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domingo, 28 de abril de 2013

Do sofrimento e da desolação

Albert Bloch - The Grieving Women (1950-57)

O utilitarismo tem como ponto fundamental a maximização do prazer e a minimização da dor. Este princípio hedonista aplica-se ao indivíduo mas também à sociedade. Em Stuart Mill, por exemplo, o indivíduo deve aprender a adequar a sua felicidade à felicidade do grupo. Estas teorias, bem como as materialistas, esquecem demasiado depressa a estranha ligação que há entre prazer e dor ou entre felicidade e desolação. Isto era muito claro para os pensadores gregos, mas a deriva subjectivista trazida pela modernidade acabou por criar um mundo onde a infelicidade, a dor, o sofrimento e a desolação - apesar da sua presença ominosa - não são dignos de ser considerados nem de ser vistos. O triunfo do sujeito sobre a dúvida em Descartes transforma-se na ideologia da felicidade e do apagamento da dor. O próprio cristianismo, fundado no sofrimento e morte de Cristo, foi sendo adocicado - por exemplo, pela retórica vazia do amor (não é que o amor seja coisa vazia, mas o modo como se fala dele é-o muitas vezes) - de forma a não incomodar as boas consciências que sob ele possam florescer. Não se trata de fazer a apologia do sofrimento. Trata-se de não o negar e de perceber que ele faz parte da viagem, pois confronta-nos radicalmente com a nossa natureza frágil, finita e falível. Também ele, porventura de maneira mais acentuada do que a felicidade e o prazer, nos ensina alguma coisa sobre a realidade e a autêntica natureza daquilo que somos.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Da felicidade

Charles Lapicque - L'invitation au bonheur (1954)

Estranho desejo esse que toca a todos os homens, o de uma vida feliz. Filosofia e religião, arte e ciência, mesmo a política, tudo se move em nome da felicidade. No entanto, apesar dos múltiplos convites que ela dirige ao homem, sempre lhe escapa, persistente miragem no deserto da vida. O que seríamos nós, seres humanos, se abandonássemos a velha dicotomia feliz-infeliz? O que aconteceria se eliminássemos o desejo de felicidade e riscássemos do mapa sentimental a infelicidade? Talvez nesse momento coincidíssemos connosco e nenhuma brecha se abrisse no nosso ser. Mas não será essa coincidência consigo aquilo que sentimos quando nos sentimos felizes? E a busca da felicidade não se deve a essa distância entre o que somos e o que desejamos? E a infelicidade não nasce da constatação de um hiato entre desejo e realidade? Talvez não haja coisa que causa mais infelicidade do que a ideia de felicidade, essa revolta contra o que, a cada instante, somos.