenêutica dessas ausências originais. E numa cultura cujos fundadores nada escreveram tudo pode ser dito e escrito.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Meditação breve - 4. Niilismo

Jesús de Perceval - Hasta que se aniquile (1965)

O que é o niilismo? A desvalorização de todos os valores? Não, propriamente. O niilismo é a consumação da tendência para o nada que habita tudo aquilo que existe. O niilismo é a retirada do espírito de um modo de vida que, um dia, pareceu eterno e que o tempo, essa máscara vulgar da eternidade, revelou na sua verdade, isto é, no nada que era.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Fim do mundo

José Gutiérrez Solana - El fin del mundo (1932)

Uma das categorias centrais da vida espiritual é a de fim do mundo. Não se trata, porém, de um reconhecimento de que o mundo terá um fim, mas da própria finitude dos mundos humanos. Cada mundo humano é o produto da vida espiritual, de uma certa compreensão que o espírito tem de si mesmo. Esse mundo terá a sua forma de vida, as suas instituições, os seus costumes e a sua forma de pensar. O apocalipse que revela o fim do mundo significa que a vida espiritual já não se reconhece nesse mundo de vida e em tudo onde ela tomou forma. O espírito prepara-se então para morrer, para renascer num outro mundo, com novas instituições, modos de vida, formas de pensar e de se realizar. A categoria do fim do mundo torna patente a natureza metamórfica da vida espiritual, cristalizando-se nessa categoria o momento libertador de uma forma caduca, a morte desta, e um novo nascimento no espaço e no tempo.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Meditação breve - 3. Protecção

Gerardo Rueda - Positivo-Negativo (1965)

Para além do positivo e do negativo está a realidade. A sua luz é tão excessiva que os nossos olhos necessitam de se proteger com um catálogo de conceitos. 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Poemas do Viandante (605)

Maria Helena Vieira da Silva - O passeante invisível (1951)

605. invisível passa

invisível passa
o passeante nocturno
praças e vielas
rodopiam
em seus olhos
de luz
chamas de pedra
flutuam
no inquieto xadrez
do inverno e da rua

(06/12/2016)

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

História de um olhar

Ferdinand Hodler - Alma decepcionada (1891)

Vem todas as manhãs, desde que não chova, e parte pouco depois do meio-dia. Ainda era jovem quando começou a vir. Senta-se e olha. Não, não. Se procuro na memória descubro que o espectáculo, ao longo de tantos anos, está longe de ser monótono. Nos primeiros tempos, o seu olhar era garboso e inquieto, havia nele ânsia de domínio de tudo o que o rodeava. Mais tarde, parecia ter uma certeza funda nesse senhoria. A partir de certa altura, deixou de olhar em volta. Olhava para si. Agora olha para baixo, para a terra. Chega e parte e nunca dela desprende o olhar.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Meditação breve - 2. Ansiedade

Edvard Munch - Ansiedade (1894)

O grau de ansiedade mede a distância que vai de nós àquilo que nos envolve e do qual nos separámos. A separação da envolvência transforma esta não apenas numa coisa desconhecida mas, e fundamentalmente, numa ameaça e num perigo. A ansiedade é o sintoma de um esquecimento. 

domingo, 15 de janeiro de 2017

Haikai do Viandante (313)

Manuel Narváez Patiño - Invierno (1993)

desejo de luz
no coração do inverno
branca a neve cai

sábado, 14 de janeiro de 2017

Meditação breve - 1. O Inverno

Ramón Casas Carbó - Invierno (1893)

Há no Inverno uma ilusão de suspensão do tempo, como se este, desgastado pelo frenético devir das estações mais quentes, precisasse de se recolher na sombra e na solidão, onde o fogo, uma reminiscência dos dias de Verão, o mantém na vida. Ali recupera a força com que vai brotar no exterior e entregar-se de novo à veloz vertigem da corrida que só para nós, pobres mortais, tem fim.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Poemas do Viandante (604)

Arden Quin - Cercle Rouge (1944)

604. um círculo vermelho

um círculo vermelho
pulsa
na relva rude
e verde da solidão
grita preso
numa geometria
feita de triângulos
de adobe
e quadrados
de cinziareia de sol

(06/12/2016)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Do burlesco

Thomas Hart Benton - Burlesque (1922)

O burlesco e o grotesco que esteticamente lhe está ligado são visões críticas da distorção da própria vida espiritual. Muito facilmente os homens tomam a vida do espírito - nos múltiplos domínios que a constituem - como uma afirmação de si e da sua vaidade. Esta incongruência entre aquilo que anseia a libertação das restritas fronteiras do pequeno ego e o seu aprisionamento por este mesmo ego torna-se risível. O burlesco tem então o poder, através do exagero caricatural, de tornar patente, aos olhos de todos, o quão grotescos podem ser os homens.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

A própria sombra

John Yardley - A book on the terrace

Temo-a. Sento-me no terraço e, mal abro o livro, dou com a minha sombra presa à parede. Sinto uma vertigem, mas deixo os olhos correr sobre as palavras, cavalgar as linhas, para que os dedos possam mudar as páginas. Nunca olho, sinto, porém, que a sombra está viva e se vai transformando conforme a leitura avança, Chego a sentir-lhe o cheiro. É nesses momentos que ela me atrai. Desejo saber como é, mas temo que ela se desprenda da parede e me ataque. Então, naquele instante em que o medo se está a transformar em pânico, fecho o livro e a sombra desaparece. 

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Sobre a atenção

Avigdor Arikha - Alba in the Studio (1988)

Por isso, vigiai; porque não sabeis o dia nem a hora (Mat. 25:13).

A condição do homem é a da ignorância. Daquilo que é essencial, ele não sabe nem o dia nem a hora. Não sabe o tempo nem o modo. É essa ignorância, o reconhecimento dessa ignorância, que conduz ao imperativo: vigiai. Vigiar significa estar atento, mobilizar a atenção. O que o versículo de Mateus torna manifesto é que a principal faculdade do homem não é a inteligência, nem a vontade, tão pouco a memória ou a imaginação. O principal é a atenção. O que significa então o estar atento, o vigiai? Significa estar presente perante aquilo que, a cada instante, se manifesta. O fundamento da vida espiritual e, de toda a vida, é a pura atenção. Atenção a si e atenção ao outro.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Poemas do Viandante (603)

Ramón Rivas - Abstracto (1955)

603. constelações lunares

constelações lunares
germinam nos campos
elevam a luz
ao fruto dos céus
e aves e nuvens
e anjos de asas
gramaticais
incandescem
no dedo solto
e livre no livre
e liberto
aluamento da terra

(06/12/2016)

domingo, 8 de janeiro de 2017

Prazer pleno

Guillermo Muñoz Vera - La cosecha (1995-96)

É no capítulo três do livro de Eclesiastes que surge a grande meditação sobre os ritmos de vida do homem. O central nesse capítulo, porém, não é o ensinamento de uma rítmica existencial mas a afirmação de que a vida merecer ser vivida plenamente: assim eu concluí que nada é melhor para o homem do que alegrar-se e procurar o bem-estar durante a sua vida; e que comer, beber e gozar do fruto do seu trabalho é um dom de Deus (Eclesiastes, 3:12,13). A rítmica existencial, que começa o capítulo, só faz sentido no âmbito da busca de uma vida feliz e realizada, realização onde se inscreve uma interpretação hedonista da existência. O ritmo do plantar e do colher não é então o do opróbrio e da desgraça mas do prazer pleno de estar vivo. E esse prazer e o reconhecimento e a gratidão pelo dom da vida.



sábado, 7 de janeiro de 2017

Haikai do Viandante (312)

Lyonel Feininger - Ao longo do rio (1952)

ao longo do rio
vão perdidos os meus olhos
sombras e navios

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

O combate decisivo

Arshile Gorky - Combate enigmático (1937)

O maior, mais decisivo e enigmático dos combates não é aquele que opõe os homens entre si ou o que os opõe à natureza. Esses combates por duros e mortais que sejam são superficiais, não porque não sejam dolorosos mas porque resultam de uma visão superficial da vida. O verdadeiro combate é aquele que opõe o espírito a si mesmo, essa noite escura onde se confronta com a ilusão que nasce do desejo, que nasce do seu próprio desejo de verdade e de clarividência.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Poemas do Viandante (602)

Zao Wou-ki - 22-01-68

602. trémulo tremo no oceano

trémulo tremo no oceano
tenebroso
na fímbria azul
do mar
monstruoso
ó fria montanha
coberta de névoa
pobre palácio
d’água e verdierva

(05/12/2016)

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Da luz e da sombra

Maurice Chabas - Hacia la luz (1895)

A atracção que o homem sente pela luz revela a sua condição sombria. Umas vezes a luz é vista como refúgio, hipótese ilusória de fuga de si mesmo, outras como possibilidade de olhar o que há em si de sombra e de trevas e, por essa iluminação, reconciliar-se com a sua natureza. 

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Da queda

Ana Peters - A Queda (1996-97)

A tradição judaica, uma das tradições constitutivas do homem ocidental, coloca como princípio de hominização - não entendida, claro, na perspectiva científica - o mito da queda. O homem tal como o conhecemos é o resultado de uma degradação originária simbolizada, mas não descrita, na perda de Adão e Eva. É este mito que ecoa nas diversas manifestações da vida do espírito - da arte à filosofia passando pela religião -, dando-lhe um horizonte. O mito não conta apenas uma história simbólica sobre a nossa existência degradada e degradante. Traça também uma finalidade, um horizonte de toda a vida, a restauração da condição prévia à queda. O mito da queda é menos a justificação da nossa maldade, embora também o seja, do que a recordação do sentido que o homem deve dar à sua existência.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Auto-retrato

Jorge Carreira Maia - Auto-retrato (2014)

Se havia sol, ele vinha e parava defronte da velha parede.  Na aldeia, dizia-se que ali tinha vivido em criança. As ruínas eram o que restava da casa onde nascera. Talvez. Sabe como são as coisas nos sítios pequenos. A imaginação trabalha depressa e com alvoroço. O que fazia ele perante a parede? Nada. Chegava até ela, detinha-se, olhava-a, enquanto o sol o iluminava por trás e a sombra se projectava. Um dia, porém, reparei que a sombra se tinha entranhado na parede. Fui ver. Não havia sinal de pintura. A sua presença bastara para criar o auto-retrato. Nunca mais voltou.

domingo, 1 de janeiro de 2017

Poemas do Viandante (601)

Zao Wou-Ki - 10-2-76

601. de súbito o caos

de súbito o caos
coagula
em nuvens de cloro
e raios irrompem
cavalos de luz
na pradaria
do infinito
luas sonoras
a vibrar
no cru coral do tempo

(05/12/2016)

sábado, 31 de dezembro de 2016

Haikai do Viandante (311)

Benvenuto Benvenuti - Inverno - Mattina (1905)

manhã de inverno
o sol cai sobre os ciprestes
campos de saudade

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Criadores de espantalhos

Arturo Souto Feijoo - Espantallo (1934)

Na ideia de espantalho pensa-se uma ilusão capaz de provocar medo e, desse modo, evitar que certo objectivo seja realizado. É um truque difundido há muito nos campos para protecção das culturas. O ser humano, contudo, é exímio em criar espantalhos para si mesmo, para que não seja confrontado com os objectivos que a vida lhe coloca e os tenha de realizar. Muitas vezes, o maior dos espantalhos, a grande ilusão, reside numa aparência de realização e na congratulação com aquilo que se costuma designar por triunfo na vida.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Poemas do Viandante (600)

Zao Wou-Ki - 10-11-58/30-12-70

600. incandescências de areia

incandescências de areia
embutidas
no basalto do dia
desfiguram-se
entre a sépia
do deserto
e o cobalto que
desce na estátua
daqueles olhos

(05/12/2016)

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

A mulher sentada

Henri Rousseau - River Bank (1890)

Sempre a vi ali. Sentada, contempla o rio. Por vezes, levanta a cabeça e observa o arvoredo ou o casario, como se esperasse algum sinal, mas logo o olhar volta para o fluxo das águas. Nunca ninguém lhe dirige a palavra. Quem por ali passa ignora-a ou, comecei a desconfiar, não a vê. O banco é só dela e, por instinto, suponho, todos respeitam a propriedade. Nunca sai dali? É isso que quer saber? Se se ouve o dobre a finados, ela levanta-se, entra no barco, pega nos remos e desaparece na curva do rio. Quando volta, senta-se e volta a fixar os olhos nas águas que passam. Em silêncio.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Das trevas

Albert Gleizes - O centro negro (1925)

Há duas espécies de trevas na vida do espírito. A primeira espécie é objectiva. Resulta da ausência absoluta de luz. São as trevas exteriores. A segunda é subjectiva. A luz é de tal maneira intensa que o espírito fica cego. São as trevas interiores. Às primeiras resta sempre a expectativa de que um foco de luz as ilumine. Às segundas há que aceitá-las e aprender a navegar na escuridão.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

A conversação

André Hambourg - La conversation (1929)

Na vida espiritual, tomada numa ampla acepção, a conversação, como outros aspectos da vida dos homens, apresenta um ambiguidade essencial. Tomada como bavardage, tal como os franceses a entendem, ela é um factor de inibição do caminho, uma distracção, no melhor dos casos, e uma alienação, nos piores. No entanto, é fundamental como o encontro entre espíritos, encontro onde se inter-animam e se fazem progredir no caminho. É também estrutural enquanto diálogo consigo mesmo, onde a conversação estabelece a ponte entre as partes cindidas do self e lhe permite aperceber de uma unidade anterior a toda a cisão que o espírito sofre no mundo.

domingo, 25 de dezembro de 2016

Poemas do Viandante (599)

Bill Jacklin - Duet (1971)

599. a sonora sombra

a sonora sombra
desce
pelas escadas
da noite
e pura paira
na fronteira
irisada
de um fruto
ferido por terra

(04/12/2016)