sábado, 30 de agosto de 2014

Da pintura abstracta

Lee Krasner - Abstract #2 (1946-1948)

O viandante interroga-se muitas vezes sobre o papel da pintura abstracta no desenvolvimento espiritual da humanidade. Não é uma interrogação sobre pintura ou sequer sobre estética. Trata-se antes de uma questão ontológica. Que potências ocultas essa pintura desoculta e traz à luz do dia? Só uma visão ingénua da pintura poderia afirmar que aquilo que está num quadro nada tem a ver com a realidade. A libertação desses planos do real têm que finalidade? A mera expressão de um caos que se libertou da ordem para que o cosmos se dissolva ou é a solicitação para que o espírito apreenda essa desordem originária e encontre um caminho para configurar uma nova ordem?

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Poemas do Viandante (471)

JCM - Chemin qui ne mènent nulle part III (2014)

471. não sei de que beleza falar

não sei de que beleza falar
nestes dias de seca

esgotei o musgo e o veludo
de cada palavra

entreguei à cobiça do tempo
o que era sublime

resta-me as mãos vazias e um rio
afluente do silêncio

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Haikai do Viandante (202)

JCM - Time on space (Baleal) (2007)

secreta passagem
na dura pedra esculpida
desejo e voragem

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Signo sinal 5. Sinais de luta

JCM - Time on space. Baleal (2007)

Se a alma dos homens fosse visível como uma rocha, também nela avistaríamos múltiplos sulcos, impressões deixadas pelo tempo e pelas diversas experiências que a vida traz consigo. Nem sempre esses sulcos atravessarão planícies férteis ou vales amenos. Muitas vezes rasgam as encostas mais escarpadas. São então sinais de uma dura luta contra o que é fácil e cómodo. São rugas deixadas pelo crescimento da vida do espírito.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Poemas do Viandante (470)

JCM - Speculum III (2014)

470. embriagado volta o sonho

embriagado volta o sonho
na fímbria da manhã

um velho cais traçado a carvão
pela mão do deus

e na água sonâmbula 
um olhar sombrio

o teu coração marejado de luz
e súbitas lágrimas

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Da distribuição da dádiva

JCM - Raiz e Utopia (os trabalhos e os dias) (2014)

O viandante não tem sítio onde guardar aquilo que colhe, pois guardar o que recebe é dissipar a dádiva. Tudo o que transporta consigo é dádiva gratuita, dádiva que pede para ser distribuída, uma e outra vez, como se quanto mais distribuísse mais houvesse para distribuir. Aquele que retém o recebido acumula não o bem mas a dívida, que será tanto maior quanto mais a dádiva for retida.

domingo, 24 de agosto de 2014

Abrir o portão

JCM - Chemins qui ne mènent nulle part II. Vidago (2014)

O mistério da vida está todo contido nesse cadeado que fecha o portão que nos permite aceder à ponte e, por ela, à outra margem. Se a vida é uma viagem, esta não é mais do que a travessia de uma para outra margem. De aqui para além. O difícil, contudo, está em descobrir o segredo que permite abrir o portão que veda a passagem.

sábado, 23 de agosto de 2014

A luz e as trevas

JCM - Mitologias (Sonho numa noite de Verão) (2014)

O tema da luz assedia a imaginação do homem de tal maneira que nunca estará esgotado. Sempre novas configurações do tema virão adicionar-se às anteriores, projectando novos clarões sobre as densas trevas. Seja a luz natural da razão que a modernidade e o iluminismo incensaram ou a luz sobrenatural vinda de não se sabe que primórdios, a verdade é que a luz parece ter apenas um parco poder, o de abrir uma clareira nas escarpas da escuridão. E isso tem sido o suficiente para o infinito trabalho da imaginação sobre a eterna luta entre a luz e as trevas. 

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Poemas do Viandante (469)

Ilse Bing - Chairs with Leaves, Luxembourg Gardens, Paris (1952)

469. o silêncio preenchido

o silêncio preenchido
de folhas mortas

a luz vítrea magoada
pela tua ausência

o banco abandonado
na memória

assim declinam os dias
na clareira do verão

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

A sombra que nos acolhe

JCM - Ruínas. Cabo Espichel (2014)

A sombra que nos acolhe não é apenas um lugar onde nos protegemos dos excessos do calor. A sombra é, ao mesmo tempo, a nossa condição e o observatório de onde olhamos a realidade. Como seres humanos, não somos nem trevas absolutas nem a pura luz, mas essa mescla que é a sombra. E é dela - dessa sombra - que perscrutamos o horizonte para delinear cada etapa da viagem que nos cabe.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Haikai do Viandante (201)

Ilse Bing - Kloster Reichenau am Bodensee (1929)

o velho telhado
cobre aquele segredo
nunca antes lembrado

terça-feira, 19 de agosto de 2014

O espelho e a face

JCM - Speculum I (2014)

Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Desde que me tornei homem, eliminei as coisas de criança. Hoje vemos como por um espelho, confusamente; mas então veremos face a face. Hoje conheço em parte; mas então conhecerei totalmente, como eu sou conhecido. (Paulo, I Cor 13: 11-12)

Quem sou eu? Esta interrogação não é apenas o sinal de uma busca de identidade. É o sintoma de uma confusão. Aquilo que sei de mim resulta apenas do que vejo num espelho. Esta visão confusa não é um mero problema epistemológico, mas um indicador do grau de maturidade. A analogia trazida por Paulo remete explicitamente para isso. Vejo-me ainda como se vêem as crianças. A viagem do viandante é aquela que o conduz desta visão em espelho - toda a especulação é assim vista como um estado infantil da existência - para uma visão face a face. A viagem é uma transição da menoridade para a maturidade, a qual é esse momento em que me vejo tal como sou visto, em que me vejo face a face e descubro a minha própria verdade.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

O próximo passo

JCM - Símbolos (2014)

Por vezes, o viandante encontra no caminho estranhos símbolos. Não indicam uma direcção, nem trazem consigo uma verdade indisputável. Apenas desencadeiam a meditação. E isso é o bastante. Estimulada pelo símbolo encontrado, a meditação autonomiza-se de tudo o que lhe é exterior. É nessa estranha clareira que o viandante decide o próximo passo.

domingo, 17 de agosto de 2014

Na densa névoa

JCM - Mitologias (o dia de  retorno de D. Sebastião) (2008)

Subir a escarpada montanha e adentrar-se na densa névoa, rasgar um caminho - o seu caminho - na pedra inóspita e velada pelos céus. Esta é a viagem do viandante. Move-o o puro caminhar, pois em cada passo há uma luz que se abre e o orienta - como se, estando ela ali, o chamasse de longe - na densa névoa que é a vida dos homens na Terra.

sábado, 16 de agosto de 2014

Poemas do Viandante (468)

Ellen Auerbach - Under my umbrella (1949)

468. a mão suspende-se

a mão suspende-se
sobre a pele
e na sombra
tece-se a paisagem
onde ateado
o fogo alumia
o fim da viagem

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Lugar nenhum

JCM - Chemins qui ne mènent nulle part (2008)

Nunca meditamos suficientemente o verso de Rilke. Caminhos que levam a parte alguma são ainda caminhos? Não deverá qualquer caminho levar-nos a um lugar determinado, a um destino prévio e já constituído? O que significa então esse nenhum lado? Significa a indeterminação, em primeiro lugar. Significa, depois, que esse lugar para onde se caminha não existe, ele apenas poderá emergir do próprio caminhar. Na vida do espírito não são os lugares que determinam caminhos para ligação entre eles. É o caminhar que abre o caminho e o lugar. É a viagem que aflora a clareira e a determina, para logo a abandonar. O viandante caminha pois não pertence a qualquer lugar.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Haikai do Viandante (200)

Francesco Ferruccio Leiss - Ricordo di una serata nebbiosa (1955)

a luz desvanece-se
no frio segredo da noite
prodígio acontece

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Da ambiguidade do ritual

JCM - Raiz e Utopia (Ritual) (2014)

O ritual, como tudo o que é essencial na vida dos homens, possui uma ambiguidade constitutiva. O ritual é o processo pelo qual a vida social, religiosa, cultural, etc. transita do caos para ordem. É uma fonte de vitalidade e uma forma do homem lidar com o que há de desmedido e de transcendente. Transporta, porém, consigo uma grande ameaça. A ritualização da existência, se desligada do espírito que lhe deu existência, torna-se uma fonte de morte. Ritualizada e vazia, a vida perde o sentido.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

A presença do eterno

JCM - Ruínas, Évora (2008)

Esses lugares abandonados pela vida a que chamamos ruínas são sinais dispersos pelo mundo. Sinalizam o passar do tempo e a precariedade de tudo o que é feito pelo homem. Mas a sua insistência em persistir ultrapassa toda a medida humana e aponta para o que há de mais incompreensível para a nossa experiência. Ruínas, mais do que o restolho que a vida abandonou, são a presença do eterno naquilo que é tecido de tempo.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

O sonho como ensaio

JCM - Colour dreams (2014)

Os sonhos sempre causaram perplexidade aos homens. Viram neles uma antevisão do futuro (a natureza profética dos sonhos) ou o sintoma de um trauma do passado (a psicanálise freudiana). Esta relação do sonho com a temporalidade acaba por esconder uma outra não menos importante, a relação com o espaço físico. O sonho é a experiência onde os homens ensaiam uma suspensão das leis da natureza, vivendo através deles aquilo que não é permitido pelas leis físicas que governam os corpos. A pergunta que nos deveria ocorrer seria não sobre o que irá acontecer no futuro ou sobre aquilo que aconteceu no passado e está oculto no inconsciente. A pergunta decisiva sobre o sonho deverá ser antes esta: por que razão temos necessidade de ensaiar oniricamente uma vida fora dos constrangimentos impostos pelas leis da natureza?

domingo, 10 de agosto de 2014

Da necessidade de mitologias

JCM - Mitologias (animais totémicos)  (2014)

A vida dos homens é uma longa colecção de mitologias, um exercício contínuo de mitificações, uma produção ininterrupta de mitos. Com a experiência trazida pela modernidade e pelo iluminismo sabemos que entre o mitificar e o mistificar o passo é curto, demasiado curto. Assim informados, por que razão insistimos no trabalho do mito? Não seria mais curial entregar tudo à guarda da ciência empírica? Isso seria verdade se não pressentíssemos que uma outra verdade exige um outro acesso. A nossa disposição para as mitologias reflecte não o amor dos homens às ilusões e às quimeras, mas o seu fundo compromisso com a verdade, com uma outra verdade que escapa à ciência e nos chama de longe.